Redes sociais

Big tech força redes sociais alternativas a adotarem moderação

Para permanecer on-line, plataformas que ignoravam discurso violento e de ódio sob mantra da liberdade de expressão, populares entre grupos da extrema direita, passam a regular conteúdo mais ativamente

Laís Martins (Núcleo)
Rodolfo Almeida / Núcleo

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O Parler, rede social que por alguns poucos meses foi uma das principais plataformas da extrema direita nos Estados Unidos, voltou a ver a luz do dia em meados de fevereiro, depois de mais de um mês às escuras, praticamente off-line. Saiu do ar em 11 de janeiro não por iniciativa própria, mas principalmente pela decisão da Amazon de não mais abrigá-la em seus servidores. Não bastasse isso, Google e Apple removeram o Parler de suas lojas de aplicativos —as maiores do mundo.

A plataforma, que ganhou território junto à direita alternativa por causa do seu posicionamento inflexível acerca de liberdade de expressão, voltou ao ar após transferir seu domínio para o Epik, serviço que também abriga o site Infowars, a rede social Gab e que por algum tempo hospedou o fórum 8Chan.

Em seu retorno, o Parler trouxe diretrizes de comunidade atualizadas, nas quais se compromete a remover conteúdos que incitem crimes, delitos civis ou outros atos ilegais —algo tacitamente tolerado antes de ser punido pelas Big Techs. Ou seja, aceitou moderar conteúdo.

Embora ceder à moderação de conteúdo não esteja no objetivo de muitas redes sociais menores que se propõem a defender qualquer tipo de expressão pessoal, mesmo que violento e danoso para a sociedade, o movimento passou a ser uma forma de sobrevivência à desplataformização para esses arautos da liberdade de expressão no mundo dominado pelo poder econômico de um punhado de empresas gigantes, especialmente na sequência dos ataques de militantes de extrema direita ao Congresso norte-americano, em 6 de janeiro deste ano —mas antes disso também.

É importante porque...

  • A desplataformização vem crescendo como assunto nos últimos meses e pode impactar a forma como produzimos e consumimos conteúdo nas redes sociais.
  • Há um consenso entre grandes empresas de tecnologia de que liberdade de expressão não é a mesma coisa do que promover violência e discurso de ódio, especialmente após ataque ao Congresso dos EUA em 6 de janeiro de 2021.
  • Mostra o poder das Big Tech na sobrevivência de iniciativas menores.
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Mesmo que breve, o desfalque do Parler foi suficiente para provocar uma migração de usuários para outras redes. O Gab, popular entre a extrema direita norte-americana banida da Google Play Store desde 2017 e nunca aceita pela Apple Store, disse ter tido um fluxo de 10.000 novos usuários por hora na esteira de bloqueios de perfis no Twitter, de vídeos no YouTube e do colapso do Parler. Foram 33 milhões de novos usuários em 30 dias, segundo Andrew Torba, CEO da empresa.

Mas o crescimento já era notável antes: na segunda semana de novembro, enquanto os Estados Unidos aguardavam a decisão sobre seu próximo presidente, o Gab registrava número de acessos equivalente a todo o mês de outubro.

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Esse fluxo de usuários veio a um custo. Sanções aplicadas pelas Big Techs a redes menores como Gab e Parler podem ser a diferença entre a continuidade de um negócio, seu colapso total ou, no meio termo, o desempenho ideal.

A Amazon possui um terço do mercado de serviços ‘nuvem’ do mundo —como servidores e bancos de dados, fundamentais para aplicativos e redes sociais.

Combinadas, empresas do clube das Big Tech (incluindo Microsoft, Google, Oracle, entre outras) possuem 80% desse mercado. Ou seja, sem elas as opções ficam limitadas a serviços menores, que não possuem a mesma robustez necessária. Após o colapso do Parler, a imensa migração para o Gab fez com que a rede social ficasse inutilizável por mais de um dia devido ao limite de seus servidores.

Além disso, Apple e Google possuem os maiores sistemas operacionais do mundo, rodando em quase 100% dos smartphones. Se um negócio não está em suas lojas de aplicativos, resta ser acessado via navegador, o que diminui a adesão a esses serviços.

Reprodução de tela de post de Torba na rede social Gab.
Reprodução de tela de post de Torba na rede social Gab.Núcleo

Por mais discreto que seja, a atualização nas políticas de moderação pode ser um aceno à Google, Apple e Amazon. “O boicote ao Parler foi generalizado e eles não conseguiram manter o serviço ativo sem ceder à necessidade de moderação”, explicou Yasmin Curzi de Mendonça, pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio.

Essas plataformas também precisam de outros servidores para prestarem seus serviços, para além da hospedagem nas plataformas de download, como acesso a provedores de e-mail e afins
Yasmin Curzi de Mendonça, pesquisadora do CTS, ao 'Núcleo'

Até redes sociais mais reticentes à moderação, como o Telegram, têm atuado para impedir que sua plataforma seja usada para incitação ao ódio, apesar de ter números de suspensões ainda irrisórios em comparação com ações de outras redes.

Baixando o tom

Não foi só o Parler que voltou e baixou o tom visando a própria sobrevivência. Temendo punições e uma total desplataformização, redes sociais alternativas estão cedendo a pressões e implementando políticas de moderação em suas plataformas.

Uma delas é o Clapper, que vem sendo classificado por veículos de tecnologia como ‘clone conservador do Tik Tok’. A plataforma de vídeos curtos foi lançada em julho de 2020 com a promessa de zelar pela livre expressão —as mesmas possibilidades que o TikTok, mas com menos interferência. Com essa premissa, a plataforma atraiu justamente quem se incomodava com o excesso de moderação que vinha sendo alardeado pelas plataformas mais mainstream.

Mas como forte evidência de que não é viável manter uma rede sem qualquer filtro de moderação num jogo que é ditado, em grande parte, pelas Big Techs, o Clapper anunciou há duas semanas que banirá permanentemente contas que estejam disseminando teorias QAnon de desinformação e antivacinas.

Para Edison Chen, CEO do Clapper, tais conteúdos vão contra a missão da rede social e também contra as exigências da Google Play e Apple Store. “Temos mais de 20 funcionários internos no time de Segurança para moderar conteúdo todos os dias”, explicou Chen ao Núcleo por e-mail.

Nós percebemos que há alguns criadores de conteúdo conservadores buscando o Clapper devido ao fechamento do Parler ou por terem sido banidos de redes sociais ‘mainstream’. Mas todos que chegam ao Clapper são iguais, todos precisam seguir nossas diretrizes de comunidade. Se o vídeo for contra essas diretrizes, tomaremos ações
Edison Chen, CEO do Clapper, ao ‘Núcleo’

Desde seu lançamento em julho do ano passado, o Clapper já foi baixado mais de meio milhão de vezes, sendo que boa parte dos downloads ocorreram neste último mês. Por enquanto, os mercados-alvo do aplicativo são EUA, Reino Unido, Austrália e Canadá, mas o plano é de uma expansão global, contou o CEO. Ele disse não poder disponibilizar números de usuários brasileiros que estejam ativos na plataforma.

Chen rejeitou o título de plataforma de livre expressão e também o rótulo de “segundo Parler”, nas palavras dele mesmo. “Somos uma plataforma de compartilhamento da vida real que usa algoritmos de ‘oportunidades iguais’ para mostrar, através de curtos vídeos e livestreams, comunidades de pessoas normais, reais e diversas”, disse o executivo por e-mail.

Contexto

Outro aplicativo que precisou aderir melhor à moderação foi o Discord. Até 2017, era um dos apps de mensagens e grupos preferidos da extrema direita, mas após os protestos violentos de nacionalistas brancos em Charlottesville, a empresa passou a atuar mais ativamente para frear o discurso de violência, e hoje conseguiu se desvencilhar desses grupos. À época, um jornalista do New York Times ouviu de usuários banidos pela moderação do Discord que era hora de deixar aquela rede e buscar outra plataforma mais amigável. Em dezembro de 2020, o Discord lançou inclusive um tutorial de moderação.

A plataforma de vídeos Rumble, fundada em 2013 mas que recentemente vem sendo adotada como o YouTube da direta, já deixou bem claro que “possui políticas estritas de moderação quando se trata de incitação de violência, conteúdo ilegal, racismo, antisemitismo e promoção de grupos terroristas”, segundo apurou o site Mashable.

Em novembro, Chris Pavlovski, CEO da Rumble, disse ao New York Times que apesar das proibições da plataforma a certos conteúdos, separar informação de desinformação ou limitar determinados discursos não fazia parte do negócio. Ao Washington Post, ele reiterou que a Rumble é uma plataforma aberta que não se envolverá em debates políticos ou de opiniões.

Nas diretrizes de comunidade, a Rumble diz que não permitirá em seu site conteúdo que promova ou forneça instruções sobre atividades ilegais, incitem danos ou injúrias a qualquer grupo, indivíduo ou animal. A plataforma também diz que não permitirá conteúdos que ensinam como montar ou utilizar bombas, granadas ou armamento de qualquer tipo. Não há nenhuma menção explícita a conteúdos sobre vacinação ou sobre o coronavírus.

O Núcleo descobriu que, em algum momento entre agosto e setembro de 2020, a Rumble atualizou suas políticas de comunidade e retirou da lista de conteúdos a seguinte frase: “conteúdos ou materiais que acreditamos que sejam grosseiramente ofensivos à comunidade online, incluindo mas não limitado a, expressões flagrantes de intolerância, preconceito, racismo, ódio e profanidade”.

Na versão atualizada, que vigora até hoje, a plataforma também retirou um trecho em que dizia “ativamente auditar e aprovar conteúdo que seja exibido no Rumble.com”, mas que caso usuários se deparassem com conteúdos ofensivos ou inapropriados, poderiam imediatamente entrar em contato com a rede por e-mail para que o conteúdo fosse removido.

Após o fluxo de 4 milhões de novos usuários em janeiro de 2021, o site MeWe —que se vende como sem anúncios ou rastreamento e patrono da liberdade de expressão— reafirmou à rádio norte-americana NPR que vai “colocar limites” no que as pessoas podem falar na plataforma.

Reportagem: Laís Martins / Arte: Rodolfo Almeida / Edição: Sérgio Spagnuolo

Este texto foi originalmente publicado no site do Núcleo Jornalismo.

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