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Não é só um jogo. São dois povos unidos pela compaixão

Chapecoense se solidariza com vítimas de enchentes e reverencia colombianos em recepção ao Nacional de Medellín

Chapecoense Atlético Nacional Medellín
Faixa na Arena Condá exalta o Atlético Nacional.

Uma noite de futebol, seja onde for, carrega invariavelmente a atmosfera de emoções à flor da pele. Mas quando os caminhos de Chapecoense e Atlético Nacional se reencontrarem no gramado da Arena Condá, nesta terça-feira, pela primeira partida da Recopa Sul-Americana, a noite será de sentimentos jamais vistos em um estádio de futebol. Afinal, não é exagero dizer que os 20.000 torcedores esperados nas arquibancadas alviverdes irão direcionar seu apoio aos dois times perfilados em campo.

Ao contrário do clima de hostilidade que distingue os embates sul-americanos nas competições continentais, o confronto entre brasileiros e colombianos não terá provocações nem atos violentos. É jogo de uma torcida só, composta por duas nacionalidades que se uniram após a queda do avião que custou 71 vidas. “O que fizeram por mim, pelo Neto e o Follmann na Colômbia foi algo de outro mundo. Uma gentileza sem tamanho.” As palavras de Alan Ruschel, um dos três jogadores que sobreviveram ao acidente, resumem o sentimento de reciprocidade demonstrado da maneira mais explícita possível em Chapecó.

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Reverências à Colômbia estão espalhadas pela cidade de Chapecó.

Em parceria com a prefeitura, a Chapecoense preparou uma série de homenagens para a delegação do Atlético Nacional, do recebimento no aeroporto ao desfile em carro aberto pelas ruas da cidade. Além de honrarias aos colombianos antes da partida, não haverá divisão de torcidas na Arena Condá. Uma medida apenas simbólica, já que, desde o gesto nobre do clube de Medellín, que cedeu o título da Copa Sul-Americana à equipe brasileira depois da tragédia, os torcedores da Chape adotaram o Nacional como segundo time.

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Barraca da Dona Odete vende camisas da Chape e do Atlético Nacional.

Pela cidade, símbolos do alviverde catarinense se confundem com uniformes de cores semelhantes do clube colombiano. Para os chapecoenses, vestir a camisa do Nacional é a mesma coisa que vestir o manto da Chape. “Há uma procura grande por camisas do Atlético Nacional”, conta Odete Moura, dona de uma barraca na feira comercial popularmente conhecida como camelódromo. Ela integra a enorme parcela de migrantes que saíram do interior do Rio Grande do Sul e ajudaram a tornar Chapecó um dos cinco maiores municípios de Santa Catarina. Gremista de nascimento, Odete diz que hoje, depois de 17 anos na cidade, seu primeiro time é a Chapecoense. Depois, o Nacional de Medellín. “Merecem a nossa torcida e admiração por tudo que fizeram na Colômbia. Ficamos muito comovidos com a atitude deles”, afirma a comerciante, que vende as réplicas de camisas de ambos os clubes por 45 reais cada uma.

Não é à toa que “gratidão” seja a palavra mais usada pelos chapecoenses para se referir ao adversário desta terça-feira. Assim que tomaram consciência da dimensão do desastre aéreo, jogadores do Atlético Nacional abriram mão do título da Sul-Americana em nome da Chape, enquanto seus dirigentes e torcedores rapidamente mobilizaram ações de condolências em Medellín. No dia seguinte à tragédia, no horário previsto para a primeira partida da final, mais de 80.000 pessoas vestidas de branco lotaram o estádio Atanasio Girardot em sinal de luto pelas vítimas. A plenos pulmões, cantaram os versos que ficaram eternizados na memória do povo de Chapecó: “Que se escute em todo o continente, sempre recordaremos a campeã Chapecoense”.

Tributo à solidariedade

Futuro Parque Medellín está em obras e deve ser inaugurado até o fim do ano. ampliar foto
Futuro Parque Medellín está em obras e deve ser inaugurado até o fim do ano.

Até o fim do ano, a prefeitura pretende inaugurar um parque que vai se chamar “Medellín”, como forma de estreitar ainda mais os laços com a cidade que, no fim de dezembro, foi declarada “irmã” de Chapecó através de uma lei aprovada pela Câmara dos Vereadores. “As homenagens e o parque são o mínimo que podemos fazer para retribuir o carinho que os colombianos tiveram e continuam tendo conosco. Nossa intenção é nos aproximarmos cada vez mais do povo de Medellín, que compartilha muitos valores com a comunidade chapecoense”, afirma o prefeito Luciano Buligon ao EL PAÍS. Por ocasião da partida contra o Atlético Nacional, ele se encontrará com Federico Gutiérrez Zuluaga, mandatário de Medellín, para definir a data de inauguração do parque.

Devido às enchentes na cidade de Mocoa, que já deixaram mais de 250 mortos e 200 feridos, o compromisso entre Chape e Nacional é novamente marcado por uma catástrofe. Agora, foi a vez dos brasileiros se solidarizarem com a Colômbia. No último domingo, a prefeitura de Chapecó divulgou um comunicado lamentando os incidentes causados pelas chuvas. “Estamos com nossos irmãos colombianos nesta hora de profunda tristeza”, afirma a mensagem assinada pelo prefeito. A Chapecoense também se manifestou por meio das redes sociais. Com seu escudo tingido pelas cores da bandeira colombiana, o clube desejou forças ao país vizinho.

“Um estádio repleto de colombianos solidários com a nossa dor foi a coisa mais bonita e emocionante que já vi no futebol”, diz o presidente da Chapecoense, Plínio David de Nês. “Quando eu fui à sede da Conmebol receber o troféu de campeão da Sul-Americana, um dirigente do Atlético Nacional me recebeu e disse que poderia contar com eles para o que precisasse. Não bastasse a sensibilidade de nos concederem o título, o clube realmente se colocou à nossa disposição. Eles agora fazem parte da ‘família Chapecoense’. O coração generoso da nação colombiana jamais vai ser esquecido.”

Todos os ingressos para o primeiro duelo entre os campeões da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana foram vendidos. Os jogadores, que devem entrar de mãos dadas no gramado da Arena Condá às 19h30 desta terça-feira, representarão o laço que une brasileiros e colombianos. Dois povos abraçados em compadecimento mútuo para superar os eventos trágicos que os tornaram coirmãos. O que deveria ter sido o maior momento da história da Chapecoense, enfim, se transformará em realidade, pouco mais de quatro meses depois do acidente que mudou seu destino. E, por tudo que significa, será muito mais que um jogo de futebol.

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