Eleições EUA 2020

Viagem aos 80.000 votos que mudaram a história dos Estados Unidos

O EL PAÍS percorre, quatro anos depois, os condados dos três Estados-chave na vitória de Donald Trump em 2016 e nos quais Joe Biden joga suas fichas para ocupar a presidência

Casa de Scott W. Moses em Mount Clemens, Michigan, em 11 de outubro.
Casa de Scott W. Moses em Mount Clemens, Michigan, em 11 de outubro.Mónica González
Wilkes-Barre (Pensilvânia) - 25 out 2020 - 18:13 UTC

Uma rua de Kenosha, um subúrbio de Detroit, e uma bela cidadezinha chamada Wilkes-Barre, onde cervos vagam pelo cemitério em pleno centro urbano, mudaram há quatro anos a história dos Estados Unidos. A democrata Hillary Clinton recebeu quase três milhões de votos a mais do que Donald Trump nas eleições de 2016, mas no sistema norte-americano prevalece o peso de alguns territórios sobre outros e a crise no cinturão industrial dos EUA a liquidou. Em um país de 330 milhões de habitantes, menos de 80.000 votos em um punhado de condados de Wisconsin, Michigan e Pensilvânia fez inclinar a balança para o republicano com margens que não chegavam a um por cento.

Hoje, esses três territórios pendulares, que passaram de Barack Obama a Trump, voltam ao centro da batalha. O EL PAÍS começa com eles uma série sobre os Estados que decidirão a presidência do país mais poderoso do mundo.

“Eu era democrata, mas passei para os republicanos. Em 2016 não votei em Clinton, não votei em ninguém, mas em novembro pretendo votar em Trump. O que aconteceu aqui em Kenosha me fez mudar de opinião, além disso, as pessoas comentam que o partido rival pagou gente para fazer os estragos”, explica Griselda Román, uma cabeleireira de 47 anos que emigrou do México ainda adolescente e dirige um salão de beleza.

Kenosha, no Estado de Wisconsin, no norte do país, é uma das cidades atingidas pelos tumultos deste verão. O pavio acendeu em um domingo de agosto, quando a polícia atirou sete vezes nas costas de um homem negro que ia prender, depois de meses de protestos pela morte do afro-americano George Floyd. As manifestações contra o racismo se depararam com a presença de milícias privadas. Um rapaz branco de 17 anos veio com um rifle para por ordem por conta própria e matou duas pessoas.

A grande Avenida 22, adjacente ao salão de Griselda Román, é hoje um caminho de solares, estabelecimentos incendiados e imóveis fechados por tapumes. “Trump prometeu mão dura, nos aspectos militar e econômico é um homem forte. E ouvi dizer que Joe Biden quer aumentar os impostos”, explica a empresária.

É sábado, 10 de outubro, e o salão de beleza está com um bom movimento, algo ótimo para uma dessas empresas familiares que tiveram de fechar por conta da pandemia. Na televisão se ouvem os diálogos de uma novela em espanhol. 99% da clientela habitual é latina. Quando questionada sobre os comentários insultantes do presidente aos hispânicos, especialmente aos mexicanos, ela responde: “Sei que ele não gosta muito de nós, mas...” e começa a rir.

O condado de Kenosha não elegia um presidente republicano havia 44 anos e em 2016 se decidiu por Trump, que soube ler a frustração da classe trabalhadora branca, empobrecida e castigada pela fuga da produção industrial, temerosa da imigração.

Joe Biden procura reverter esse voto. No âmbito nacional supera Trump nas pesquisas por sete pontos, de acordo com a média da Real Clear Politics, e nesses três lugares-chave, Wisconsin, Pensilvânia e Michigan, lidera com quatro, cinco e quase oito pontos, respectivamente. Depois da surpresa de quatro anos atrás, porém, as pesquisas despertam receios e os especialistas preveem sem muita convicção. O salão de Kenosha mostra que, diante dos republicanos desencantados, o presidente ainda pode seduzir novos eleitores inesperados.

"As eleições se ganham pelas margens, especialmente em tempos partidaristas e polarizados como este, quando muito pouca gente muda de lado. Trump ainda ganha entre os trabalhadores de macacão azul por ampla margem, embora não tão ampla quanto em 2016. Ou pode ser um erro das pesquisas ", aponta Larry Sabato, diretor do Centro de Políticas da Universidade da Virgínia.

O condado de Macomb, a 25 minutos de carro de Detroit, Michigan, é o maior expoente dessa guinada de parte da classe trabalhadora para o Partido Republicano. É aqui que o pesquisador Stan Greenberg identificou e batizou em 1985 os democratas reaganianos, em referência às famílias trabalhadoras que abandonaram os democratas para votar em Ronald Reagan. Majoritariamente branco, católico e altamente sindicalizado, era um dos condados mais democratas na década de sessenta, depois da revolução de Reagan um democrata não voltou a ganhar até Bill Clinton, em 1996.

Um passeio em Mount Clemens, uma das cidades do condado, transporta àquela época dourada do grande subúrbio americano, símbolo poderoso do vigor da classe média. As fileiras de casas com bandeiras de listras e estrelas, os cortadores de grama nos jardins, as delicadas decorações de Halloween. Rapazes de formação média encontravam um bom emprego em alguns desses gigantes automobilísticos de Detroit, podiam comprar uma casa, um carro e formar uma família, sem luxos, mas sem calamidades.

Um dos moradores desse bairro, Scott W. Moses, de 44 anos, que ganha a vida consertando motocicletas, não está entusiasmado com Trump, mas planeja votar nele pela segunda vez. “Vou ser sincero com você, não gosto de todas as suas políticas e acho que deveria parar de tuitar às três da manhã, mas mudou a economia para melhor. O Nafta [acordo comercial entre os EUA, México e Canadá, que data de 1994] é uma coisa horrível que aconteceu conosco e ele tenta reverter. Quer dar incentivos fiscais para as empresas que ficam. É só um exemplo. E, sobre a imigração, as pessoas ficam dizendo que ele quer que deixem de vir, mas o que ele diz é que venham pela via legal", explica de sua varanda, decorada com dois grandes cartazes de apoio ao presidente.

Biden não quer deixar a Trump a exclusividade do discurso econômico nacionalista. Diante do “América em primeiro lugar” do republicano, o democrata colocou o lema “Made in America” em seu programa econômico. O discurso do Partido Democrata sobre a globalização também mudou. Já começou a fazê-lo em 2016, quando Hillary Clinton admitiu os efeitos adversos e avançou mudanças na redação do acordo comercial com o Pacífico que Barack Obama acabara de promover e nunca foi adiante. Mas não funcionou. Michigan escolheu seu primeiro presidente republicano desde Reagan.

Mike Bradley, um vizinho que mora a quatro quarteirões de Scott, acredita que desta vez escolherão o democrata. “Há quatro anos as pessoas não o levaram a sério, havia quem até achasse graça dele e não achava que ia ganhar, mas agora é diferente e o Partido parece muito mais unido”, diz este homem de 38 anos, nascido e criado no Estado, filho de um funcionário da General Motors. “Nesta região, em particular, eu costumava ver muitos cartazes de Trump, mas agora vejo mais de Biden”, acrescenta.

Diante do temor das pesquisas, há muitos que nestes dias analisam a quantidade de anúncios a favor de um ou outro candidato nos jardins das casas. Todo mundo tem suas razões. Da varanda, muitos não têm problema em se sentar nas escadas para contá-las a uma jornalista desconhecida, outro daqueles selos distintivos do subúrbio americano. Este e as abóboras de Halloween, o único símbolo comum atualmente nos lares norte-americanos. Há quem escolha Donald Trump por sua mensagem de lei e ordem, quem o faça por ter aprovado a maior redução de impostos desde a era Reagan, quem o escolha porque simplesmente é republicano e votou em republicanos a vida inteira. O presidente tem 94% de aprovação entre os eleitores de seu partido.

“Os norte-americanos gostam de líderes fortes e Trump projeta força. Mas também produz divisão e caos e eles não gostam disso. Desfrutou de três anos de prosperidade econômica e, embora agora haja uma recessão, ainda se lhe reconhecem méritos pelo crescimento. A pandemia foi um desastre para ele, nenhum presidente a podia deter, mas ele a piorou, mesmo depois de ter se infectado continua sem dar o exemplo sobre as máscaras e outras políticas”, aponta Larry Sabato.

Republicanos Contra Trump, uma plataforma que faz campanha contra o presidente, recebeu muitos depoimentos de eleitores arrependidos. Bill O’Boyle, um veterano repórter e colunista do Times Leader, o jornal de Wilkes-Barre (Pensilvânia), um dos lugares cruciais em 2016, acredita que são a minoria. Não acredita que se deva olhar, diz ele, para o desgaste de Trump, mas para o impulso democrata, para tentar adivinhar o que pode acontecer em 3 de novembro. “Ele continua sendo muito popular aqui, seus seguidores não desapareceram, a diferença pode ser feita pelos democratas que forem votar. Donald Trump poderia obter em Wisconsin, Michigan e Pensilvânia cada um dos votos que obteve em 2016 e, mesmo assim, perder a eleição”, afirma.

Wilkes-Barre, de 40.000 habitantes, é a principal cidade do condado de Luzerne, que não elegia um presidente republicano desde 1988; votou em Barack Obama em 2008 e 2012, mas há quatro anos deu uma guinada. A paisagem verde e montanhosa, a pequena universidade e as casas bem cuidadas retratam-na como um ponto idílico da Pensilvânia, embora os galpões fechados e os estabelecimentos vazios sejam indicadores dos estragos econômicos das últimas décadas. The Forgotten (Os Esquecidos), livro de Ben Bradlee Jr. escrito logo após as eleições, descreve a crise sofrida quando as minas de carvão começaram a fechar e as fábricas onde trabalhavam os familiares daqueles mineiros seguiram o mesmo caminho. A fábrica de lápis Eberhard Faber mudou-se para o México em meados da década de oitenta. A renda familiar do condado estagnou desde 2000 e, em paralelo, a população hispânica se multiplicou por 10.

Que Trump, magnata do mercado imobiliário de Nova York, filho de um milionário, famoso por sua ostentação, fosse o homem que se conectou com esses anseios é um daqueles fenômenos políticos de 2016. Joe Biden tenta mudar a narrativa. O candidato democrata, que nasceu em uma cidade da Pensilvânia chamada Scranton, outrora também reduto industrial, agita a ideia de que estas são as eleições de “Scranton contra Park Avenue”. “Bem, ninguém aqui sabia que Biden era de Scranton até que ele foi candidato pela primeira vez em 2008”, queixa-se O’Boyle.

Este ano a Pensilvânia é um dos Estados em que nestes dias é possível ver longas filas de cidadãos esperando para votar de forma antecipada. A enfermeira Bonnie Fasulka, de Wilkes-Barre, o fez na manhã de quarta-feira, e o fez em Joe Biden. Há quatro anos ela se pergunta o que aconteceu em 2016. “Ainda estou surpresa, conheço muita gente que votou nele, e não sei, disseram que era porque Trump não é um político, porque ele é pró-vida... Agora, na verdade, quase não falamos mais de política”, explica a mulher, de 61 anos. Trabalha em um laboratório, justamente com testes para covid-19 e percebe a particular lacuna política na conscientização sobre a doença. “Não é que acreditem que seja uma invenção, mas simplesmente não veem isso como algo tão grave”, aponta.

O candidato Biden e sua esposa, Jill, voltaram a fazer campanha no condado de Luzerne neste sábado. Tinham planejado fazê-lo acompanhados por Jon Bon Jovi. Alguns dias atrás, também contaram com Magic Johnson em Michigan. Como aconteceu em 2016, os nomes conhecidos apoiam a candidatura democrata, mas em 3 de novembro seu voto vale tanto quanto a da cabeleireira de Kenosha, do colunista de Wilkes-Barre ou do morador de Macomb.

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