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Os racistas logo ali

Nunca foi tão necessário confrontar o comentário do seu tio no grupo da família ou repreender o seu filho pela 'piada'

Manifestantes carregam faixa em protesto em São Paulo, em 4 de julho.
Manifestantes carregam faixa em protesto em São Paulo, em 4 de julho.AMANDA PEROBELLI / Reuters

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Nas últimas semanas, não bastassem os dolorosos e estarrecedores números de mortos pela pandemia de coronavírus, fomos obrigados a conviver com uma (velha) nova modalidade de tragédia no país: o racismo enquanto entretenimento burguês.

Cansados de ficarem isolados em seus feudos com Internet e piscina devido à quarentena e diante da aterrorizante possibilidade de exercer o seu dileto poder diante apenas dos empregados deles de cada dia, aproveitam as pequenas “oportunidades” que a vida lhes dá, em cada entregador de aplicativo que “tem inveja da minha cor”.

Ou então, se sou magistrado e meu tribunal está em regime de teletrabalho e as ofensas que provavelmente direcionaria aos meus subordinados ficam restritas, posso aproveitar minha caminhada matinal para humilhar guardas municipais que me abordam para solicitar o óbvio: a utilização de uma máscara e um pouco de respeito com as milhares de pessoas que estão morrendo nos hospitais.

Se de tudo restarem poucos argumentos, sempre valerá a velha máxima do “cidadão, não. Engenheiro civil, formado, melhor do que você”. No país do “você sabe com quem está falando?”, somos sofisticados o bastante para tentarmos humilhar os outros usando até um diploma de engenharia.

Não basta para a elite dominante apenas ter acesso a melhores condições de saúde, educação, lazer, desenvolvimento, de vida. É preciso esfregar isso na cara dos outros. É preciso humilhar. Ostentar. Diminuir o outro. Se a pandemia acabou por nos colocar em patamares mais próximos uns dos outros, a elite é criativa em criar estratégias para nos diferenciar novamente. Aí reside o entretenimento burguês: o exercício do poder diante daquele que não tem. Não basta possuir, é preciso subjugar o outro diante de mim.

Nesse circo de horrores registrado pelas câmeras dos celulares, é bem provável que, até então, tenhamos imaginado os racistas e congêneres como uma espécie de terríveis monstros que caminham marginalmente por aí, praticando seus atos abomináveis longe de nossos olhares. Pessoas totalmente diferentes de nós, de realidades e histórias distintas.

Não é verdade. Os racistas estão logo ali, em nossos grupos de trabalho, na roda de amigos, nas nossas reuniões de família. Os racistas somos todos nós, disfarçados sobre argumentos do tipo “é melhor não se envolver na briga dos outros”, como denunciava a postura inerte do morador que assistia o motoboy ser violentado verbalmente, sem nada fazer.

Hannah Arendt, quando cobriu o julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann em 1962, constatou, com perplexidade, que ele utilizava a obrigação do funcionário padrão e clichês para justificar as atrocidades que havia cometido. Eichmann, em seu julgamento, argumentava que não poderia ser encarado como criminoso, tendo em vista que estava apenas cumprindo a sua obrigação funcional, seu dever.

Além disso, Eichmann não apresentava nenhum ódio ao povo judeu, era considerado um bom pai de família e também não agia motivado por algum tipo de maldade ou desejo de transgressão. Ainda assim, acabou por ser um dos principais responsáveis pelo genocídio de milhares de judeus.

Foi a partir desse estarrecedor cenário que Hannah estabeleceu o conceito da “banalidade do mal”. O mal é algo comum e pode residir no mais medíocre e comum dos homens. Não é algo exclusivo dos sádicos e pervertidos.

Da mesma maneira que uma Alemanha inteira foi condescendente com o brutal assassinato em massa naquela época, nós escolhemos, muitas vezes, reduzir o racismo estrutural existente em nosso país a comentários do tipo “foi apenas um comentário infeliz” ou “essa fala foi retirada do contexto”. Mascarar a podridão de caráter de tantos de nós e a necessidade de reflexões urgentes com esse tipo de desculpa é contribuir para o genocídio negro que acontece diariamente em nosso país, seja ele simbólico ou literal.

Angela Davis já dizia que “em uma sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Enquanto não começarmos a perceber e reeducar os racistas que estão logo ali, em nossos círculos sociais, nas nossas famílias, no nosso trabalho, a barbárie continuará a acontecer. E é preciso sobretudo desmascarar o racista que existe em nós e que já se naturalizou com tantos absurdos que se repetem diariamente. Nunca foi tão necessário confrontar o comentário do seu tio no grupo da família ou repreender o seu filho pela “piada” racista. Somente quando essa luta for uma luta de todos, os resultados serão diferentes. Afinal, os racistas estão logo ali. Ou aqui.

Pedro Aihara é mestre em Direitos Humanos, especialista em Gestão e Prevenção de desastres, professor e palestrante. Como bombeiro militar, atuou em crises como as de Brumadinho, Mariana, Janaúba, entre outras. Seu Instagram é @pedroaihara e seu e-mail é pedroaihara@gmail.com

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