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Dizem que o luto tem cinco fases. Estamos presos no estágio da raiva

A raiva não é somente porque perdemos nossa irmã, vítima da covid-19 três semanas após o parto. Mas também porque a morte dela é menosprezada até por amigos, quando estes não usam máscara, minimizam a doença e apoiam um Governo genocida

Lidiane, então grávida do filho caçula, Carlos. Ela foi infectada pelo coronavírus durante a gestação e morreu três semanas após o parto, em 15 de maio de 2020.
Lidiane, então grávida do filho caçula, Carlos. Ela foi infectada pelo coronavírus durante a gestação e morreu três semanas após o parto, em 15 de maio de 2020.EPS

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É Dia das Mães. O primeiro realmente sem Lidiane. Dia 15 de maio faz um ano que ela nos deixou. Ano passado, me lembro do medo de tê-la partindo neste dia e dele ficar pra sempre marcado como o dia da morte dela. Lembro da tristeza de ser o primeiro Dia das Mães de Carlos, e dele não poder estar com ela. Lidiane, pegou covid-19 no final da gestação. Morreu três semanas após o parto. Se soma às centenas de mulheres grávidas e puérperas a morrerem no Brasil em decorrência da covid-19. Lembro de tentar fazer com que Felipe tivesse esperanças. Lembro da esperança de minha mãe, que como toda mãe acredita até o fim na salvação dos filhos.

Mas este é, enfim, o primeiro com a certeza de que ela nunca mais estará aqui. Muita coisa aconteceu neste último ano. Mas tão pouco aconteceu. A morte de Paulo Gustavo, às vésperas do Dia das Mães, foi um gatilho para nós. Digo nós, porque minha outra irmã querida, Monika, o adorava. Ano passado, foi Paulo Gustavo que conseguiu nos tirar boas gargalhadas e nos levar para um lugar de esperança em meio a tanto sofrimento. Me lembro de sua live com Mônica Martelli, onde ele a chama sem parar ―“Mônica, Mônica, Mônica, cadê você, Mônica?”― e como nós duas gargalhamos por horas, pensando em como aquilo parecia conosco. Salvei essa parte da live. Coloquei no vídeo do aniversário da Monika. Ficará pra sempre como sendo nós duas. Foi um gatilho porque Dona Déa nos é ao mesmo tempo desconhecida e tão conhecida. Porque Dona Hermínia nos fez fugir deste mundo cruel para momentos de muita alegria e risos. Nos deu felicidade. E por tudo isso, o que eu menos desejava é que ela passasse por este sofrimento. Nunca. Muito menos agora.

A morte de Lidiane carrega muitos erros de um Estado genocida, negacionista, racista. De lá para cá, mais de 400.000 tiveram o mesmo destino trágico que ela. Em um ano, parece que nada aprendemos. Dizem que um ano é o tempo médio do luto. E que este costuma ter cinco estágios. Mas estamos presos no estágio da raiva. Como superamos a raiva? Não sei.

Na terça, após ouvir a notícia sobre Paulo Gustavo, a primeira coisa que fiz foi ligar para Monika. Sabia que ela estaria mal. A raiva, que a acompanha desde então, tomava seu rosto. Acham que a raiva dela é porque ela perdeu a irmã. Não entendem. A raiva não é porque ela perdeu a irmã. Não só. A raiva é porque a morte dela é menosprezada pelos nossos amigos mais íntimos quando estes não usam máscara. Quando estes insistem em apoiar um governo genocida que minimiza o covid-19 chamando de “gripezinha”. A raiva é porque nos grupos de trabalho, amigos e escola somos desde, então, tratados como “a família de luto que perdeu a racionalidade perante a covid”, enquanto que a ciência, a OMS, diversos governos internacionais que têm tidos sucesso no combate a doença reforçam nossos posicionamentos. A raiva é porque sabemos racionalmente, emocionalmente, afetivamente, que a morte de Paulo Gustavo e de tantos outros milhares poderiam ter sido evitadas se a tivéssemos um governo, e não incluo aqui só o Governo federal, está na hora de colocarmos nesta conta, Senado, Câmara, STF, e mesmo nossa sociedade, que estivessem empenhados em vacinar massivamente a população. Que estivessem empenhados em campanhas de distanciamento social, de uso de máscaras, de salvar nossa população.

A raiva vai continuar enquanto o mal permanecer. Enquanto a vida for tratada como número. Enquanto tiverem pessoas defendendo o indefensável. É isso que nos torna humanos. Não terão ido em vão.

À dona Déa, ao Romeu e ao Gael que perderam um pai maravilhoso, a todos os órfãos que este Governo tem criado, a todas as mães que perderam seus filhos, todo meu amor!

Obs: Enquanto eu escrevia esse texto, outras 28 mulheres perdiam seus filhos na chacina do Jacarezinho. Mais corpos negros se juntavam ao inumeráveis do genocídio brasileiro. Até quando? Até quando essas mães serão condenadas ao sofrimento? Até quando esses filhos serão condenados à orfandade? Não sei. Mas até lá, a raiva continua.

Érika Frazão é professora e irmã de Lidiane, que morreu em 15 de maio de 2020 em decorrência da covid-19, três semanas após o nascimento do filho caçula. Ela deixou dois filhos, Carlos e Felipe.

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