A rede ‘offshore’ de Guillermo Lasso, o banqueiro que se tornou presidente do Equador

Mandatário se desfez da maioria de suas empresas em paraísos fiscais antes de chegar à presidência

O presidente do Equador, Guillermo Lasso, em Guayaquil, no dia 9 de julho de 2021.
O presidente do Equador, Guillermo Lasso, em Guayaquil, no dia 9 de julho de 2021.Agencia Press South (Getty Images)
Inés Santaeulalia Mónica Almeida Paul Mena M.
Bogotá / Quito -

O presidente Guillermo Lasso enterrou em abril, em sua terceira candidatura, 14 anos de governos progressistas no Equador. Com um estilo diametralmente oposto ao de seus antecessores, Rafael Correa e Lenín Moreno, Lasso é um empresário conservador e bem-sucedido que foi diretor do Banco de Guayaquil, um dos maiores do país. Nas últimas eleições, foi o candidato que declarou ter pagado mais impostos: 4,5 milhões de dólares (cerca de 24,15 milhões de reais) nos últimos cinco anos. Mas parte do seu patrimônio não estava no Equador havia anos.

Lasso recorreu a até 14 empresas financeiras opacas no Panamá e nos Estados Unidos, conforme revelam agora os Pandora Papers, uma investigação global coordenada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), do qual o EL PAÍS participou e que o jornal El Universo liderou no Equador.

Antes de se encaminhar para sua terceira candidatura à presidência, o mandatário se desfez de grande parte da rede offshore que tinha acumulado nos últimos anos, algo que não havia acontecido em suas tentativas anteriores. Lasso agiu depois que o correísmo promoveu, em 2017, uma lei para proibir os candidatos de ser beneficiários de empresas em paraísos fiscais. Atualmente, 10 das 14 empresas estão inativas e sobre as outras quatro o presidente nega qualquer relação ou benefício.

“Sempre cumpri a lei equatoriana que proíbe candidatos e funcionários públicos de manter empresas offshore, como indiquei em minhas declarações juramentadas”, respondeu Lasso a uma carta enviada pelo ICIJ e pelo El Universo.

A maioria de suas empresas, nas quais o banqueiro era o principal beneficiário, tinha sede no Panamá. Em caso de morte, os benefícios seriam repassados à esposa, María de Lourdes Alcívar, e aos cinco filhos.

No final de 2017, dois fundos fiduciários foram constituídos em Dakota do Sul (Estados Unidos), o Liberty Trust e o Bretten Trust, que ficaram com as ações da maioria das empresas dissolvidas. Em relação a esses fundos fiduciários, Lasso afirma em sua resposta: “Não tenho nenhuma relação de propriedade, controle, benefício ou interesse de nenhum tipo” com essas entidades. Nos documentos obtidos nos Pandora Papers os beneficiários das mesmas não são indicados.

Uma vida ligada ao setor bancário

Lasso se apresenta como um homem profundamente ligado à família. Em sua campanha eleitoral esteve sempre rodeado pelos seus numerosos parentes, que considera o pilar de sua vida. Seus três filhos homens seguiram os passos do pai. Dois trabalham atualmente no Banco de Guayaquil, dirigido pelo patriarca entre 1994 e 2012 e do qual é um dos maiores acionistas, e outro trabalha no Banco Banisi, entidade do Panamá que pertence ao mandatário.

Lasso tem uma empresa chamada Banisi Holding S.A., que é a proprietária do referido banco, como ele mesmo reconheceu em 2016. “Tenho um banco no Panamá constituído de forma transparente”, disse na época. O presidente insiste agora que se trata de uma atividade legal e que tem sua origem nas leis equatorianas, também promulgadas pelo correismo, que impedem os banqueiros de fazer investimentos em seu próprio país, o que o teria levado a buscar estender seu patrimônio no exterior. “Esse uso representa a organização ordinária e legal de atividades internacionais lícitas”, afirma.

O Banco Banisi foi criado em 2007 no Panamá e funciona como uma instituição financeira daquele país. Em fevereiro de 2014, o Banco de Guayaquil, o único acionista do Banisi, vendeu 100% de suas ações para a Banisi Holding S.A. Os diretores da holding eram Guillermo Lasso, María de Lourdes Alcívar e Santiago Lasso Alcívar.

Na investigação do Equador participaram Mónica Almeida e Paul Mena M., jornalistas de El Universo.

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