Oito histórias alucinantes de estrelas do pop e do rock

É verdade que Alice Cooper despedaçou uma galinha no meio de um show? E quem mordeu um morcego no palco? Qual banda mandou construir o camarim do vício? Saiba aqui

“A forma mais rápida de esquecer que estava sendo analisado a todo instante por todo mundo era estar muito bêbado. É difícil imaginar o quanto a fama pode tomar conta de você e te deixar exposto”, confessou o ator Daniel Radcliffe, cujo personagem da saga Harry Potter o perseguirá a vida inteira.

A fama, seja de um músico, ator ou figura popular por diferentes motivos, nem sempre é fácil de administrar e leva o ser humano a realizar atos difíceis de classificar. Some-se a isso, no caso dos músicos, o fato de que a adrenalina de agir diante de milhares de pessoas ensandecidas ou a necessidade de interpretar um papel de roqueiro ingovernável levou muitos a protagonizar episódios bizarros.

A revista ICON reuniu oito dos momentos mais épicos estrelados por lendas do rock e do pop, como Morrissey, Ozzy Osbourne e Alice Cooper.

1) Quando Bono, do U2, dormia com seu pai moribundo depois dos shows

No verão de 2018, Bono Vox teve que interromper abruptamente um show do U2 aos 20 minutos porque perdeu totalmente a voz. Um duro momento para o vocalista irlandês, que em 2001 deu uma lição de dignidade ao não cancelar nenhuma das datas da turnê Elevation Tour embora seu pai estivesse morrendo. “Voltava dos shows e me sentava ao seu lado, ainda que não falássemos”, diz ele na biografia U2 by U2, em que recorda que cada noite deitava ao lado do pai numa cama desmontável. Uma cena íntima que contrasta com os habituais banhos de massas de um astro do rock.

O desfecho fatal ocorreu em 21 de agosto daquele ano, quando o U2 fazia o terceiro dos quatro shows consecutivos em Londres. Qualquer pessoa teria entendido o cancelamento, mas o cantor decidiu seguir adiante, reunindo forças não se sabe de onde. “As músicas mantiveram minha mente clara. Agarrei-me com força a elas. Três dias depois, nós mesmos o enterramos. Eu e meu irmão o colocamos num buraco e cobrimos de terra. Não deixamos que o pessoal da funerária fizesse isso.”

Apenas horas depois, em 25 de agosto de 2001, o U2 se apresentava no Slane Castle de Dublin diante de mais de 75.000 pessoas que carregaram Bono nos braços. O poder de cura da música compartilhada.

2) Quando Freddie Mercury tomou uma garrafa de vodca e outra de vinho do Porto antes de cantar

Apesar de seu espírito festivo e hedonista, Freddie Mercury não aparecia cantando exatamente em mau estado. Em 13 de abril de 1985, porém, ele perdeu o controle em Auckland (Nova Zelândia) ao subir ao palco com Tom Hadley, do Spandau Ballet, que o recorda assim na biografia do líder do Queen escrita por Lesley-Ann Jones: “Apareci no teste de som, e eu e Freddie voltamos juntos para o hotel e tomamos uma taça no bar. Depois veio uma garrafa de vodca. Em seguida, outra de vinho do Porto no quarto dele. Já de pileque, me disse que tinha que sair naquela noite para cantar Jailhouse Rock. Foi quando minha ficha caiu e disse a ele: ‘Não faço ideia da letra’. Ele respondeu: ‘Não importa, eu também não”.

O desastre esteve realmente perto, pois a embriaguez chegou a um ponto (quase) sem retorno, em que Freddie era incapaz de se vestir sozinho. Com a ajuda de vários assistentes, conseguiu subir a tempo no palco. O tecladista Spike Edney ― ainda com os Queen atuais ― relata assim a cena: “Ele improvisava, inventava coisas, cantava coisas absurdas e assim esteve na primeira hora do show. Chegamos à metade, ele se tranquilizou um pouco e tudo saiu surpreendentemente bem”. Por puro instinto, Mercury salvou uma situação que quase deu dramaticamente errado quando Hadley errou e começou a cantar Tutti Frutti em vez de Jailhouse Rock. “Brian [May] tinha uma expressão do tipo ‘que porra é essa?’ Mas os demais simplesmente morriam de rir”, recorda o cantor do Spandau Ballet. Mas podemos supor que ele tenha enfeitado a história e que, na verdade, nem todos riam ante a iminente hecatombe diante de 45.000 fãs.

3) Quando Alice Cooper despedaçou uma galinha, arrancou a cabeça e bebeu o sangue. Ou não?

A história mais famosa de Alice Cooper, a mesma que inaugurou sua fama de homem selvagem do rock (antes de Ozzy Osbourne), foi aquela que aconteceu no Toronto Peace Festival de 1969. O empresário da banda recusou o pagamento com a condição de que ela tocasse num lugar antes do grupo principal, pois havia 80.000 pessoas vendo o show. A banda The Doors tinha tocado antes de Alice Cooper. E os artistas que encerrariam o festival seriam nada menos que John Lennon e Yoko Ono, com a improvisada Plastic Ono Band (com Eric Clapton e Klaus Voormann).

Quando chegou a vez de Alice Cooper, Jim Morrison estava à direita do palco e John e Yoko, à esquerda, olhando o espetáculo. Cooper pensou que, com esses espectadores privilegiados, tinha que causar uma grande impressão. Naquela época a banda costumava finalizar os shows destruindo vários travesseiros de penas, que voavam até o público graças a tanques de oxigênio. Em meio à chuva de plumas, Alice olhou para baixo e, para sua surpresa, havia uma galinha no palco (quem é que leva uma galinha a um show?). Então segurou a ave e teve a ideia de que, como tinha asas, voaria sobre a plateia. “Sou de Detroit. Não sei nada de galinhas”, diria depois. Alice simplesmente a jogou para os espectadores, que começaram a destruir a pobre ave (algo irônico para um festival “da paz”) e depois jogaram os pedaços no palco. No dia seguinte, as manchetes dos jornais diziam: “Alice Cooper despedaça uma galinha, arranca a cabeça e bebe o sangue.” Imediatamente, ele recebeu um telefonema de Frank Zappa, que lhe disse: “Alice, você matou uma galinha no palco ontem à noite?” Cooper respondeu que não. E Zappa continuou: “Perfeito. Não conte para ninguém! As pessoas adoraram!” Como se não bastasse, os fãs que ocupavam as primeiras 10 filas do show eram pessoas em cadeiras de rodas: foram elas que mataram a galinha.

4) Quando Ozzy Osbourne mordeu um morcego num show

Após ser expulso do Black Sabbath por seus excessos, Ozzy Osbourne entrou na década de oitenta com a firme intenção de triunfar como solista. E assim compareceu a uma reunião da CBS para falar do primeiro disco solo, Blizzard of Ozz (1980). Ante o tédio demonstrado pelos executivos, decidiu dar um golpe de efeito selvagem mordendo um pombo, arrancando sua cabeça e jogando-a sobre a mesa para espanto geral. Foi expulso rapidamente do edifício, mas a manobra deu certo: o roqueiro acabaria vendendo um milhão de cópias do álbum de estreia.

Fez isso de propósito, embora convenientemente sob o efeito do álcool, segundo ele mesmo relata em suas memórias. O que não fez de forma premeditada foi morder a cabeça de um morcego durante um show em Des Moines em 1982, como ele mesmo recorda: “Do público saiu um morcego e pensei: um brinquedo’. De modo que o levantei ante os holofotes e mostrei os dentes. O público enlouqueceu e fiz o que sempre fazia com os brinquedos de borracha em cima do palco. Mordi. Logo senti que algo tinha dado muito errado. Minha boca se encheu de um líquido pegajoso e quente, com o pior gosto que você possa imaginar. Notei que manchava meus dentes e escorria pelo queixo. E depois a cabeça se mexeu dentro da minha boca.” Após ser levado em cadeira de rodas para o setor de emergência do hospital mais próximo, Ozzy teve que se acostumar com a dor das injeções de vacina antirrábica até o final daquela turnê.

5) Quando o Aerosmith mandou construir o camarim do vício

Nos anos setenta, os integrantes do Aerosmith abusavam tanto das drogas que a dupla formada pelo vocalista Steven Tyler e o guitarrista Joe Perry ficou conhecida como The Toxic Twins (Os Gêmeos Tóxicos). Dependência pura, que levou a uma ideia que era genial na cabeça do cantor, mas que não fez outra coisa a não ser demonstrar que avançavam sem freio ladeira abaixo. “Eu mantinha no palco minha caixa de primeiros socorros, dentro de um tambor vazio de 14 polegadas, em cujo fundo havia uma garrafa de Jack Daniel’s e dois copinhos de papel: um cheio de coca com um canudo, o outro com Coca-Cola e Jack Daniel’s”, confessa Tyler em suas memórias. No livro ele também descreve seu modus operandi: “Eu ficava atrás dos amplificadores, cobria a cabeça com uma toalha e metia o canudo no nariz. O canudo saía do copo, como se fosse para beber.”

A prática era tão normal e descarada que Steven decidiu mandar construir um camarim no palco, onde ele poderia cheirar com mais intimidade enquanto a banda continuava tocando. “A ideia era uma guarita pequena e portátil, poderia ser instalada na parte de trás do palco. Assim, em 1976 encomendamos um pequeno camarim a uma empresa que projetava e montava iluminação para teatros e cenários. Fornecemos os planos e as medidas: 36 polegadas (94 centímetros) de profundidade, 36 de largura e dois metros de altura. Mas, quando chegou, media 11 por 11 metros. Era um negócio tão monstruoso que tiveram que transportá-lo num enorme caminhão. Foi como o figurino de Stonehenge no palco de Spinal Tap, mas ao contrário [o cenógrafo havia feito as pedras em escala reduzida]. Então devolvemos. Escrevemos nele: ‘Vendam para os Stones’. Acho que fizeram isso”.

6) Quando Bruno Mars dormia num telhado porque não tinha outra coisa

Bruno Mars é um dos reis do pop do século XXI. Lidera as listas de vendas e lota grandes estádios pelo mundo, desfrutando do status que ganhou sem a ajuda de ninguém durante toda sua vida. Literalmente. Porque com apenas quatro anos ele começou a carreira profissional imitando Elvis Presley. E apareceu com seis anos em Lua de Mel a Três (1990), filme de Andrew Bergman protagonizado por Nicolas Cage, James Caan e Sarah Jessica Parker. Atuava com sua família e ganhava dinheiro entretendo turistas nos hotéis de seu Havaí natal, imitando também seu idolatrado Michael Jackson.

“Era uma escola de rock para mim”, declarou numa entrevista no programa 60 Minutes da CBS, por ocasião do lançamento de seu último álbum. Na conversa ele também recordou as dificuldades após o divórcio dos pais quando tinha 12 anos. Ele e o irmão ficaram com o pai e passaram dificuldade, vivendo no telhado de um edifício e num furgão. Até que o pai encontrou trabalho no zoológico de aves Paradise Park, e eles se mudaram para lá. “Não tínhamos banheiro no início, então precisávamos atravessar o parque para procurar um no meio da noite”, contou Mars no programa, com mais nostalgia do que se poderia esperar.

Para ver Bruno Mars com seis anos imitando Elvis em Lua de Mel a Três, clique aqui.

7) Quando Morrissey e Johnny Marr se reuniram num pub, 21 anos depois, para ver se ressuscitavam os Smiths

Em 2008, 21 anos depois da separação, a hipotética reunião da banda The Smiths esteve mais perto do que nunca. A reedição de seu catálogo permitiu que seus líderes, Morrissey e Johnny Marr, retomassem levemente o contato, chegando a passar juntos uma tarde num pub no sul de Manchester. “Fazia uns 10 anos desde a última vez. Botamos o papo em dia e nos deixamos levar pelas lembranças. O dono do pub não acreditava no momento que presenciava, e continuamos bebendo enquanto conversávamos durante horas, até que a coisa desembocou na questão”, relata o guitarrista Johnny Marr em sua autobiografia, Set The Boy Free.

A questão, claro, era a reunião dos Smiths ― e ali estavam seus dois integrantes mais carismáticos discutindo essa possibilidade. “A verdade é que pareceu que, tendo boa vontade, poderíamos chegar a fazê-lo. Depois de mais cervejas, nos abraçamos e nos despedimos”, conta Marr, admitindo que o assunto estava encaminhado... mas não avançou. “Mantivemos contato nos dias seguintes e planejamos nos encontrar de novo. Eu realmente gostava de voltar a falar com Morrissey. Pensava que, se a intenção de reunir era clara, poderíamos fazer um monte de gente feliz. E talvez, ao contar com mais experiência, fôssemos inclusive melhores. Eu e Morrissey prosseguimos nesse diálogo. Mas alguns dias depois fui com os Cribs ― minha banda na época ― ao México e, de repente, toda a comunicação foi interrompida. Não voltamos a nos falar, as coisas voltaram à estaca zero, e espero que esse seja seu lugar para sempre”.

8) Quando Chrissie Hynde, dos Pretenders, esteve a ponto de se casar com dois integrantes dos Sex Pistols

Na Londres do final de 1976, Chrissie Hynde era uma norte-americana sem visto de residência e aspirante a nem ela mesma sabia bem o quê. Sua última pretensão era formar uma banda, mas, depois de várias mudanças inesperadas de ideias, não havia nenhuma certeza de que isso aconteceria. Tão perdida e desesperada ela se sentia por viver ilegalmente no país que esteve ponto de se casar não com um, mas com dois membros dos Sex Pistols. “Johnny Rotten se ofereceu para me acompanhar ao cartório, pois assim eu poderia ficar no país. Mas, justo quando se aproximava a data combinada, o grupo apareceu no programa de TV Today, apresentado por Bill Grundy, e passou a estampar a capa dos tabloides depois de chamar [o apresentador] de filho da puta e outras lindezas. Rotten ficou famoso de repente e, quando lhe perguntei se nosso acordo continuava de pé, começou a choramingar”, recorda Hynde em suas memórias, Reckless: My Life as A Pretender.

Foi então Sid Vicious quem se ofereceu para se casar com ela, desde que tivesse algo em troca. Hynde lhe ofereceu duas libras ― e ele concluiu que era um trato justo. Após passar pela casa da mãe de Sid para buscar sua certidão de nascimento (pois ainda era menor de idade), o casal compareceu logo cedo na manhã seguinte em frente ao cartório, mas estava fechado porque era feriado. E a coisa não foi para frente, pois um dia depois o baixista era acusado de ter “tirado um olho de vai saber quem com um vidro”, escreve Hynde. “Desde então, muitos me perguntaram sobre meu casamento com Vicious: jamais aconteceu”, sentencia Hynde, que pouco depois cumpriria seu sonho fundando a banda The Pretenders e se casaria (de verdade) com Jim Kerr, do Simple Minds, após um tempo saindo com Ray Davies, do The Kinks. Um caso digno de novela.