A Tóquio “extrema”, ou onde os organismos colapsam

A sede dos Jogos, onde duplicaram as ondas de calor desde os anos sessenta e a temperatura média subiu quase três graus a partir do século XX, leva os atletas ao limite e coloca sua saúde em risco

Svetlana Gomboeva é atendida durante a prova de tiro depois de desmaiar devido à insolação.
Svetlana Gomboeva é atendida durante a prova de tiro depois de desmaiar devido à insolação.Miguel Gutiérrez (EFE)

“Eu sou daqui e ainda não consegui me adaptar a isto. O verão em Tóquio é extremo”. Quem fala é Miko, uma repórter japonesa que pergunta aos enviados especiais sobre o calor, o tempo, a asfixiante realidade destes dias em que os corpos dos atletas chegam ao limite e colapsam, principalmente os que competem em espaços ao ar livre. Tóquio, concordam todos eles, é uma caldeira. Um forno insuportável. Não foram um, nem dois nem três, mas um bom punhado aqueles que sofreram o demolidor golpe da temperatura e da umidade, uma bomba para o organismo e o físico, por mais que se fale em termos de elite e se tenha previsto que estes seriam Jogos duros. As expectativas foram superadas.

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“Cinco segundos depois de começar a treinar a tiros de saída, as gemas dos meus dedos queimavam, mas isso não é desculpa”, disse Óscar Husillos depois da prova de 400 metros. “Eu tinha descansado, a aclimatação era perfeita. Por mais que eu venha um clima seco e a umidade aqui seja alta, não consigo encontrar uma explicação para a onda de calor que sofri no final e para os vômitos que tive. Não estou entendendo nada”, acrescentou o atleta, consumido pelo clima e pela desidratação. A cena se repete: náuseas, desmaios, esgotamentos que correspondem a esse imenso problema que se discute, se debate e se alardeia, mas que não se aplaca. Tóquio é uma sauna, sempre foi, mas a Terra grita. O aquecimento global está disparando e o esporte também sofre com isso.

Os especialistas advertem. “Este tipo de temperatura extrema será cada vez mais frequente, a menos que os Governos façam uma aposta firme pelo fim dos combustíveis fósseis”, diz Mikyoung Kim, responsável pela campanha de Emergência Climática do Greenpeace no Leste Asiático. Essa organização elaborou um relatório no qual explica por que os atletas caem como moscas em Tóquio―aplicável também à China e à Coreia do Sul, as outras regiões analisadas― e por que estes Jogos são os mais hostis da história do ponto de vista climatológico; houve Jogos mais quentes, como os de Atenas 2004, mas não tão desproporcionais em termos de umidade, em torno de 80% dia após dia na capital japonesa.

Logo de entrada, o estudo do Greenpeace indica que no período compreendido entre 2001 e 2020, o primeiro dia quente em Tóquio (de 30ºC para cima) aconteceu em média 11 dias antes do que nas duas décadas anteriores; no norte do país, em Sapporo, sede das provas de maratona, marcha atlética e de alguns jogos de futebol porque o termômetro é um pouco mais benevolente, o número sobe para 23. A análise também indica que as ondas de calor na capital são cada vez mais habituais e agressivas, e que o número de dias em que os 33ºC são ultrapassados dobrou desde os anos sessenta.

Paula Badosa sai da quadra de Tóquio em uma cadeira de rodas.
Paula Badosa sai da quadra de Tóquio em uma cadeira de rodas.LUCY NICHOLSON (Reuters)

“Nunca tinha jogado em condições tão extremas”, comentou a tenista Paula Badosa quatro dias antes de seu corpo entrar em colapso e ela ter de abandonar a competição nas quartas-de-final. No complexo de tênis, o Ariake Park, as indisposições entre jogadores, catadores de bolas e voluntários se repetiram, e a organização finalmente cedeu―em consenso com a Federação Internacional (ITF)― diante da pressão dos tenistas, lhes pediam que ao menos um atraso no início da jornada. Nos últimos três dias, o início foi adiado das 11h para as 15h. Também foi aplicada a regra do calor extremo, pela qual a duração das transições entre pontos, jogos e sets é aumentada.

“No caso do tênis, as condições foram extremas”, diz Ángel Ruiz-Cotorro, médico da Federação Espanhola de Tênis (RFET) que cuida dos jogadores por todo o mundo; “no dia em que aconteceu aquilo com a Paula, comentei: hoje vamos ter problemas, vamos sofrer. Na noite anterior um tufão havia chegado e a umidade aumentou muito; a sensação térmica era de 40ºC. E tudo se juntou. Pablo [Carreño] jogou mais cedo e, embora tenha sofrido, não acabou tão mal. Diante de tal circunstância, o organismo tenta se adaptar, baixar a temperatura e compensar; se defende tanto quanto pode, mas às vezes é impossível. Existem graus. O atleta perde muitos eletrólitos e no final acontece o choque”.

O médico explica que a situação é evitável e controlável apenas até certo ponto, porque o ritmo de absorção de líquidos é fixo, a prevenção tem seus limites e nesses níveis, ademais, não há freio algum. “O atleta de elite não mede. Quando você compete, compete. O nível de intensidade é máximo e às vezes eles têm poucas reservas”, acrescenta Ruiz-Cotorro; “então, o que está acontecendo hoje em dia é lógico. Também foi difícil no Rio, onde o índice de umidade também era alto, mas em Tóquio é ainda mais extremo”.

Kristian Blummenfelt sofre um desmaio depois de cruzar a linha de chegada.
Kristian Blummenfelt sofre um desmaio depois de cruzar a linha de chegada. David Goldman (AP)

Ao impacto da imagem de Badosa saindo da quadra em uma cadeira de rodas juntaram-se as de outros atletas que desabaram. Enquanto competia no tiro com arco, a atiradora Svetlana Gomboeva despencou sobre a grama e teve de ser atendida com urgência. Ou o norueguês Kristian Blummenfelt, que depois de cruzar a linha de chegada como campeão desmaiou e comemorou a duras penas, indisposto e entre vômitos. Os canoeiros espanhóis recorreram a toalhas geladas e coletes de gelo para resistir ao sol e ao superaquecimento das águas, transformadas em termas de onde exala vapor que, consequentemente, multiplica a umidade.

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A temperatura média anual de Tóquio aumentou 2,86ºC desde 1900, mais que o triplo da média mundial. E bate forte o efeito da ilha de calor urbano, conceito explicado pela espanhola Paloma Trascasa (do Centro Internacional Priestley para o Clima da Universidade de Leeds) no relatório intitulado Anéis de Fogo, publicado pela British Association for Sustainability in Sport. (Associação Britânica para o Esporte Sustentável) Ou seja, à noite, a superfície urbanizada da capital japonesa libera o calor que acumulou ao longo do dia e impede que a cidade se refresque; desta forma, o ambiente reaquece e Tóquio se torna uma sauna, aumentando o “estresse térmico”.

O suor aparece depois de cinco ou seis passos, e as noites tropicais (não menos que 20ºC) também dobraram a partir do século XX. Não é a primeira vez que os Jogos Olímpicos de verão acontecem em um contexto climático difícil; aí estão Los Angeles (1984), Atlanta (1996), Sidney (2000) ou Pequim (2008). No entanto, nenhum foi tão adverso quanto os de Tóquio devido à particularidade da umidade desproporcional e à alarmante deriva ambiental. Em 1964, os Jogos que a cidade asiática sediou foram disputados em outubro para evitar colocar em risco a saúde dos atletas. Desta vez, porém, o evento foi realizado a todo custo. E isso se paga.

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