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Só ela sobreviveu ao desastre aéreo que a URSS quis esconder

O sigilo do poderoso aparato militar soviético conseguiu silenciar o acidente que tirou a vida de 37 pessoas em 1981. Um documentário e um filme vão contar a história de Larisa Savitskaya

A sobrevivente do voo 811, Larisa Savitskaya, e o diretor do filme 'Odna', Dmitri Suvorov, em 2020.
A sobrevivente do voo 811, Larisa Savitskaya, e o diretor do filme 'Odna', Dmitri Suvorov, em 2020.Serguéi Kuznetsov

Sobreviver a uma queda de 5.220 metros agarrada a um pedaço da fuselagem de avião não converteu a cidadã soviética Larisa Savitskaya em notícia, mas em uma testemunha incômoda. Em 24 de agosto de 1981, o voo de passageiros An-24, no qual ela voltava de sua lua de mel com o marido, colidiu no céu com um bombardeiro Tupolev 16K. Tinha vinte anos e foi a única sobrevivente. Não só resistiu aos oito minutos de descida e choques contra árvores, como também suportou três dias ferida e sozinha na intempérie. Mas as autoridades soviéticas esconderam a história desse fato excepcional. Seguindo sua tradicional fórmula de opacidade e sigilo, o incidente foi declarado sigiloso. Savitskaya só soube o que tinha acontecido naquele dia trágico depois da queda da União Soviética (URSS), 10 anos depois. Quarenta anos após o acidente, um documentário, Oito minutos até o chão, agora aborda essa história de sobrevivência e ocultação, que no próximo ano será o tema do filme Odna (Uma).

“Não me contaram nada. Apenas se dirigiram à minha mãe e disseram: ‘Esqueça o que aconteceu’”, explica Savitskaya a EL PAÍS. “Minha mãe assinou alguns documentos. Eu não soube o que tinha acontecido durante 10 anos. Nem o número de passageiros nem nenhuma versão dos acontecimentos”, relata a sobrevivente, que com o tempo conseguiu assimilar aquele dia traumático e reconstruir a sua vida: “Agora estou bem, sou uma pessoa feliz”.

Em 1985, foi publicado pela primeira vez um artigo sobre a catástrofe. Culparam os pilotos e disseram que uma das aeronaves tinha continuado a voar. Foi preciso esperar até a década de 1990 para que a investigação fosse desclassificada, e só então os enormes erros cometidos pelas forças aéreas soviéticas foram conhecidos. O plano de voo do Tu-16K cruzava uma rota civil sem que os pilotos tivessem sido avisados, e o controlador da base militar, que deveria ter supervisionado o Tupolev, não fez um rastreamento de aeronaves pelo radar. A visibilidade era boa, além dos 10 quilômetros, mas o Tupolev de repente se deparou com o Antonov civil em plena ascensão. No total, morreram 37 pessoas: 31 a bordo do avião de passageiros e os seis tripulantes do Tu-16k.

O evento ocorreu cinco anos antes da glasnost de Mikhail Gorbachev, a busca por transparência no sombrio regime soviético. No entanto, o sigilo do poderoso aparato militar russo e o zelo para encobrir os próprios erros nunca desapareceram. Os relatórios sobre o acidente continuaram guardados em uma gaveta e o próprio presidente não deu o exemplo quando chegou a hora da verdade: ele demorou um mês para aparecer após o acidente na central nuclear de Chernobyl em 1986. Uma opacidade governamental que continua viva ainda hoje: em 2019, enquanto na atemorizada cidade de Arkhangelsk se detectava um aumento de radiação, o Governo manteve em segredo durante quatro dias que havia ocorrido uma explosão em um laboratório de novas armas acionadas por motores nucleares.

“Tudo pelo sigilo”, lamenta hoje Savitskaya. Ela enfatiza que na URSS os corredores aéreos militares e civis não eram coordenados. “Vários outros casos como este ocorreram no país.” A única sobrevivente do acidente de avião recebeu 75 rublos da Aeroflot pelos danos sofridos, cerca de 110 dólares na época, equivalentes a 330 dólares de hoje (1.870 reais), e 150 rublos a mais pela morte de seu marido.

Larisa tinha 20 anos. Conheceu Vladimir Savitsky por meio de um amigo em comum e começaram a namorar quando ela já estudava no Instituto de Pedagogia de Moscou. Casaram-se logo e passaram a lua de mel com os pais dele. Quando embarcaram no voo para retornar de Komsomolsk-on-Amur (leste) para Blagoveshchensk (perto da fronteira com a China), o avião estava meio vazio e eles se sentaram na parte de trás, porque era mais cômodo. Uma comissária de bordo os convidou a ir para poltronas na frente, mas eles se recusaram e, então, foram trocados os assentos de outros passageiros que concordaram em ir para a frente. Savitskaya viu seu assento original sair voando depois do acidente.

“Acordei no corredor”, lembra a sobrevivente. A investida do bombardeiro arrancou ambas as asas e parte do avião, e sua estrutura começou a girar sem chegar a virar de cabeça para baixo. Voltando a si, a jovem regressou a seu assento, num impulso, e afivelou o cinto de segurança. Vladimir estava no lugar ao lado, morto. “Eu soube naquele momento que meu marido tinha morrido. Tinha sangue na cabeça, na roupa... “, lembra.

A fuselagem se despedaçou progressivamente naquela descida eterna. Por causa da descompressão fazia um frio intenso, dezenas de graus abaixo de zero, e Savitskaya estava consciente. “As pessoas gritavam”, conta. Ela viu os últimos minutos de vários passageiros. Agarrando-se da melhor maneira possível ao assento, que não estava mais totalmente fixado ao piso, lhe vieram à mente cenas de um filme que ela havia visto no ano anterior com o marido, Milagres ainda acontecem (1974), em que a protagonista se salvava da mesma maneira que ela naquele momento. Para sua sorte, a flexibilidade das bétulas amorteceu o impacto contra o solo.

“Há coisas que a gente não esquece. Não importa o quanto eu tenha tentado, o acidente de avião ainda me acompanha”, diz. A sobrevivente recuperou a consciência em plena floresta. Tinha fraturas nos braços, costelas e cinco pontos da coluna vertebral, e seus dentes estavam quebrados. Em torno dela, a névoa criava um cenário onírico. Nele estava o corpo sem vida de seu marido.

“Não sabia para onde ir, rodeada de árvores. Fazia um frio terrível e chovia muito. Eu queria dormir, mas não conseguia por causa da dor”, descreve Savitskaya, que decidiu aguardar as equipes de resgate. Ela se cobriu com os cobertores que encontrou nos assentos e se protegeu com plásticos do assédio dos mosquitos. Para matar a sede, bebia de uma poça. “Estava encharcada, só queria me aquecer”, recorda. De repente, um helicóptero sobrevoou sua área e ela acenou, mas ninguém veio em seu socorro, tinha sido confundida com alguns geólogos que trabalhavam na região. No terceiro dia, perdeu a esperança de que a encontrariam ali. Muito fraca, começou a andar. Mal havia começado quando uma equipe de resgate a localizou. A próxima coisa de que se lembra é de acordar em um hospital.

Depois do acidente, teve que ficar calada e não recebeu nenhum apoio psicológico. “Não existia esse conceito. Quem ajuda nesse tipo de situação? Mãe, pai. Quando me mudei para Moscou para aprender psicofisiologia, estudei a mim mesma. Eu mesma consegui me ajudar”, acrescenta.

A sobrevivente nunca trabalhou como psicóloga com outras vítimas de acidentes, mas sua experiência com o estresse pós-traumático serviu de apoio aos afgantsi, os veteranos da guerra soviética no Afeganistão. “Tinham um estado mental parecido. Entender que não era a única, que há mais gente que sobreviveu a coisas parecidas, me ajudou”, diz Savitskaya, que reconstruiu sua vida e hoje olha ao redor e vê “um marido amado, um trabalho, um filho e uma neta”. Também não teve medo de voar de novo: ‘Um projétil não cai duas vezes no mesmo lugar’. Esta frase é sobre mim.”

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