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Brasil, a história em vertigem

Descrever Petra Costa como “militante” não é um gesto ingênuo. Na novilíngua dos regimes autoritários, militante é palavra suspeita para descrever o inimigo

A diretora Petra Costa.
A diretora Petra Costa.Diego Bresani/Divulgação

“Como se escreve a história” é uma obra de Paul Veyne dos anos 1970. O “como” do título não é uma pergunta, mas o desvendamento de um segredo. Os historiadores escolásticos responderiam que a pesquisa em arquivos precede a escrita da história. Fugiriam da pergunta sobre o “como” e escapariam listando suas “fontes”: livros, documentos, artefatos, fotografias, diários, cartas ou entrevistas. É isso que Petra Costa faz: revira os arquivos da história recente do Brasil, desde a ditadura militar até a emergência do bolsonarismo, e apresenta uma narrativa. Democracia em Vertigem está na lista dos cinco finalistas para o Oscar de melhor documentário.

Nas últimas semanas, Costa peregrina por televisões, jornais e debates públicos sobre o filme. Suas entrevistas são atípicas para uma artista a poucos dias da cerimônia do Oscar: quase não se discute as escolhas estéticas, os desafios de captura das imagens no instante dos acontecimentos ou a brutalidade da montagem de um arquivo de longa duração. O tema das conversas é quase sempre o mesmo: “O que se passa na democracia brasileira?”. De diretora de um documentário, Costa é ouvida como uma brasilianista-brasileira que explica o que foi a Operação Lava Jato, como é um processo de impeachment no Brasil e suas diferenças para os Estados Unidos, como se deu a colonização evangélica na política ou a crise na Amazônia.

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Sua entrevista ao canal PBS, nos Estados Unidos, provocou a fúria de presidente Jair Bolsonaro, que a descreveu como “militante anti-Brasil” em canais oficiais de comunicação do Governo. É sabido que a arte intimida os regimes políticos autoritários. E Costa é mesmo uma personagem assustadora: é a escrita da história pelas lentes e voz de uma mulher. É o autoritarismo patriarcal que se encurrala com o palanque global conquistado pela mulher que enquadra um país numa narrativa. Não é simples desdém estético os que ironizam da suavidade de sua voz como narradora do filme. A voz que narra não é o abstrato “voz de deus” dos documentários pedagógicos que ensinam o que os comuns ignoram. A voz chega antes de seu corpo, e sua biografia familiar se esmiúça às das elites do país que alçaram ao poder um personagem fanático.

O filme é um documentário, uma classificação antes política que estética. Qualquer documentário é um enredo sobre o real a partir de um ponto de vista. Há autoria e, no caso de um filme com narradora, não há como esquecer-se de quem fala. É assim que a voz de Costa é um convite à autenticidade e à honestidade autoral: sabemos quem escreve a história e por que essa história importa desde sua própria gênese individual e familiar. Com menos transparência biográfica, é também assim na história impressa em livros —Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; ou Brasil: uma biografia, de Heloisa Starling e Lilia Schwarcz são narrativas sobre o Brasil. Ter um ponto de vista, ou uma vista para o ponto, como gostam de provocar as feministas na epistemologia da ciência, não é apossar-se da liberdade ficcional para falar sobre o real ou mesmo resvalar-se para o campo ideológico: é assumir-se como uma narradora desde uma geografia específica da vida. Costa é autora de uma história sobre a política brasileira e lhe interessa particularmente entender o momento em que as “sementes do fascismo” brotaram nas ruas com os movimentos de 2013.

Descrevê-la como “militante” não é um gesto ingênuo. Na novilíngua dos regimes autoritários, militante é palavra suspeita para descrever o inimigo. Por isso, convocar Costa como uma voz “anti-Brasil” é um convite ao ódio. Para os que vivem a política com o espírito da polarização, inimigo é alguém a ser eliminado e para vencê-lo não há respeito às regras civilizatórias da verdade. Assim foi com o ex-deputado Jean Wyllys, hoje, no desterro pelo fanatismo bolsonarista. Mas enquanto peregrina como tradutora do Brasil, Costa não se silencia. Em uma das entrevistas, perguntada se teme perseguição do Governo brasileiro pelo filme, sua resposta é a de quem sabe o lugar da história para a democracia: “Eu espero um país melhor”. O filme já é parte da memória e se transforma em argumento para a transformação política.

Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown. Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR.

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