Caso Nissan-Renault

A rocambolesca fuga de Carlos Ghosn para Beirute

O ex-chefe da Nissan-Renault conseguiu escapar de Tóquio apesar das rígidas medidas de vigilância, graças a um passaporte falso

Carlos Ghosn, ex-presidente da Nissan-Renault, era até agora possivelmente uma das pessoas mais vigiadas do Japão. No entanto, em uma reviravolta rocambolesca, conseguiu escapar de Tóquio, onde aguardava ser julgado por acusações de fraude fiscal, e desembarcar em Beirute na noite de segunda-feira. Essa fuga, seguida como um thriller por meio mundo, coloca o sistema judicial e político japonês em um papel muito difícil. Do Líbano, o protagonista alegou ser “vítima de um sistema judicial forjado” no país asiático.

Não se sabe exatamente como Ghosn, em liberdade condicional sob rigorosas medidas de vigilância, com câmeras de vídeo 24 horas por dia e fortes restrições à liberdade de movimento, conseguiu burlar a supervisão policial. Mas diferentes mídias se lançaram a dar detalhes da fuga. A televisão libanesa MTV relatou que Ghosn escapou em uma grande caixa de um instrumento musical depois que uma banda natalina visitou sua residência em Tóquio, mas fontes próximas ao protagonista negaram essa versão. Segundo o Financial Times, ele teria contratado uma empresa de segurança para ajudá-lo a fugir até o Aeroporto Internacional de Osaka, onde embarcaria em um jato particular.

A mídia francesa aponta que foi sua mulher, Carole Ghosn, que organizou a fuga; e que o empresário caído em desgraça pôde sair do Japão com identidade e passaporte falsos. Fontes libanesas confirmaram que ele entrou no país com documentação francesa. Ghosn aterrissou em Beirute em um avião particular procedente da Turquia, de acordo com uma versão que mais tarde seria confirmada por Ricardo Karam, conhecido apresentador de televisão e amigo pessoal do protagonista. “Já está em casa”, explicou.

Ghosn, que sempre se declarou inocente e até mesmo divulgou um vídeo no qual afirmava que as acusações faziam parte de uma trama orquestrada por outros executivos da Nissan, permanecia em liberdade condicional, embora sujeito a uma intensa vigilância.

Em 25 de abril, um tribunal de Tóquio impôs condições como a entrega de seu passaporte, a proibição de deixar o país, a instalação de câmeras na entrada de sua residência e a entrega periódica das gravações às autoridades. Outra das restrições o impedia de manter contato com sua mulher, Carole, por causa do suposto envolvimento dela no caso. Seus movimentos em Tóquio estavam restringidos e ele só podia acessar a Internet nos escritórios de seus advogados.

O empresário foi detido pela primeira vez em 19 de novembro de 2018, acusado de fraude fiscal, e passou 108 dias em prisão provisória. Ele também é acusado de ter desviado recursos da empresa para fins pessoais e escondido parte de seu salário por anos para sonegar impostos. Dessa forma, o empresário brasileiro supostamente teria embolsado até 9,2 bilhões de ienes, mais de 310 milhões de reais.

Apesar das acusações contra ele, Ghosn continua sendo visto como um herói nacional no Líbano —ele nasceu no Brasil, mas tem ascendência libanesa. No país, muitos esperavam que ele voltasse para se envolver na política nacional.

Surpresa na França

O Governo da França afirma ter se informado da fuga de Carlos Ghosn pela imprensa, como todo o mundo. “As autoridades francesas não foram informadas de sua partida do Japão”, disse o Ministério das Relações Exteriores. A secretária de Estado da Economia, Agnès Pannier-Runacher, admitiu sua “grande surpresa” pela fuga do ex-todo-poderoso chefe da Renault.

A diplomacia francesa lembrou que, como cidadão do país —Ghosn tem passaporte francês, além do brasileiro e do libanês—, o empresário desfrutava de “proteção consular” durante sua detenção em Tóquio e o embaixador francês no Japão mantinha um “contato regular” tanto com ele como com seus advogados, “a pedido das mais altas autoridades francesas”.

Apesar da cautela oficial, o Governo da França deixou claro seu desconforto com um caso que o incomoda desde a prisão de Ghosn em Tóquio, outra surpresa para Paris. Ele é "um cidadão como qualquer outro" e "ninguém está acima da lei", disse Pannier-Runacher. O Japão não é o único país que busca julgar o executivo da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi. Em abril, a Justiça francesa abriu uma investigação por "abuso de bens sociais" e "corrupção" contra Ghosn em relação a dois contratos duvidosos de quase dois milhões de euros (9 milhões de reais) que o empresário firmou com a ex-ministra e hoje candidata conservadora à Prefeitura de Paris Rachida Dati.

Além disso, o Ministério Público em Nanterre, nos arredores de Paris, investiga o financiamento suspeito de duas festas realizadas por Ghosn no Palácio de Versalhes em 2014 e 2016, pelo seu aniversário e seu casamento, respectivamente. “Sua fuga não deve ter nenhuma consequência em nossa investigação”, disse a promotora de Nanterre, Catherine Denis.