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A escritora que vê no capitalismo o pior inimigo do orgasmo feminino

Kristen Ghodsee argumenta em um livro que o antigo bloco soviético propunha políticas mais favoráveis às mulheres que o livre mercado. Também acredita que lhes garantiu uma vida sexual melhor

A etnógrafa e escritora norte-americana Kristen Ghodsee, professora de estudos russos e da Europa Oriental na Universidade da Pensilvânia, fotografada numa livraria de Barcelona.
A etnógrafa e escritora norte-americana Kristen Ghodsee, professora de estudos russos e da Europa Oriental na Universidade da Pensilvânia, fotografada numa livraria de Barcelona.Vicens Gimenez

Kristen Ghodsee escolheu um bom ano para a sua primeira viagem ao Leste Europeu. A futura antropóloga tinha 19 anos, ou seja, era ainda uma adolescente quando aterrissou em uma região que também vivia naquele verão a mais hormonal de todas as adolescências. “Lembro-me perfeitamente que cheguei de trem a Budapeste e tinha gente fazendo sexo ali mesmo, na estação”, conta agora esta professora universitária, que acabou se especializando em Rússia e o antigo bloco comunista da Europa Oriental.

Era o verão de 1990, o Muro de Berlim acabava de cair, e o sexo estava por toda parte. “Era um momento de euforia. Havia lingerie até nas bancas de jornal, porque antes não estava disponível, e revistas pornôs”, rememora a autora do livro Why women have better sex under socialism —publicado neste ano pela editora Autonomia Literária com o título Por que as mulheres tem melhor sexo sob o socialismo e outros argumentos a favor da independência econômica. Naquele mesmo ano, fez-se uma pesquisa que está parcialmente na origem do livro e que demonstrou que as cidadãs da República Democrática Alemã (a Alemanha Oriental, comunista) tinham o dobro de orgasmos que as alemãs ocidentais. Poucos anos depois da unificação, repetiu-se o estudo, e a satisfação sexual das alemãs havia se nivelado… por baixo. Todas já tinham sexo capitalista ruim.

Na verdade, o livro não fala tanto de sexo, e sim de desigualdade, feminismo e Estado do bem-estar. Com rigor, mas com um estilo pouco acadêmico, a antropóloga vai mesclando dados e referências históricas com histórias pitorescas, como a de sua amiga Lisa, uma mulher com estudos universitários, que deixou de trabalhar para cuidar das suas filhas e dependia economicamente do marido. Ele lhe dava dinheiro contado para os seus gastos. E numa ocasião, sem ter o suficiente para pagar um jantar entre amigas, Lisa disse à autora: “Esta noite transo com ele e amanhã te devolvo”.

Kristen Ghodsee, retratada durante a entrevista em Barcelona.
Kristen Ghodsee, retratada durante a entrevista em Barcelona. Vicens Gimenez (© Vicens Gimenez)

Ghodsee não mitifica a condição feminina no antigo bloco soviético, onde prevaleceu uma cultura machista, mas quer argumentar que “quando implantado da forma adequada, o socialismo fomenta a independência econômica e melhora as condições profissionais, a conciliação trabalhista e familiar, e sim, inclusive as relações sexuais”.

Em sua própria experiência, vivendo várias temporadas no Leste Europeu ―Ghodsee é casada com um búlgaro―, pôde comprovar como ainda são notados os resíduos de uma educação sexual muito mais aberta. “Os anticoncepcionais eram gratuitos. Muitas garotas na União Soviética iam abortar acompanhadas de suas avós. Na Polônia, foi a democracia que deslegalizou o aborto”. Com a unificação alemã, aconteceu que os homens heterossexuais ocidentais começaram a fetichizar as novas compatriotas orientais. Outra coisa que ocorreu é que as antigas cidadãs da RDA que migraram para a parte ocidental se escandalizaram com a falta de boas condições públicas para a criação dos filhos e começaram a exigi-las.

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