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Rússia suspende acordo com os EUA que evitava incidentes aéreos na Síria

Putin acusa os EUA de planejarem a intervenção militar unilateral antes mesmo do ataque com armas químicas que matou 86 pessoas

O presidente russo, Vladimir Putin, na última quarta-feira.
O presidente russo, Vladimir Putin, na última quarta-feira. EFE

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, considera que o ataque norte-americano à Síria constitui “uma agressão a um Estado soberano, o que infringe as normas do direito internacional com um pretexto inventado”, segundo um comentário divulgado por seu serviço de imprensa no site do Kremlin. A Rússia anunciou, portanto, que “suspende” o acordo com os Estados Unidos que evitava incidentes aéreos e garantia a segurança dos voos em operações feitas na Síria, conforme informou a chancelaria, que solicitou uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU para tratar da situação na Síria depois do disparo de 59 mísseis contra uma base aérea na província de Homs.

Moscou defende que a ação unilateral de Washington foi decidida antes mesmo do ataque químico de terça-feira em Khan Sheikhun, supostamente perpetrado pelas tropas de Bashar al Assad e que causou a morte de 86 civis, sendo 30 crianças e adolescentes. O chefe de imprensa do presidente russo, Dmitri Peskov, confirmou que o Kremlin foi avisado com antecedência sobre o ataque na madrugada, mas não detalhou quanto tempo antes.

A decisão oficial russa, em nível verbal, é “adequada e sóbria”, segundo o respeitado especialista militar Alexei Arbatov, da Academia de Ciências da Rússia. Arbatov advertiu, entretanto, que o cancelamento do acordo bilateral de cooperação é “precipitado e inadequado”, por colocar em risco a segurança dos pilotos de diversos países que sobrevoam a região atualmente. Recém-chegado dos EUA, o acadêmico considerou que o bombardeio norte-americano é uma “aventura” isolada com o objetivo de melhorar a popularidade interna de Trump.

Armas químicas

O Kremlin argumenta que o Exército sírio não dispõe de arsenais químicos, já que sua destruição foi “determinada e confirmada pela Organização de Proibição de Armas Químicas [OPAQ]”. Putin considera que “a total ignorância” sobre “casos de utilização de armas químicas por parte dos terroristas [insurgentes sírios] só piora gravemente a situação”.

O presidente russo acrescenta, nessa nota, que Trump, ao ordenar um ataque à base de Al Sharyat, “causa um importante dano às relações entre Washington e Moscou, que já se encontram por si só num estado lamentável”. “O mais importante”, acrescenta, “é que este passo não nos aproxima do objetivo final na luta contra o terrorismo internacional, pelo contrário, pois cria sérios obstáculos à formação de uma coalizão internacional que o combata e se oponha de forma eficaz a este mal universal, que o presidente Donald Trump declarou ser uma de suas mais importantes tarefas durante a campanha pré-eleitoral”. Nos ataques à Síria por parte dos EUA, Putin vê uma tentativa de distrair a atenção da comunidade internacional das numerosas vítimas “entre a população pacífica do Iraque”.

O chefe do comitê de Relações Exteriores do Conselho da Federação (Câmara Alta do Parlamento russo), Konstantin Kosachev, manifestou dúvidas quanto à possibilidade de manter a colaboração com os EUA após o ocorrido. O enfoque do Governo norte-americano, disse, faz com que “a desejada coalizão russo-americana contra o terrorismo possa morrer sem ter nascido”. Segundo o senador, existem no mínimo três versões para a tragédia: uma lamentável casualidade, o uso consciente de armas químicas por parte dos insurgentes e a responsabilidade das autoridades sírias. Esta última versão é “a menos lógica”, observou Kosachev.

Sem querer “esclarecer nada”, os EUA realizaram uma “demonstração de força” e se contrapuseram militarmente um país “que luta contra o terrorismo internacional”, diz o comunicado do ministério russo de Relações Exteriores, segundo o qual não é a primeira vez que Washington age de forma irrefletida, com o que agrava os problemas existentes no mundo e ameaça a “segurança mundial”. A presença de militares norte-americanos e de outros países na Síria sem o acordo do Governo de Damasco e sem uma decisão específica do Conselho de Segurança da ONU “é uma violação crassa e infundada do direito internacional”, que, se antes se justificava em nome da luta contra o terrorismo, evidencia-se agora como um “ato de agressão contra a Síria como país soberano”. “Nunca estaremos de acordo em ações ilegítimas contra as autoridades legais da Síria, que há um longo tempo mantêm uma luta irreconciliável contra o terrorismo internacional”, afirmou a chancelaria.

Washington, para amparar sua ação armada, “tergiversou totalmente” o acontecido em Khan Sheikhun, já que “não pode não compreender que as tropas governamentais sírias não utilizaram arma químicas ali”. Segundo a Rússia, Damasco não tem armas químicas, o que foi “confirmado repetidas vezes por especialistas qualificados”. A produção destas bombas, salienta o ministério russo, foi paralisada por uma operação militar da aviação militar síria, e além disso a OPAQ inspecionou praticamente todas as instalações que tiveram ou pudessem ter relação com o programa militar químico da Síria. Em Khan Sheikhun, perto de Idlib, os “terroristas se dedicavam a produzir as substâncias tóxicas utilizadas para preencher as bombas explosivas destinadas a serem empregadas na Síria e no Iraque”.

A Rússia acusa os EUA de não compreenderem coisas “evidentes”, de terem “fechado os olhos ao uso de armas químicas pelos terroristas no Iraque, sobre o que Bagdá informou oficialmente” e de “ignorarem os documentos registrados sobre o uso de armas químicas pelos terroristas em Aleppo”. Deste modo, só se pode reforçar o terrorismo internacional e “esperar novos ataques com o uso de meios de destruição maciça”.

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