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Alan Ruschel: “Tive o privilégio de uma segunda chance. E eu não vou desperdiçá-la”

Lateral-esquerdo da Chapecoense fala sobre a recuperação do acidente aéreo e sonha com seu retorno aos gramados

Ele foi o primeiro sobrevivente resgatado em meio aos destroços do avião da Chapecoense. Seu único desejo ao retornar ao Brasil após três semanas de internação na Colômbia era um prato com arroz, feijão e bife acebolado.

Passados quase quatro meses do acidente, Alan Ruschel agora tem ambições que vão muito além de uma boa comida caseira. Ele já faz treinamentos com bola na Arena Condá e, consequentemente, traça planos para voltar a atuar em breve. Os médicos acreditam que ele deva ter condições físicas de reestrear em jogos oficiais a partir de maio.

Um prognóstico surpreendente para quem sofreu lesões graves na coluna cervical e correu o risco de ficar paraplégico. Animado com a evolução gradual de sua recuperação, o lateral-esquerdo de 27 anos revela ao EL PAÍS o sonho de jogar a Libertadores e pisar no gramado do Camp Nou, em agosto.

Alan Ruschel Chapecoense ampliar foto
Alan Ruschel já treina com bola na Arena Condá.

Pergunta. Qual é o maior desafio para retomar sua carreira?

Resposta. Não estabeleci um prazo para voltar a jogar. Por isso, em todo esse processo de recuperação, tem sido mais difícil administrar o desgaste psicológico que o físico. Fiquei emocionado quando soube que eu estava inscrito na Copa Libertadores. Caso o time avance, seria incrível atuar numa competição internacional. Mas não tenho pressa. Estou tomando todos os cuidados e recebendo o suporte necessário do clube para me recuperar o mais rápido possível.

P. Como se manter motivado sem poder viver a adrenalina diária em campo?

R. A maior motivação vem da minha nova chance de vida. O acidente levou muitos companheiros, poderia ter acontecido o pior, mas estamos aqui, treinando novamente. Olho para o lado, vejo o [Jakson] Follmann e percebo que eu tenho a oportunidade de voltar a jogar. Não existe motivação maior que essa.

P. No hospital, os médicos te contaram sobre o risco de ficar paraplégico?

R. Não me falaram nada sobre perder os movimentos. Mas sempre me deixaram bem claro que havia a possibilidade de eu não poder mais jogar futebol. Acho que aí entrou a força de vontade. Futebol é a minha vida. E estou disposto a qualquer sacrifício para retornar aos gramados.

É um sonho poder enfrentar uma equipe como o Barcelona. A gente nunca poderia imaginar algo tão marcante para a história da Chapecoense.

P. Já sonhou com sua volta ao estádio?

R. Sonho bastante. Inclusive sonhei esta noite que eu já estava jogando. É um sonho que vai se realizar outra vez. A primeira, quando eu me tornei jogador profissional. E a segunda vem agora, quando recuperar meu espaço na Chapecoense e no futebol.

P. Em agosto, a Chape vai à Espanha enfrentar o Barcelona pelo Troféu Joan Gamper. Espera estar de volta ao time até lá?

R. É um sonho a mais poder enfrentar uma equipe como o Barcelona, que tem vários dos melhores jogadores do mundo. A gente nunca poderia imaginar algo tão marcante para a história da Chapecoense. É um fato que me motiva a treinar cada vez mais e, quem sabe, ter a chance de participar dessa partida. Seria uma honra jogar contra o Barça.

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Médicos preveem retorno do lateral a partir de maio.

P. Quando você tiver filhos, qual história pretende contar a eles?

R. Vou ter muita história para contar aos meus filhos. Minha vida nunca foi fácil. Das categorias de base ao profissional, sempre superei desafios, frustrações, lesões... Tenho certeza que, daqui pra frente, ainda terei muitas coisas boas para contar a eles.

P. O que leva de aprendizado de todo esse turbilhão que viveu desde o acidente?

R. A humanidade ainda respira. O que fizeram por mim, pelo Neto e o Follmann na Colômbia foi algo de outro mundo. Uma gentileza sem tamanho. Fomos abraçados por muita gente, que continua nos mandando forças e nos faz superar essa tragédia a cada dia. Acima de tudo, quero celebrar a vida. Por um milagre, estou vivo e posso caminhar, correr, trabalhar. Tive o privilégio de uma segunda chance. E eu não vou desperdiçá-la.

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