‘Velhenials’: o grande negócio de aproveitar a velhice

Maior longevidade pode salvar as contas da UE. Consumo dos idosos representará 32% do PIB e 38% do emprego em 2025

O mundo penteia cabelos grisalhos, mostra rugas e faz anos. Muitos anos. O envelhecimento da população é uma das grandes mudanças sociais e econômicas que está acontecendo hoje em escala mundial. Nenhum país desenvolvido pode ignorar essa realidade imparável, que assusta e entusiasma em partes iguais. A expectativa de vida aumenta desde 1840 a um ritmo de dois anos e meio a cada década, seis horas por dia, de acordo com James Vaupel, professor do Centro Interdisciplinar de Populações da Universidade do Sul da Dinamarca, considerado um dos maiores especialistas em envelhecimento.

As previsões indicam sociedades cada vez mais longevas, com a permissão da mudança climática, das recessões econômicas e da ameaça de grandes guerras e novas doenças. O negócio que surge por causa dessa maior sobrevivência tem dimensões estratosféricas.

Aperte os cintos. Cerca de 16% da população terá mais de 65 anos em 2050 (é 9% em 2019), segundo a ONU. Em 2018, pela primeira vez na história, esse grupo superou o de menores de cinco anos e em 2050 ultrapassará os jovens de 15 anos. Há um século se dizia que era impossível superar os 65 anos de vida. Estavam errados. “Em 2050, haverá mais de 400 milhões de pessoas no mundo com 80 anos ou mais e 3,2 milhões de centenários”, lembra o Centro Internacional sobre o Envelhecimento (Cenie). E na Europa, um em cada três cidadãos terá mais de 65 anos em 2060, segundo a Comissão Europeia. Além disso, metade das meninas europeias que nasceram em 2018 viverá mais de 100 anos.

Essa maior longevidade apresenta enormes desafios para os sistemas de saúde pública e de previdência. Duas espadas de Dâmocles também para a Espanha, onde os maiores de 64 anos representam 19% da população, segundo o Eurostat. É o segundo país da OCDE com maior expectativa de vida ao nascer (83 anos). Somente o Japão supera a marca espanhola. Mas cuidado, porque na cidade galega de Ourense já existem taxas semelhantes às japonesas. O inverno demográfico espanhol explodirá a conta: os gastos públicos em pensões, saúde e assistência de longa duração equivalerão a 27,1% do PIB em 2050, três pontos a mais do que hoje, de acordo com as projeções do Ministério da Economia para o Plano de Estabilidade 2019-2021. Além disso, é um dos países mais expostos às pressões creditícias ligadas ao envelhecimento, segundo a Moody’s.

A bomba da longevidade dá vertigem, sim. Mas, de cinco anos para cá, não se fala apenas do colapso e do fim do estado de bem-estar, mas da silver economy, ou economia dos cabelos grisalhos. Alguns especialistas afirmam que os idosos não devem ser demonizados e dizem que fazer anos será o maior estímulo para o crescimento do PIB. “Vender o envelhecimento será o maior negócio do mundo. O futuro está nas pessoas com passado”, sentencia Juan Carlos Alcaide, especialista em silver economy e marketing que estuda o envelhecimento e seu efeito empresarial desde 2004.

Idosos consumiram bens e serviços no valor de 3,7 bilhões de euros (cerca de 16,9 bilhões de reais) na União Europeia em 2015. Hoje, se fosse uma nação, a silver economy seria a terceira maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China, segundo o relatório The Silver Economy (Comissão Europeia, Technopolis e Oxford Economics), que leva em consideração a população com mais de 50 anos. Seus gastos crescerão 5% ao ano, até os 5,7 bilhões em 2025. Nessa data representarão 32% do PIB da UE e 38% do emprego, com 88 milhões de novos postos de trabalho.

Da visão apocalíptica da longevidade ao otimismo demográfico: viver mais e melhor é uma oportunidade, pois exige a criação de novos negócios que atendam às necessidades dos idosos e suas famílias, bem como a criação de produtos e serviços adaptados. “Essa revolução coloca o foco nas oportunidades do nosso momento histórico”, diz Iñaki Ortega, diretor da Deusto Business School e autor, juntamente com Antonio Huertas, presidente da Mapfre, do livro La Revolución de las Cañas (A Revolução dos Cabelos Grisalhos). Graças aos avanços médicos e tecnológicos, surgiu uma nova fase da vida entre os 55 e os 70 anos batizada de geração silver. “Um extra de 15 anos que não esperávamos para viver com cabelos grisalhos, mas com qualidade”, acrescenta Ortega.

“A crescente longevidade, adequadamente gerenciada, é o baby boom que buscamos desesperadamente, se é que não é ainda melhor: é o greyny boom”, diz José. A. Herce, doutor em Economia e especialista em longevidade e pensões. É assim, diz, “que tiraremos proveito do maná da longevidade e não com subornos para que os casais tenham mais filhos”. E acrescenta: “É mais eficaz se livrar da tirânica barreira dos 65 anos, romper o teto de vidro dessa idade, do que promover a natalidade para que os jovens nos paguem as pensões”.