FEMINICÍDIO

Ex-diretor da Amazon no México é o principal suspeito do assassinato de sua ex-mulher

Abril Pérez Sagaón tinha denunciado seu marido por tentativa de homicídio, mas um juiz o deixou em liberdade. Na segunda, levou dois tiros

Juan Carlos García e Abril Pérez.
Juan Carlos García e Abril Pérez.

Quando o filho do meio escutou a briga, seu pai estava a ponto de degolar sua mãe com uma navalha no quarto ao lado. Era janeiro deste ano. Abril Pérez Sagaón esteve a ponto de ser assassinada por seu então marido, Juan Carlos García, ex-diretor da filial mexicana da Amazon e diretor de comércio digital da multinacional de eletrodomésticos Elektra. E embora não fossem as primeiras agressões e ameaças que recebia, foi a primeira vez que decidiu gritar chega. Uma decisão muito corajosa no México, onde pelo menos 8 de cada 10 casos permanecem impunes, segundo os dados do projeto Impunidad Cero. Pérez Sagaón fez o que podia legalmente. Na última segunda-feira, foi assassinada com dois tiros, na cabeça e no pescoço, quando andava de carro pela capital. Seus filhos adolescentes viram tudo do banco de trás.

Abril Pérez já não vivia na Cidade do México desde que seu ex-marido tinha tentado assassiná-la. Fugiu com sua família para Monterrey, onde iniciou o processo de divórcio e deu prosseguimento ao processo penal por tentativa de homicídio. García foi detido e pouco depois, libertado. O depoimento de Pérez e do filho do meio de ambos, que presenciou tudo, não foi suficiente para que o juiz do Tribunal Superior de Justiça da capital Federico Mosco González considerasse o caso como tentativa de feminicídio. O juiz reclassificou o crime como violência intrafamiliar e lesões. Uma modificação que transformou um suposto assassino em um homem que, sob fiança, pôde se livrar da prisão. Mosco González também é conhecido na capital por ter libertado um médico acusado de estuprar uma paciente em 2018. O juiz o inocentou desse crime, mas reconheceu que houve abuso sexual, pelo qual, nesse caso, não exigiu pena de prisão.

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Depois de 11 meses de batalhas legais contra seu agressor e ex-marido, de se divorciar e de obter a custódia de seus três filhos, ela ainda estava lutando para demonstrar que esse homem tinha tentado assassiná-la. Nesta semana, tinha ido à Cidade do México para realizar um exame psicológico que fazia parte do processo de apelação contra García. A defesa de seu ex-marido tinha sido informada disso, “e é bem possível que ele também soubesse que ela estava na cidade”, conta por telefone um membro da família, que prefere não ter seu nome divulgado.

Sobre aquele que tinha sido escolhido pela Amazon para inaugurar sua filial no México em 2015 pesava uma ordem que o proibia de se aproximar de Pérez. Mas a família da vítima está convencida de que ele mandou matá-la. “Ele tem dinheiro suficiente para contratar um sicário. Não temos dúvida de que foi ele. Pela forma como as coisas aconteceram, porque já tinha tentado antes e porque sabemos como é”, conta o familiar. A procuradoria da capital segue essa linha de investigação. Mas o paradeiro de García é desconhecido. “Provavelmente já está fora do México faz tempo”, aponta a família.

García se tornou diretor da Amazon no México e ocupou o cargo durante dois anos e meio, segundo seu perfil do Linkedin. Alguns anos antes, havia fundado as startups de vendas pela Internet Decompras.com e PlazaVIP.com, que depois vendeu para a Terra Networks e o Grupo Carso. Também foi, durante dois anos, vice-presidente de comércio eletrônico do Walmart México. Quando sua ex-mulher foi morta, ele ocupava o cargo de diretor de vendas online da Elektra.

Quando foi assassinada, Pérez ia de carro, com seus dois filhos mais novos e seu advogado, em direção ao aeroporto da capital. Tinha terminado os trâmites necessários naquele momento para o processo judicial e ia voltar para Monterrey. Estava sentada no lugar do copiloto. Por volta das 17h30, um homem em uma moto alcançou sua janela e disparou diretamente em sua cabeça. Outro tiro atingiu sua clavícula. Nem o motorista, que era seu advogado, nem seus filhos foram baleados. “O ataque foi totalmente dirigido contra ela. E o único inimigo que [Pérez] tinha na vida era ele”, assinala o familiar. Os médicos tentaram salvá-la durante mais de seis horas, mas, por volta da meia-noite, ela morreu.

O caso de Abril revoltou um país onde 10 mulheres são assassinadas por dia, um número que não para de crescer desde que começaram os registros e que não pode ser relacionado com o narcotráfico e com a violência generalizada no país, que também alcançou recordes históricos este ano. Embora os homicídios tenham caído em 2012, os feminicídios se mantiveram como um drama estrutural que não dá trégua a metade da população. No dia em que Pérez foi morta, 3.000 mulheres estavam protestando na principal rua da capital contra a violência de gênero.

Por ocasião do dia mundial de combate a esse tipo de violência, milhares de manifestantes enfurecidas picharam estátuas e quebraram a marteladas placas e objetos do mobiliário urbano, em meio ao espanto e às críticas de muitas outras pessoas por seus “métodos violentos” de fazer justiça. Ao mesmo tempo, em outra rua, não muito longe dali, uma mãe foi baleada na cabeça e na clavícula enquanto ia de carro com seus filhos para o aeroporto. Uma mulher que tinha denunciado seu ex-marido por tentativa de homicídio em janeiro e que continuava travando uma batalha legal para demonstrar que esse homem podia voltar a tentar matá-la. “Temo por minha vida”, tinha dito ela ao juiz. Agora, o ex-marido de Abril Pérez Sagaón é o principal suspeito do feminicídio de sua ex-mulher. Para que a Justiça mexicana fosse atrás dele, foram necessários esses dois tiros.