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MS-13: a gangue de rua que tira o sono de Trump

Megaoperação em Los Angeles detalha o funcionamento da gangue considerada uma prioridade de segurança

gangues
Um integrante da Mara Salvatrucha, preso na Guatemala em 2005.

Tudo começou com uma pergunta: “De que gangue vocês são?”. Ever Rivas, carinhosamente conhecido como Satanás, se aproximou de três clientes do restaurante Little San Salvador e fez essa pergunta enquanto eles jantavam na noite de 15 de agosto de 2015. Não se sabe qual foi a resposta, mas dois deles terminaram esfaqueados e outro morto a tiros na porta do local. Estavam no território errado: a rua Western, entre Santa Monica Boulevard e Melrose Boulevard, no coração de Hollywood. Território da Mara Salvatrucha de Los Angeles, a MS-13.

Cenas como esta são contadas com uma incrível frieza policial em uma queixa apresentada na quarta-feira no tribunal federal de Los Angeles, depois de uma megaoperação em que foram presos 21 membros dessa gangue de rua. Poucas semanas antes, o presidente Donald Trump e o Secretário de Justiça Jeff Sessions, tinham afirmado que a MS-13 era uma prioridade absoluta em sua estratégia de segurança. A operação policial não tem nada a ver com Trump nem ele tentou ganhar mérito com ela. É uma investigação de três anos que revela muitos detalhes da organização interna da gangue de rua que parece uma obsessão para o presidente.

O documento descreve com muitos detalhes cada ameaça, cada golpe, cada venda de droga e cada assassinato conhecido dos detidos da MS-13 em Los Angeles. Oferece uma visão do dia a dia dos negócios da organização que parece saído de um roteiro de filme. A maioria dos fatos relatados pela polícia pareceriam simples reuniões de negócios, vários recados (“Torres disse ao Pérez para comprar um cartão PayPal para que o pessoal do Adams envie o dinheiro”), se não estivessem falando de drogas, violência e morte.

Um detido na operação contra a MS-13 na quarta-feira passada em Los Angeles.
Um detido na operação contra a MS-13 na quarta-feira passada em Los Angeles. AP

O relatório aponta que a MS-13 controla 20 cliques, ou distritos, cada um funcionando como sua pequena máfia territorial. Detalha a implantação territorial com precisão surpreendente, como por exemplo qual é a esquina de MacArthur Park, uma popular área de negócios latinos em frente ao Consulado do México, controlada pela máfia salvadorenha.

A polícia relata desde os crimes menores, como Jason Lamar Ardoin, Smokey, roubando a socos uma vítima em 19 de abril de 2009; ou a extorsão constante de um restaurante em Van Nuys que também era usado para reuniões; até a cena no restaurante Little San Salvador. Vendas rotineiras, como a feita por Sergio Alexander Galindo, Killer, em 9 de setembro de 2014: 54,8 gramas de metanfetamina e uma pistola Sig Sauer de 9 mm com sete carregadores por 1.500 dólares. Assim, durante mais de 127 páginas de relatório policial.

Os códigos internos da gangue giram em torno do número 13. Os castigos, por exemplo, são múltiplos desse número. A vítima é cercada e golpeada violentamente por 13 segundos, 26, 39… segundo a gravidade do delito, enquanto alguém cronometra. Nelson Enrique Corrales, Speedy, recebeu 26 segundos de golpes por faltar com respeito à noiva de outro membro da gangue.

Os alvos da operação do FBI em Los Angeles.
Os alvos da operação do FBI em Los Angeles. AP

A denúncia conta também a história desse bando, que começou como uma gangue de imigrantes e refugiados salvadorenhos no final dos anos 1970 em Los Angeles. Mara Salvatrucha “se tornou notória por cometer atos de violência brutal” nos anos 1980. Depois, em meados dos 1990 se associaram com a Máfia Mexicana. A Eme controla a vida nos presídios e oferecia proteção em troca de lealdade e impostos de suas atividades. Foi então que acrescentaram o número 13 (a posição da letra m no alfabeto) a seu nome: MS-13. Hoje têm 10.000 integrantes em 32 estados, segundo os especialistas. Estão classificados como organização criminosa internacional.

O fenômeno das gangues foi exportado de Los Angeles para El Salvador, e não ao contrário. À medida que iam sendo deportados, os integrantes das gangues de rua reproduziam as estruturas criminosas no país centro-americano. Em meados dos anos 1990, a MS-13 já era uma organização internacional com ramificações na Guatemala e em Honduras. Nesta década tentaram expandir-se para a Espanha. Em um dos episódios do relatório policial, um dos detidos, Carlos A. Zepeda, conhecido como Antonio Meza ou Blackie, apresenta-se como empregado de Joaquín Guzmán Loera, El Chapo, o narcotraficante mais poderoso do mundo. Era 7 de janeiro de 2015, um ano antes de El Chapo ser preso.

Entre dezembro de 2013 e abril de 2014, a força tarefa da Polícia de Los Angeles contra as Gangues Violentas (LAMTFVG na sigla em inglês) realizou duas grandes operações na cidade que resultaram na detenção de 60 pessoas, incluindo os principais líderes da gangue naquela altura. O que aconteceu a seguir, segundo a denúncia, revela os efeitos que essas operações têm na estrutura de comando dos criminosos.

Em 26 de outubro de 2014 foi realizada uma espécie de assembleia geral da MS-13 na casa de um dos líderes, em Huntington Park. José Balmore Romero, Porky, registrou todos os presentes em busca de telefones celulares ou gravadores. Um deles disse que pensava transmitir a conversa por viva-voz a outro que não tinha ido. Balmore agarrou o telefone, tirou a bateria e o esmagou contra o chão. Naquela reunião se debatia quem deveria “tomar as rédeas” da organização depois da ação policial.

Nenhum dos presentes quis dar um passo adiante. Ser o líder significava, com toda certeza, acabar na prisão. Concordaram em fazer uma direção associada da gangue. Três anos depois, todos os que estavam naquela reunião estão presos menos três: Irwin García, Jorge Ramos e Jesse Pérez, cujas fotos foram distribuídas pelo FBI.

Na quarta-feira passada, os agentes federais esperavam que a nova operação tivesse o mesmo efeito desencorajador. Por alguns meses, o Governo Trump poderá comemorar uma redução das ações mais terríveis. Mas, em algum momento, alguém dará um passo adiante de novo.

"Os Maras são tão norte-americanos quanto o beisebol"

Em um dos registros de casitas (esconderijos) da MS-13, os agentes encontraram uma cópia do livro Gangsters without Borders, uma exaustiva análise sobre essa gangue escrita pelo professor Thomas Ward, da Universidade do Sul da Califórnia. Ward viveu oito anos com integrantes da gangue para escrever o ensaio. “As gangues são tão norte-americanas como a torta de maçã ou o beisebol”, diz o professor Ward em uma entrevista por telefone.

Ward ri quando lembra que o presidente Donald Trump disse no Twitter que a MS-13 é consequência da política de imigração de Barack Obama. “Diz coisas escandalosas que não têm nada a ver com a realidade. É difícil responder a essas coisas”. Recentemente, o Governo comemorou a prisão de 1.000 integrantes de gangues em todo o país e, segundo os dados oficiais, dois terços deles eram cidadãos dos Estados Unidos.

Ward não acredita que a MS-13 seja a gangue mais perigosa de país. “Vai em ciclos. Se há uma briga entre duas facções dos Crips, por exemplo, durante seis meses ou um ano pode haver uma dúzia de mortos. A MS-13 tem ciclos de violência como as demais”. Também não é a gangue mais numerosa, esse posto é ocupado pela Mara 18.

O professor de antropologia especialista em gangues acredita que durante os próximos seis ou oito meses “não vamos ouvir nada” da Salvatrucha enquanto se reorganiza depois da ação policial. Mas a Mara não desaparecerá nunca, diz. “Trump, Clinton e Bush, os três disseram que acabariam com a MS-13. Mas nem se prendêssemos todos elas desapareceriam, porque as condições que as geraram continuam aí: pobreza, discriminação racial e falta de recursos” das comunidades de salvadorenhos. “Dizer que a imigração alimenta as gangues é não entender de onde vêm esses rapazes”.

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