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Britney Spears acaricia a liberdade 13 anos depois

Audiência para revisar custódia da cantora acontece nesta semana, coincidindo com lançamento de documentário que questiona se seu pai deve seguir como tutor legal, após mais de 10 anos de controle

A cantora Britney Spears em uma cerimônia de premiação em abril de 2018 na Califórnia.
A cantora Britney Spears em uma cerimônia de premiação em abril de 2018 na Califórnia.Chris Pizzello / GTRES

Ela podia ter tido tudo. A fama, o dinheiro, a família perfeita pela qual tanto ansiou, a felicidade. Mas Britney Spears deu de cara com a realidade há mais de uma década, quando perdeu as rédeas de sua vida. Aquela que foi a princesa do pop mundial na virada do século tornou-se agora muito mais do que um brinquedo quebrado do show business.

A vida de Spears ficou muito agitada em meados da década de 2000: em 2004, quando se casou com Kevin Federline; em 2007, quando se divorciou dele; em outubro daquele mesmo ano, quando perdeu a custódia dos dois filhos em comum e, muito especialmente, em 2008. Nesse ano, chegou uma decisão que na época, em meio ao cipoal de tropeços, decisões ruins e problemas da cantora, foi considerada quase menor, mas agora, 13 anos depois, a mantém na berlinda. Foi nesse ano que seu pai, Jamie Spears, uma pessoa alheia à sua pessoa e ao seu dia a dia, obteve temporariamente sua custódia, sua tutoria legal, por “questões de saúde mental”. Em outubro de 2008, essa custódia se tornou permanente e condenou Spears, tanto no âmbito pessoal como em questões financeiras, a uma vida atada às decisões paternas. Nos últimos anos, a intérprete de Baby One More Time permaneceu em silêncio. Até agora. Em novembro passado, ela bateu o pé pela primeira vez e disse que se o pai dela continuar controlando sua carreira, sua vida e seus rendimentos (mais de 1,3 bilhão de reais, dos quais ela recebe uma mesada semanal de 9.000 reais), não voltará a atuar.

Dois fatos trazem Spears para o noticiário nos últimos dias. O primeiro é que a próxima audiência sobre o caso, que pode mudar o rumo de sua vida, está marcada para esta quinta-feira, 11 de fevereiro. A segunda é que o jornal The New York Times repercutiu esta confusa história com um documentário próprio (exibido nos EUA pelo canal FX e agora em streaming no Hulu) de 75 minutos de duração. Além de fãs da cantora e inclusive de manifestantes com cartazes de Free Britney (“Libertem Britney”), aparecem no filme alguns personagens-chaves para entender a vida e a carreira da artista.

Jamie, Bryan, Jamie Lynn, Britney e Lynne Spears, na Louisiana.
Jamie, Bryan, Jamie Lynn, Britney e Lynne Spears, na Louisiana.KMazur / WireImage

Framing Britney Spears (“enquadrando Britney Spears”) traz o depoimento de pessoas que, na sua maioria, conheceram a artista e põem em dúvida o sentido do controle legal do pai sobre a filha. Entre eles há admiradores, jornalistas, fotógrafos de celebridades, diretores de canais musicais... Destacam-se Felicia Culotta, amiga e ex-assistente de Spears, uma figura quase materna para ela (“Não entendo para que serve uma custódia, especialmente para alguém tão capaz de tanta coisa como sei que ela é”, diz); Hayley Hill, seu ex-estilista entre 1997 e 2001 (“Ela era aberta e vulnerável, ele a tratou de um modo asqueroso”); a agente de talentos infantis Nancy Carson (“Era doce, divertida e maravilhosa, eu gostava muito dela e continuo gostando”); Kim Kaiman, diretora de marketing da Jive Records, que a teve sob contrato no começo da carreira (“Fiquei impressionada de ver como era centrada e séria”); Kevin Tancharoen, bailarino e diretor de turnê entre 1999 e 2004 (“Era a chefa, muito criativa, sabia o que queria e como transmitir”); a advogada Vivian Lee Thoreen, cujo cliente foi o pai de Britney; e o advogado Adam Streisand, especializado em custódias, que tentou defender Britney, mas foi barrado pelo tribunal, que atribuiu outro advogado à cantora.

Há frases reveladoras de muitos deles que definem a relação entre pai e filha. Liz Day, a jornalista do The New York Times que fez a investigação, afirma que Jamie Spears tem controle sobre tudo que lhe diz respeito, “pode decidir quem pode visitá-la, pôr guarda-costas 24 horas por dia atrás dela, assinar contratos e acordos, tomar decisões sobre sua casa e seus cartões de crédito”. Streisand, que não chegou a ser advogado da estrela, recorda que Spears “aceitou que a custódia legal ocorreria, mas não quis que seu pai fosse o tutor ―foi seu único pedido”.

A menina de Kentwood, Louisiana, levada pelos pais ―Lynn e Jamie, provenientes de um ambiente humilde― a Nova York com grandes esforços econômicos para que virasse o que virou, viveu sua carreira ao lado da mãe, da irmã e da sua amiga (quase irmã mais velha) Felicia Culotta. Como recorda a diretora de marketing Kim Kaiman, Jamie não tinha nada a ver com aquilo: “Lynn era quem apoiava Britney. Jamais falei com o pai dela. O único que Jamie me disse uma vez foi: ‘Minha filha vai ser tão rica que vai me comprar um barco’”.

A advogada Thorean, cujo cliente foi o pai da cantora, defende que “o tribunal leva muito a sério a questão das custódias” e as pessoas que passam por ele. A decisão de pôr uma pessoa tão jovem e ativa sob um tutor teria sido tomada porque os pais da cantora temiam que ela fosse “influenciável ou objeto de fraude”, sobretudo por seu agente naquela época, Sam Lutfi, de quem finalmente conseguiram uma ordem de afastamento.

Fãs de Britney Spears se manifestaram em 19 de agosto em Los Angeles, fora do tribunal, onde o futuro da cantora foi decidido.
Fãs de Britney Spears se manifestaram em 19 de agosto em Los Angeles, fora do tribunal, onde o futuro da cantora foi decidido. Getty Images

Em 2008, em pleno auge de sua popularidade, sendo alvo constante dos tabloides, dos barracos televisivos e dos ataques conservadores (a esposa de um governador chegou a dizer: “Eu atiraria nela”), o controle legal e financeiro poderia fazer sentido. A questão é se, 13 anos depois, com Spears mantendo uma vida profissional mais sossegada, com um parceiro estável e uma boa relação com seus filhos, esse férreo controle legal, social, pessoal e sobretudo financeiro (que, para alguns, deveria ser uma questão à parte) precisa ser mantido, e, em caso positivo, se cabe ao seu pai.

Alguns fãs especulam que Spears foi castigada por ser mulher, pois alegam que isso dificilmente aconteceria com um artista homem. Outros afirmam que sua saúde mental nunca foi levada em conta, que é tudo uma grande mentira envolvida na obsessão paterna pelo dinheiro da estrela. Nem o ex-agente Lutfi nem os parentes de Spears participaram do documentário. Os produtores também enviaram uma série de perguntas a ela, mas não se sabe se chegou a recebê-las.

O advogado Streisand acredita que o ponto de não retorno ocorreu quando, finalmente, em meados de 2020, Spears apresentou uma petição judicial ao Tribunal de Los Angeles dizendo que não desejava mais a permanência do pai como seu tutor. Que “tinha medo” dele, segundo seu advogado. E que agradecia imensamente o apoio de seus seguidores, do qual estava a par. Agora já sabe que seu grito de socorro foi escutado.

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