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Polícia do Rio prende executivo do COI suspeito de participar de máfia de ingresso

Presidente do COI da Irlanda foi detido por suposta ligação com revenda de entradas por até 30 vezes o valor oficial

Patrick Hickey, em foto de junho de 2015.
Patrick Hickey, em foto de junho de 2015. AFP

A Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu nesta quarta-feira Patrick Hickey, presidente do Comitê Olímpico da Irlanda e membro executivo do Comitê Olímpico Internacional (COI). As investigações policiais apontam que Hickey participa de um esquema mafioso de vendas de ingressos dos Jogos Olímpicos do Rio. Segundo explicaram os delegados em uma coletiva de imprensa, entradas para os Jogos eram desviadas para uma empresa, que as revendia por um preço até 30 vezes maior. 

A prisão do dirigente vem como uma bomba para a comunidade olímpica internacional. Hickey é um importante braço político do COI e possui bom trânsito com o seu presidente, Thomas Bach. Ambos estavam hospedados no mesmo hotel, o luxuoso Windsor, onde foi realizada a operação policial às 6h desta quarta.

Segundo os agentes, foi a esposa de Hickey quem abriu a porta de seu quarto quando a polícia chegou. Disse que seu marido já não estava, mas os agentes encontraram "meias, sapatos e a mala" do executivo suspeito. Descobriram então que havia um outro quarto reservado no nome de seu filho e encontraram o dirigente recém-acordado no quarto. Hickey, de 71 anos e com problemas cardíacos, foi levado então por precaução para um hospital no momento da detenção para realizar exames. Seu passaporte, computadores e celulares foram apreendidos.

Outras três pessoas —Ken Murray, Michael Glynn e Eamon Collins— também tiveram a prisão decretada, mas estão foragidas. Eles são dirigentes da empresa Pro 10, credenciada para a venda de ingressos na Olimpíada após ser indicada pelo comitê irlandês. De acordo com a Polícia, trata-se de uma empresa de fachada, criada em abril de 2015, que fazia a ponte com outra empresa, a THG. Esta companhia também comercializa ingressos de eventos esportivos por todo o mundo, inclusive os dos Jogos de Londres 2012. Na Copa do Mundo de 2014, a empresa foi acusada de praticar "cambismo" e teve o pedido de credenciamento negado para a Rio 2016. Mas, nestes Jogos, praticaram os mesmos atos ilícitos.

"A partir de um pacote de hospitalidade, ingressos para cerimônias de abertura, encerramento ou de finais eram revendidas por alto um alto valor. Entradas que custam 1.400 reais podiam ser revendidas por 8.000 dólares [25.800 reais], e a empresa prometia jantar no Copacabana Palace, transporte de ida e volta para as instalações olímpicas... ", detalhou o delegado Ricardo Barbosa.

Quando os torcedores chegaram ao Rio, não havia nem jantar e nem Copacabana Palace, mas sim doces e salgados em um hotel da Barra da Tijuca, perto do Parque Olímpico. A Polícia ouviu sete vítimas e, na semana passada, apreendeu mais de 800 ingressos. Verificaram que "a empresa THG não estava autorizada a vender ingressos e nem a oferecer esse tipo de pacote", segundo detalhou Barbosa. As entradas estavam a nome da empresa Pro 10 ou do Comitê Olímpico da Irlanda. Só na cerimônia de abertura, os agentes estimam um lucro de 10 milhões de reais dos cambistas. "Essa dinâmica já havia sido identificada na Europa. Ingressos disputados que pertencem aos comitês são revendidos a preços maiores através de empresas parceiras", resumiu Barbosa.

A Polícia Civil já havia decretado a prisão de quatro dirigentes da empresa THG, inclusive a do dono do grupo, Marcus Evans, que tem uma fortuna estimada em três bilhões de reais e companhias espalhadas por 23 países do mundo. Evans tinha uma relação estreita com o dirigente irlandês, como revelaram mensagens e emails apreendidos pela polícia. As autoridades lembraram também que o Comitê da Irlanda tinha o total controle da venda de ingressos. São responsáveis por indicar as empresas que podem fazer revenda, além de terem repassado ingressos do próprio Comitê.

Na semana passada, o ministro do Esporte da Irlanda, Shane Ross, veio ao Brasil para saber sobre a investigação em curso. Se reuniu com Hichey para pedir uma investigação independente e paralela, mas para a sua surpresa teve seu pedido negado.

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