Tribuna
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O retorno da ‘Aischrópolis’, a cidade feia, e sua democracia agonizante


Nem com toda a tecnologia e todo o conhecimento alcançados, a humanidade pôde evitar que se repetisse a história de Atenas e, 2.450 anos depois, além de lutar contra um vírus imprevisível, tem de combater a ‘hybris’, a arrogância e ignorância de alguns líderes

Trabalhadores do setor artístico protestam em frente ao Parlamento grego por apoio do Governo ao setor de arte em meio à pandemia, nesta quinta-feira, em Atenas.
Trabalhadores do setor artístico protestam em frente ao Parlamento grego por apoio do Governo ao setor de arte em meio à pandemia, nesta quinta-feira, em Atenas.GORAN TOMASEVIC / Reuters
Paula Vera-Bustamante

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Corriam os anos do Século de Ouro de Atenas, entre 461 e 429 a.C., quando Péricles, arconte eleito pela Assembleia do Povo (Ekklesía), fez prosperar na polis a arte, a filosofia, a literatura e, especialmente, a política, como “a arte de discernir”. Era a época da chamada Callípolis ateniense, a “cidade bela”, regida pela beleza (kallos), a razão (logos), a justiça (díke) e a democracia (demos, povo – krátos, governo).

Péricles se preocupava não só em proteger Atenas de futuras invasões bárbaras, como também em promover o florescimento civil, artístico e intelectual da polis. Por isso, encomendou a seu amigo Fídias a construção dos principais monumentos e obras arquitetônicas, como o Partenon, os Propileus e as estátuas de Atena, senhora da cidade. Nesse então, Anaximandro e Sócrates se encarregavam da paideía (educação) no ginásio, enquanto que no théatron, Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes refletiam a vida do demos na tragédia e na comédia. Esses espaços cívicos constituíam o acesso ao conhecimento dos politēs (cidadãos ou homens livres) nesta democracia primordial. Contudo, era fundamentalmente no teatro, e durante as Grandes Dionisíacas, que não só os homens livres tinham o direito de participar, mas também os metecos (estrangeiros), as mulheres e os escravos. Era ali onde se exercia a verdadeira democracia, em que todos podiam se sentir parte da isonomia, que procuraram em seus inícios Sólon e Clístenes, graças ao fato de que o Estado custeava os ingressos para quem não podia pagar, garantindo assim que todos pudessem ter acesso a essa necessária e rica cultura intelectual.

No entanto, para realizar essas obras, Atenas cobrava onerosos impostos de seus aliados da Liga de Delos, que pagavam para evitar um eventual ataque inimigo. Foi assim que começou, em meados do século V a. C., uma moléstia nas colônias pelo alto custo de sua proteção. Isso provocou, em 431 a. C., a ruptura da liga e o rompimento com Esparta, começando assim a Guerra do Peloponeso, que durou até 404 a. C.

Esparta via com maus olhos a política de “direitos iguais” que Péricles promovia em Atenas, pois seu sistema de governo era o oposto, uma severa oligarquia na qual poucos tinham direitos. Mas a polis espartana temia, sobretudo, sucumbir ante o poderio dessa Callípolis democrática, porque algumas colônias da Liga do Peloponeso também começavam a se sublevar, pretendendo se unir a Atenas. O rei de Esparta, Arquidamo, pressionou por todas as vias os atenienses até que entraram em guerra, pois não podia permitir que a arrogante Atenas tomasse o controle da Hélade.

Péricles, sabendo os riscos que corria, aceitou a guerra com a convicção de que Atenas “devia ser a escola da Grécia” (Tucídides, II: 41), convencendo com essas palavras a Ekklesía, apesar do eclipse solar que aterrorizou os habitantes da Ática em agosto de 431 a. C. O arconte teve que aproveitar seus conhecimentos astronômicos –ensinados por Anaximandro– para convencer os atenienses de que o fenômeno não era presságio de desgraça e que a polis seguia sendo a favorita do Olimpo.

A intenção de Péricles não era fazer uma estratégia ofensiva, mas defensiva: atacaria só se fosse atacado. Para isso, transferiu todos os habitantes rurais da Ática para a cidade amuralhada para protegê-los do ataque terrestre dos espartanos, mas não se preocupou em lhes dar um teto onde viver na polis. Estes, amontoados nas ruas e nos templos, sofreram em pouco tempo as inclemências de uma epidemia sem igual, que pôs em xeque a poderosa Callípolis, transformando-a na feia e espantosa Aischrópolis (de aischrótes, feiúra, e polis, cidade-estado).

Embora Atenas ganhasse as primeiras escaramuças da guerra, ao começar o verão de 430 a. C., teve de batalhar em uma guerra muito mais cruenta, com um inimigo invisível e imprevisível, do qual só se sabia que provinha da Etiópia. “Chegou a Atenas de um modo inesperado e atacou primeiro os habitantes do Pireu. De repente as pessoas padeciam de febres intensas, (...) depois sobrevinham espirros e tosse, para logo atacar o estômago. (...) Exteriormente, o corpo não resultava nem muito quente nem muito frio (...), com uma erupção de pequenas pústulas e chagas. No entanto, os doentes sentiam uma queimação, que não aguentavam vestir túnicas leves, (...) só podiam andar nus e com vontade de mergulhar em água fria, não só pelo excesso de calor, mas também pela sede insaciável que sentiam. (...) O mais terrível do mal em seu conjunto era o desânimo quando se adoecia ―pois entregues ao desespero se abandonavam muito mais, sem vontade de melhorar― e o fato de que ao se contagiar por cuidar uns dos outros, morriam como rebanhos”, descreveu Tucídides fala, no Livro II de A História da Guerra do Peloponeso, sobre a epidemon nosema (epi, sobre, demon, povo e nosema, doença).

Com seu relato histórico, Tucídides visa possibilitar um maior conhecimento sobre esse contágio no futuro, por isso é minucioso em suas observações médicas tanto a respeito dos infectados como dos sobreviventes, pois ele mesmo resistiu à doença. Assinala que os que morriam em maior número eram os médicos, que, por desconhecer o tipo de mal, não dispunham de meios para curar nem os outros nem a si mesmos, e assim a epidemia se propagou como o fogo ateado nos campos pelos espartanos. E sem que as orações nos santuários pudessem salvá-los tampouco. Ao contrário, ao se aglomerar nos templos, muitos dos suplicantes morriam, ficando seus corpos ali caídos. Foi então que os atenienses mais antigos lembraram da profecia que advertia: “Virá a guerra dos dórios e a peste com ela.” (II: 54) Francisco Romero Cruz, tradutor de Tucídides, menciona como hipóteses muito discutidas para a epidemia ateniense uma variante do tifo ou até mesmo o sarampo, por causa das pústulas nos doentes. Mas estudos recentes se inclinam pela hipótese de febre tifoide.

A imagem da doença, aponta Tucídides, é mais impressionante do que é possível narrar, e o mais inusitado é que nem as aves de rapina se aproximavam dos cadáveres espalhados por toda parte em Atenas e em seus arredores, tanto que naquele ano os espartanos suspenderam os ataques para não se contagiarem. “Junto com a epidemia, o que mais angustiou [os atenienses] foi a concentração das pessoas do campo na cidade (…), houve um estrago que não respeitava regras, pois os cadáveres se empilhavam uns sobre os outros, e os moribundos se arrastavam pelas ruas e em volta de todas as fontes pela ânsia da água. (…) Os homens, sem saber o que fazer, tenderam a abandonar por igual o sagrado e o humano. Todo o ritual de que se serviam antes para os funerais ficou alterado e enterravam como podiam", descreve (II: 52).

Já não havia vestígio da Callípolis de Atena, daquela cidade bela que tinha abrigado os valores que os atenienses mais respeitavam: o bem, a verdade e a justiça. Com a chegada da epidemia, a polis se transformou no mais espantoso para o homem grego, a Aischrópolis, a cidade feia e obscena, onde o espírito se corrompe, a maldade e a falsidade correm soltas pelas ruas, e os vícios e excessos abrem os portões da polis para a temida Hybris, a senhora do mal da Idade de Ferro que, para Hesíodo, incitava nos homens a arrogância, a ambição, a ignorância e a injustiça. Assim narra Tucídides como os atenienses iam perdendo a honra e a virtude, pois já não respeitavam os deuses nem as leis: “Ninguém estava disposto a se esforçar pelo que parecia belo ante a incerteza de se pereceria antes de lográ-lo.” (II: 53)

O descontrole e a desmesura se espalharam ainda mais pela cidade quando o strategos Péricles morreu, com seus filhos, devido à epidemia em 429 a. C. A partir desse ano, a Assembleia do Povo foi vítima dos demagogos (de demos, povo, e ago, conduzir) ―que, corrompendo a ideia fundamental de que na vida política (politéia) deve primar o interesse pela maioria, ou seja, pelo público, viram na compra e venda do voto a possibilidade de enriquecer e satisfazer seus interesses privados. “Vereis que tudo é vendido junto no mesmo lugar em Atenas: Figos, testemunhas para atender a convocações, cachos de uvas, nabos, (...) fornecedores de provas, rosas, nêsperas, sopas, (...) processos legais... Máquinas de demarcação, íris, lâmpadas, clepsidras, leis, denúncias...”, descreveu o o estado da Aischrópolis ateniense o poeta Eubolo.

Atenas ia sendo destruída não só pela Guerra do Peloponeso e pela epidemia, mas também pela ação dos aduladores e demagogos que arruinaram a política com seus abusos e manipulações. Ante esse panorama desolador, Aristófanes escreveu, em 414 a. C., a comédia As Aves, como protesto pelos abusos cometidos pelos atenienses, que insistiam em lutar contra os espartanos, e como desejo utópico de construir seu próprio mundo ideal. Para Aristófanes, os atenienses tinham se transformado em comerciantes do dinheiro e do engano, “vivendo pendurados na burocracia, à custa dos impostos que os cidadãos pagavam”, inventando empregos inúteis que terminaram por saturar a polis, como o “mercador de decretos”, que trabalhava na Assembleia vendendo “leis novas por preços bem baratinhos”, ou vendendo “os mesmos decretos que eram impostos às colônias de Atenas”. Ou como o sicofanta (sykophanta), o “delator profissional”, a figura mais repudiada por Aristófanes no livro: “Sou um sicofanta (...). Recebo dinheiro pra acusar as pessoas... Trabalho muito e preciso ter asas. Assim poderei delatar mais rápido. (...) Sou um sicofanta que trabalha pro bem público! Fiscalizo as cidades e denuncio estrangeiros.”

Aristófanes é lapidar ao concluir que Atenas tinha se convertido em uma “árvore de mentiras e violências”, em uma cidade nas trevas, cujos habitantes acabaram sucumbindo ao “lado escuro da vida humana”.

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A democracia de Atenas, que Sólon, Clístenes e Péricles ajudaram a criar, terminou em ruínas ante uma oligarquia corrupta, ignorante e despótica, que começou a desacreditar deliberadamente a outrora florescente “cultura das ideias”. Dessa forma, a manipulável Assembleia do Povo condenou ao ostracismo o arquiteto e escultor Fídias, o filósofo Anaxágoras e o sofista Protágoras, acusando-os de ímpios, mas sua decisão mais brutal foi sentenciar Sócrates à morte por considerá-lo uma ameaça à polis, acusando-o de não acreditar nos deuses e de corromper os jovens com seus ensinamentos, já que para o filósofo sua missão era ajudar a dar à luz o conhecimento, tal como sua mãe que era parteira (maieutike). A morte de Sócrates, em 399 a. C., marcou o perigeu dessa Aischrópolis doente, que terminou subjugada, juntamente com Esparta, em 338 a. C. por Felipe II da Macedônia.

A história, como pensava Tucídides, serve não só para examinar o que ocorreu em um momento determinado, como também para que a humanidade extraia lições dos episódios do passado. A filosofia serve para compreender que não estamos dissociados da natureza, que somos parte dela formando um todo; a literatura, para examinar onde falhamos como humanidade e como podemos corrigir o rumo; e a política, para saber escolher com discernimento os mais capacitados para governar a vida pública.

Contudo, 2.450 anos depois daquela epidemia, a humanidade, nem com toda a tecnologia e todo o conhecimento alcançados, pôde evitar que se repetisse a história de Atenas, e enfrenta novamente uma epidemia em que, além de lutar contra um vírus imprevisível, tem de combater a hybris, a arrogância e ignorância, dos que hoje governam alguns demos. Mostrando o pouco que se importam com o bem da maioria e pondo em perigo mais uma vez a democracia, pois muitos desses líderes demagogos corromperam seus eleitores com manipulações de todo tipo para chegar ao poder por meio do voto inconsciente, seja criando fake news e inimigos imaginários, exacerbando os discursos de ódio e o fanatismo religioso ou ―devido à própria ignorância― vilipendiando a ciência, a arte e o conhecimento.

As analogias com a Aischrópolis ateniense estão à vista, já que desde o surgimento da atual emergência sanitária fomos testemunhas da infâmia de tais governantes ao negar a gravidade da pandemia e boicotar recomendações vitais como a de quarentena, menosprezando assim os próprios povos que os elegeram. Também vimos como, por ambição, foi atropelado o respeito à vida das pessoas, consideradas apenas como números, como estatísticas, que devem se sacrificar para manter a todo custo “a economia” que beneficia os oligos, os poucos que se favorecem com ela. E fomos testemunhas da miséria em que se encontram alguns demos, onde a convivência com os mortos é cotidiana, porque não há como sepultá-los, ficando abandonados em qualquer lugar. Portanto, permanecem vigentes as observações de Tucídides sobre a doença, que já naquela época evidenciavam que é preciso ignorar as ambiguidades e demências dos demagogos, que desinformam os habitantes e os expõem ao contagio, e evitar as aglomerações até que o surto acabe. Assim como os espartanos perceberam a seriedade do contagio em Atenas e suspenderam naquele ano a guerra, é necessário que os líderes de hoje enxerguem a gravidade da pandemia. Já é hora de abrir os olhos para a realidade e aceitar que o mundo não deve ser regido pela ideologia, e sim pelo bem comum.

Lutamos contra um vírus complexo que coloca à prova toda a humanidade, mas até mesmo este iós microscópico veio nos mostrar aquilo que ainda podemos mudar; veio para nos dar a oportunidade, como advertiu Hesíodo em Os Trabalhos e os Dias, de corrigir nossas ações, tomar consciência e compreender que para poder viver na Idade de Ouro devemos escolher o caminho de Díke, da justiça. Recuperando a humildade e a confiança e aprendendo a viver em harmonia não só com o próximo, mas também com o mundo em que habitamos; mundo que ainda pode se transformar, graças ao amor, à arte e ao saber, em uma autêntica Callípolis.

*Paula Vera-Bustamante é pesquisadora e criadora da Teoria da Cidade Fictiva. Licenciada em Literatura pela Universidad de Chile e Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo.

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