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Tribuna
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Taxar livros para mais pobres (enquanto reduz imposto para arma) é o desprezo como sentença

No Brasil de castas, de tantos apagamentos históricos, de tantos desaparecimentos, é urgente que cada brasileiro não aceite ser apenas um número nas estatísticas. Todos precisamos ler para investir em nossos nomes

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Consumidora em livraria de Bratislava na segunda-feira.VLADIMIR SIMICEK (AFP)
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Aline é tão brasileira. Mestiça, tem Minas Gerais no sangue, de onde veio. Tem fazendas e atabaques, e uma genealogia rica de histórias: bisavó indígena, antepassados africanos. Essa mistura desaguou em sua beleza e dignidade. É curiosa, examina o mundo em suas miudezas. Tem um olhar aceso de quem quer saber mais. Chegou nesta pequena cidade costeira ainda adolescente, com os pais, vinha das entranhas para o mar.

Quando trabalha, Aline é calada, concentrada no que faz. Quando termina é alegre, ri, tomamos café juntas, me conta casos. Para o meu filho quero tudo, ela me diz. Ainda pede bênção aos pais, costume belo e tão do interior. “Bênção, minha filha”, respondem, então se sente abençoada. Aline é caseira num sítio na zona rural de Saquarema. Fez o curso completo de cabeleireira e esteticista no Senac, mas, com a pandemia, teve seu sonho adiado, de fazer do seu oficio o ganha-pão.

Ela me conta que trabalha desde os 14 anos como doméstica. Mas está construindo aos poucos o seu salão de beleza. Tem sonhos e planos. Aline me ajuda na casa duas vezes por semana. Eu a conheço desde 2003. Aline está lendo O Senhor dos Anéis, do Tolkien, com seu filho Igor. Leitura compartilhada. Todas as noites leem juntos.

A afirmação de que pobre não lê é uma das frases mais terríveis que já ouvi. É uma sentença. Uma sentença de confinamento para além do confinamento físico. É uma sentença de desprezo. A Receita Federal entende assim. Numa proposta para aumentar os impostos dos livros, o Fisco conclui que “famílias com renda de até dois salários mínimos não consomem livros não-didáticos e a maior parte desses livros é consumida pelas famílias com renda superior a dez salários mínimos”. Usada para “justificar” a taxação de livros, é a tradução perfeita de como esse desgoverno, essa máquina de morte, enxerga os pobres, a maioria do povo brasileiro. Ao invés de fazer tudo para tornar os livros acessíveis para todos, deseja, ao contrário, colocá-los totalmente fora do alcance de quase um povo inteiro.

Um povo leitor é extremamente perigoso. Não se deixará manipular tão facilmente. Todos os déspotas sabem disso. Lembremo-nos das fogueiras de livros durante o nazismo. Lembremo-nos dos livros perseguidos. Dos autores perseguidos e ameaçados.

Aline tem um nome, um rosto, uma história entrelaçada com a de seus antepassados. Aline não é um número. É uma pessoa jovem e carrega nas mãos muitos desejos. Está dentro da cifra dos vivos, nesta hora em que se morre tanto e cada morto perde seu nome e ganha um número nas estatísticas da covid-19. A melhor maneira de apagar a história de alguém, viva ou morta, é substituindo seu nome por um número, como faziam os nazistas com os prisioneiros que chegavam a Aushwitz.

No Brasil de castas, de tantos apagamentos históricos, de tantos desaparecimentos, é urgente que cada brasileiro não aceite ser apenas um número nas estatísticas: Do mapa da fome, dos sem terra, dos sem casa, dos sem trabalho. O trabalho de varrer escombros, o que está sendo destruído, passa por Escolas Públicas com livros dentro, por Bibliotecas Comunitárias, pelo Professor(a) leitor(a), pelo respeito a estas pessoas que são estrelas para seus aprendizes, passa enfim, pelos livros.

Todo brasileiro precisa ler para se investir do seu nome. Para poder pronunciá-lo com toda a sua luz e potência. Para que seu nome seja acrescido da sua história, que é também a História do Brasil. Taxar livros é a melhor maneira de se destruir desejos de estudar, atravessar fronteiras. O paradoxo mais terrível é tornar os livros inacessíveis para os pobres, aumentando seus impostos, já que, segundo os demolidores, “pobre não lê”, e baixar os impostos das armas. Trocam livros por armas, num Brasil feito de números. Pobre lê quando pode ler. Pobre gosta de ler. Nas escolas públicas, sou testemunha, as crianças amam a hora do conto, da poesia. Os jovens amam as rodas de leitura. Um Governo que troca livros por armas sabe muito bem o que faz. Já que não podem fazer fogueiras de livros, como os nazistas no passado, aumentam os impostos.

Roseana Murray é escritora de livros infantis e adultos e integra a Lista de Honra do Organismo Internacional I.B.B.Y que abriga os melhores autores de literatura infanto-juvenil do mundo.

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