JOGOS OLÍMPICOS

Tóquio 2020, os Jogos Olímpicos do silêncio

A capital do Japão apresenta um cenário paradoxal, no qual a grande festa do esporte transcorrerá pela primeira vez sem público, com o subsequente impacto na motivação dos atletas

Panorâmica externa do Estádio Nacional de Tóquio.
Panorâmica externa do Estádio Nacional de Tóquio.CHARLY TRIBALLEAU / AFP

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O silêncio abraça o visitante a partir do momento em que pisa no aeroporto de Haneda. “São os Jogos Fujitsu”, brinca-se dentro de um grupo de expedicionários que acaba de aterrissar em Tóquio fazendo menção à marca de ar-condicionados que se gaba de ser a mais quieta do mercado. Assim como o restante do comboio olímpico que foi desembarcando nos últimos dias na capital japonesa, eles devem seguir à risca o rigoroso protocolo sanitário. Não há exceção. São filtros e mais filtros, uma interminável teia burocrática que em um dos passos acaba interceptando uma integrante da equipe britânica, de mãos na cintura, resignada e com cara de boa moça diante dos oficiais: um errinho no formulário, portanto stop. Para tudo. Mais algumas horas de fila.

E assim ergue-se a cortina para estes Jogos Olímpicos tão assépticos e tão anômalos, tão extremamente paradoxais. A maior festividade esportiva, a grande festa popular dos atletas e o ponto de encontro para os torcedores de todo o mundo, transcorrerá em meio ao vazio, à profundidade e à ausência. É a Tóquio dos contrastes, das luzes cintilantes que delimitam a baía e o fade causado pelas restrições. Pela primeira vez na história, não haverá público nas arquibancadas nem agitação na Vila Olímpica, onde desta vez imperam o mutismo, a vida monástica e o recolhimento. Lá, os esportistas olham pelas janelas e refletem. Lost in translation, versão 2021.

“Tudo é diferente, muito mais frio. Muda completamente”, retrata a tenista Carla Suárez, representante de um esporte no qual o silêncio acentua a sensação de solidão como poucos. “Dá para ouvir tudo, é como se fosse um treino. Será uma Olimpíada estranha, porque o atleta se nutre do apoio do torcedor e das emoções geradas nos estádios”, acrescenta a espanhola, enquanto o mundo se prepara para um espetáculo completamente novo, sem os aplausos nem o delírio do público ao vivo; com os atletas desfilando exclusivamente para as câmeras e comemorando para arquibancadas vazias; ares surrealistas, porque eles mesmos terão que colocar as medalhas no peito.

“Para mim, esse impulso psicológico que o torcedor te dá é a melhor coisa. O que eu gosto é de correr com gente dos dois lados da rua, que incentivem, porque sempre tem momentos em que você se abate um pouco, e esse fôlego é o que faz você ficar alerta e dizer: ‘Ei! Tem que continuar’. O público ajuda você a manter a concentração”, conta o maratonista Martín Fiz, também espanhol, que participou de três Olimpíadas e trocaria o diploma olímpico que obteve em Atlanta 1996 e Sydney 2000 por uma última tentativa de medalha em Tóquio. “Sem hesitar. Uma Olimpíada sem público não é a mesma coisa, mas acho que sempre oferecem um estímulo sem comparação para o atleta”, observa o ex-campeão mundial e europeu.

Os especialistas agora debatem sobre como os protagonistas vão reagir a essa anomalia. “Acho que os que tiverem mais calma se sairão melhor, enquanto aqueles que forem muito intensos podem pagar por isso. Serão os Jogos da paciência, de quem se adapta melhor às circunstâncias. Quem não souber administrar bem as restrições pode vir abaixo”, prossegue Fiz, cuja explicação encontra o contraponto de Ruth Beitia, ouro no salto no Rio 2016: “No fundo, o atleta já tem interiorizadas uma série de rotinas diárias muito marcadas, e não costuma sair muito disso. Acho que há muito mito em torno da Vila Olímpica, e na verdade todo mundo está acostumado a ficar muito focado no que precisa fazer”.

Bolt comemora com o público o triunfo no revezamento 4x100 no Rio 2016.
Bolt comemora com o público o triunfo no revezamento 4x100 no Rio 2016. Shaun Botterill / Getty Images

Em todo caso, ambos concordam que vários recordes podem cair nas próximas duas semanas. “Serão Jogos de qualidade, de marcas”, antecipa o basco, de 58 anos. “Estamos em uma época atípica, mas grandes marcas estão sendo batidas. Tenho a sensação de que a pandemia deixou os atletas com ainda mais vontade de competir. Trabalharam muito para chegar até aqui e nada vai atrapalhar”, continua a cântabra, de 42.

O controle do componente emocional será fundamental em meio a um cenário muito diferente. É o que alerta Carlos Rey, psicólogo do esporte no instituto UPAD, de Madri. “O fato de não haver público e de ser retirado esse ingrediente festivo, esse intercâmbio multicultural tão típico dos Jogos, vai produzir um impacto na motivação. Em nível de psicologia grupal, há um processo de facilitação social que se refere a se sentir observado ou rodeado de outras pessoas; não é a mesma coisa rir sozinho na sua casa com um meme ou fazê-lo junto com seus amigos”, compara. “E também existem outros processos como os da folga social, que afeta esportes do tipo coletivo, embora não estejam tão ligados como o primeiro à presença dos espectadores”.

Apontado o matiz negativo, Rey introduz em seguida a variável positiva: “A ausência de público pode favorecer a concentração e a atenção dos atletas, porque esse fator externo, que é o torcedor, às vezes joga a favor, mas outras, contra. Neste sentido, pode ajudar a controlar a rotação e o ajuste emocional. Na Liga de futebol, por exemplo, o fato de jogar em casa perdeu sua relevância habitual”. E Beitia acrescenta: “Contrariando o que se poderia pensar, acho que essa reafirmação que os atletas costumam fazer, os tapinhas e esses estímulos que nos damos logo antes da execução, será ainda mais efetiva. Muitos deles agradecem que não haja sons para desconcentrá-los; não há nada mais bonito que esse instante em que você está prestes a correr e todo mundo se cala, quando você consegue mastigar o silêncio”.

Beitia, depois de obter o ouro no Rio.
Beitia, depois de obter o ouro no Rio. IVAN ALVARADO / REUTERS

O psicólogo Rey adere à teoria de que nesta edição o rendimento pode melhorar expressivamente, “porque o atleta de elite está bastante acostumado a viver nesse tipo de rotinas muito sacrificadas, e ainda mais nestes últimos tempos. Naturalmente vivem numa espécie de gueto, os centros de alto rendimento, então estão acostumados a se dedicarem de corpo e alma à sua atividade. A concentração pode ser uma cartada importante nestes Jogos Olímpicos. Por haver menos fatores ambientais que possam representar uma fonte de distração, o rendimento também pode disparar”, conclui.

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Paralelamente, Fiz ainda fantasia e diz que se divertiu “feito criança” com a sua experiência de 1992, quando comia no refeitório da Vila Olímpica de Barcelona ao lado de ídolos como o jogador de basquete Larry Bird e o saltador Serguei Bubka, e embora admita que o desfile inaugural não será tão especial como nas outras vezes, prevê uma atrativa cerimônia de abertura em chave televisiva: “Neste sentido, já sabemos que os asiáticos costumam ir um pouco à frente, então são capazes de nos surpreender”.

E, apesar de todo o ceticismo que cercava o preâmbulo, Suárez deixa claro: “As condições são as que são, de modo que é preciso ser positivos e gratos por podermos competir aqui. Olimpíada é Olimpíada. Vamos ter que pendurar nós mesmas as medalhas? Acho exagerado, mas tomara que sim: se precisar a gente faz, né?”.

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