Pandemia de coronavírus
Tribuna
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O isolamento vertical defendido por Bolsonaro é uma fraude pseudocientífica

Em quatro décadas de carreira acadêmica como professor e pesquisador em epidemiologia, nunca soube da existência de qualquer conceito dessa natureza

Mulher caminha por rua de favela no Rio de Janeiro.
Mulher caminha por rua de favela no Rio de Janeiro.Antonio Lacerda (EFE)
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A ideia de “isolamento vertical” encontra-se no centro do debate político sobre a pandemia da covid-19 no Brasil. Há pouco, declarou o presidente da República, na sua oratória inconfundível: “O Governo federal, se depender de nós, está tudo aberto com isolamento vertical e ponto final.” Essa proposta significa suspender medidas gerais de controle epidemiológico e isolar grupos vulneráveis, idosos e pessoas com comorbidades. Rejeitá-la, junto com a cloroquina, representa a receita pronta para suicidar ministros da saúde.

Desde o começo, essa ideia me provocou estranheza. Em quatro décadas de carreira acadêmica como professor e pesquisador em epidemiologia, nunca soube da existência de qualquer conceito dessa natureza. Mais intrigado fiquei quando se falou de seu oposto simétrico, o “isolamento horizontal”, vagamente referido a distanciamento físico como estratégia geral de redução do contágio. Estupefato, escutei um ministro da alta corte do judiciário propor resolver a questão criando um tal de “isolamento diagonal”!

Seria meu estranhamento mera ignorância? Será que a ideia de “isolamento vertical” teria alguma base científica? Tudo indica que não. Logo após o anúncio dessa bizarra ideia, virologistas, infectologistas, sanitaristas e pesquisadores de várias disciplinas de imediato contestaram sua validade científica. Com outros colegas epidemiologistas, fizemos uma busca cuidadosa e nada encontramos na literatura médica e científica. Do ponto de vista epidemiológico, não faz qualquer sentido usar uma quarentena invertida, aplicada somente a vulneráveis e não a infectados, sem contar que grande parcela da nossa gente vive em condições que dificilmente ou jamais pode isolar alguém em casa. A livre circulação dos sujeitos contaminantes, sintomáticos ou não, facilita o contágio e a pandemia foge a qualquer controle, podendo tornar-se endêmica. Além de cientificamente inválida, essa estratégia é problemática também do ponto de vista da ética médica, na medida em que implica um gerontocídio anunciado, dada a maior virulência e letalidade da covid-19 entre idosos. Em suma, por esses e outros motivos, a esquisita noção de “isolamento vertical” não se sustenta nos campos científicos da medicina e da saúde coletiva.

Isto posto, vejamos a questão seguinte: como teria se constituído noção tão perversa? Para tentar respondê-la, busquei realizar uma rápida microarqueologia de narrativas, a partir de sua primeira formulação mais sistemática, datada dos últimos dias do mês de março. Vejam que interessante e aterrador.

26/03/2020. Osmar Terra, parlamentar, ex-ministro de Estado, é entrevistado numa cadeia nacional de rádio. Primeiro, apresenta suas credenciais de médico e ex-secretário de saúde que, segundo ele, teria enfrentado e vencido epidemias muito mais sérias do que a pandemia da covid-19. Ao tentar explicar temas técnicos em linguagem simples, exibe sua alegada experiência de gestor e suposta fundamentação técnica, como se estivesse postulando algum cargo. Assertivo, sem hesitação, afirma que a população brasileira já teria alcançado níveis de “imunidade de rebanho” suficientes para justificar o relaxamento do distanciamento social. Para ele, controlar a pandemia “Não tem nada a ver com fechar escola, shopping, proibir ônibus [...] tem que proteger as pessoas que estão mais debilitadas, que têm doenças crônicas, esse é o grupo que tem que ser isolado”. Confirma ser esta “a posição do presidente Bolsonaro, baseada em evidências científicas, nas informações do Ministério da Saúde, que defende o isolamento vertical.”

25/03/2020. Instagram @governodobrasil: “No mundo todo, são raros os casos de vítimas fatais do #coronavírus entre jovens e adultos. A quase-totalidade dos óbitos se deu com idosos. Portanto, é preciso proteger estas pessoas e todos os integrantes dos grupos de risco, com todo cuidado, carinho e respeito. Para estes, o isolamento. Para todos os demais, distanciamento, atenção redobrada e muita responsabilidade. Vamos, com cuidado e consciência, voltar à normalidade. #oBrasilNãoPodeParar.” Nesse mesmo dia, numa entrevista, o presidente declara: “A orientação vai ser o isolamento vertical daqui pra frente, ou seja, idosos e quem têm duas ou mais doenças.” Propõe retomar a atividade econômica, para evitar “a cura ficar pior que a doença em si".

24/03/2020. Num pronunciamento em cadeia nacional, o presidente afirma que a doença será “quando muito, uma gripezinha”, que pouco afetará a população brasileira, capaz de, segundo ele, espontaneamente produzir resistência ao coronavírus. Introduz no discurso presidencial a notícia de que se está buscando “a comprovação da eficácia da cloroquina no tratamento da covid-19”. Anteriormente, confrontado com os primeiros sinais da pandemia, sua primeira e, por muito tempo, única resposta tinha sido promover o uso em massa desse medicamento antimalárico, ordenando sua fabricação em instalações militares.

Considerando que o médico Luiz Henrique Mandetta, então ministro da Saúde, propunha seguir as orientações da OMS (o que posteriormente lhe custaria humilhação pública e exoneração do cargo), onde teria o capitão encontrado justificativa técnica para seu posicionamento? Quem lhe ensinou a soletrar “cloroquina” e “isolamento vertical”? Não foi difícil achar uma pista: Donald Trump. Voltemos no tempo, em rápidas camadas geológicas de narrativas:

24/03/2020. Donald Trump propõe flexibilizar as medidas de controle da pandemia nos EUA; para isso, prometeu um plano para reabrir a economia na Páscoa. Postou no seu twitter pessoal: we cannot let the cure be worse than the problem itself. Tradução: “não podemos deixar a cura ser pior do que o problema em si”. Soa familiar?

Porém o presidente zero-um também não se notabiliza por sabedoria e criatividade. Já que o médico Anthony Fauci, coordenador da task-force de combate à pandemia nos EUA, recomendava seguir diretrizes científicas, quem teria ajudado Trump em sua retórica? Mesmo aqui não foi difícil encontrar os suspeitos usuais: um apresentador de televisão, um colunista de jornal tradicional e um consultor de dietas e suplementos alimentares.

23/03/2020. Steve Hilton, âncora da Fox News, referindo-se à defesa da economia, lança no ar o bordão “the cure is worse than the disease”. Já ouvimos isso, não?

22/03/2020. Thomas Friedman publica em sua coluna no The New York Times um artigo intitulado A Plan to Get America Back to Work [Plano para fazer a América voltar ao trabalho], onde chama a atenção para uma estratégia mais “cirúrgica” de controle da pandemia, minimizando danos econômicos. Ele considera “one of the best ideas” [uma das melhores ideias] a “vertical interdiction” [interdição vertical] proposta pelo nutrólogo David Katz.

20/03/2020. Katz publica no NYT um texto de opinião, intitulado Is Our Fight Against Coronavirus Worse Than the Disease? [Será nossa luta contra o coronavírus pior do que a doença?]. Ainda soa familiar? Auto-apresentando-se como diretor-fundador do Yale-Griffin Prevention Research Center e presidente de uma ONG chamada True Health Initiative, Katz patenteia e promove sua criação: “interdição vertical”. No sentido de normas para controle do contágio dentro das famílias, essa noção seria oposta ao que ele descreve como: “uma tática que chamo de “interdição horizontal” ―quando as políticas de contenção são aplicadas a toda a população sem considerar seu risco para infecção grave.”

David Katz não é epidemiologista, nem virologista, nem infectologista. A prestigiosa Universidade de Yale apressou-se em declarar que, desde 2019, Katz fora afastado da direção do Griffin Hospital Prevention Research Center. Epidemiologistas e pesquisadores médicos de várias universidades escreveram artigos refutando a peça de Katz. Há inclusive uma carta ao editor do NYT. Adam Gabbatt, em artigo no The Guardian, em 27/03/2020, nos informava que Katz é um especialista em consultoria nutricional, autor de livros de autoajuda alimentar, com sugestivos títulos como The Way to Eat, Cut Your Cholesterol e Stealth Health. Além disso, tem notórios vínculos com a grande indústria de alimentos, cobrando centenas de milhares de dólares de empresas como Hershey’s, Kind Bars, Quaker Oats, e outras não reveladas, como perito em processos judiciais e para escrever artigos positivos sobre seus produtos.

Interdição vertical versus interdição horizontal. Parece familiar? Sem dúvida, na medida em que a cadeia de contágio Katz-Friedman-Hilton-Trump-Bolsonaro-Terra é bastante evidente, mais ainda ao se rastrear o repasse dessa paupérrima metáfora da “cura que mata” em paralelo com uma versão simplória da velha e bizarra ideia de “imunidade de rebanho”. Mas há um pequeno detalhe, intrigante, talvez uma inconsistência nessa hipótese arqueológica: trata-se afinal de interdição ou de isolamento? A resposta pode estar na conexão Miami-Brasília, pois o Brasil inteiro sabe das limitações linguísticas dos Bolsonaros. Os anglo-saxões têm uma expressão bastante adequada para esta situação: lost in translation [perdidos na tradução]. Talvez não perdidos, mas pervertidos; e não somente na tradução, mas na má-intenção.

Impressiona a velocidade dessa pandemia ideológica: em apenas seis dias, um vírus de desinformação atravessa hemisférios e ameaça a política de toda uma nação, a saúde de toda uma população e a vida de toda uma geração. Tão perigosas quanto fake news são mentiras e meias-verdades, quando manipuladas em jogos de linguagem, falaciosos e maliciosos. Mentiras se desmascaram em mais ou menos tempo, mal-entendidos e meias-verdades eventualmente se esclarecem, falácias podem ser desconstruídas (com maior ou menor esforço). Mas é muito difícil combater a desonestidade retórica embutida em argumentos que contêm pseudoverdades, supostamente baseadas em evidências científicas, porque o sujeito que as enuncia tem má-fé e quem as propaga age de modo socialmente irresponsável.

Enfim, a ideia de isolamento vertical constitui uma tosca fraude pseudocientífica, cruel e extremamente perigosa. Precisamos denunciar, combater, desmascarar e desmoralizar os que a promovem. Se não o fizermos, com urgência e firmeza, o preço a ser pago pode ser um gerontocídio anunciado e um genocídio camuflado, numa sociedade que já tem sofrido enormemente com desigualdades, discriminações e injustiças herdadas de sua triste história de colonialismo, escravismo e patriarcado.

Naomar de Almeida Filho é catedrático do Instituto de Estudos Avançados da USP; professor Titular de Epidemiologia do ISC/UFBA; pesquisador 1-A do CNPq; ex-Reitor da UFBA e da UFSB. Autor de Epidemiologia Sem Números (Campus, 1989), A Ciência da Saúde (Hucitec, 2000), La Ciencia Tímida – Ensayos de deconstrucción de la Epidemiología (Buenos Aires, Lugar Editorial, 2000), Introdução à Epidemiologia (Guanabara/Koogan, 2006) e Epidemiologia & Saúde: Fundamentos, Métodos, Aplicações (Guanabara/Koogan, 2011).

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