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Nova técnica confirma a existência de um bisneto vivo do líder indígena Touro Sentado

O novo método genético tornará possível conectar pessoas atuais com figuras históricas famosas e solucionar crimes

Ernie LaPointe, bisneto do Touro Sentado, posa com um bisão empalhado em um museu em Bremen, Alemanha, em 2016.
Ernie LaPointe, bisneto do Touro Sentado, posa com um bisão empalhado em um museu em Bremen, Alemanha, em 2016.Ingo Wagner (picture alliance via Getty Image)
Manuel Ansede

O cientista dinamarquês Eske Willerslev diz que quando começou a trabalhar como professor, pendurou um pôster de Touro Sentado na parede de seu escritório. “Quando tinha que tomar decisões difíceis, olhava para ele e pensava: o que Touro Sentado faria nesse caso?”, lembra o pesquisador. O chefe indígena ficou para a história como o vencedor, em 1876, da Batalha de Little Big Horn, na qual homens de diferentes tribos aniquilaram as tropas do 7º Regimento de Cavalaria dos Estados Unidos, sob o comando do General Custer, cujo cadáver acabou horrivelmente mutilado nas grandes planícies. E Willerslev ajudou o chefe Sioux a vencer uma última batalha após a morte: a identificação genética de um bisneto vivo.

Touro Sentado foi morto por policiais indígenas em 1890, quando estava para ser preso. Um cirurgião militar, Horace Deeble, aproveitou então para roubar uma mecha de seu cabelo e suas calças, a fim de guardá-los como lembrança. Ambas as peças foram abrigadas seis anos depois em Washington pelo Smithsonian Institution, que as devolveu aos supostos descendentes do líder indígena em uma cerimônia solene em 2007. Um deles era Ernie LaPointe, um homem nascido na Reserva Indígena Pine Ridge (Dakota do Sul) que ficou órfão aos 17 anos, se alistou nas forças armadas aos 18, lutou na Guerra do Vietnã e voltou de lá com um transtorno de estresse pós-traumático que o mergulhou no alcoolismo por quase duas décadas, segundo ele mesmo disse em um documentário em 2013. A comparação de seu DNA com a mecha de cabelo de Touro Sentado mostra que o chefe Sioux era de fato seu bisavô.

A equipe de Willerslev levou 14 anos para realizar a análise porque teve que inventar uma nova técnica, capaz de identificar minúsculos fragmentos de DNA antigo. O cabelo de Touro Sentado ficou “extremamente degradado” após um século de armazenamento em temperatura ambiente no Smithsonian Institution Museum em Washington. É a primeira vez que se estabelece um vínculo familiar entre uma pessoa viva e uma figura histórica tão distante no tempo e com informações genéticas tão limitadas, segundo Willerslev, da Universidade de Copenhagen.

O chefe Sioux Toro Sentado, fotografado em 1885.
O chefe Sioux Toro Sentado, fotografado em 1885.Instituto Smithsoniano

“Este método será útil nos casos em que há escassas quantidades de DNA e se deseja estabelecer relações biológicas, por exemplo, em casos forenses, com os restos de um cadáver sem nome ou para a identificação de um suspeito com pouco DNA disponível“, diz Willerslev. O estudo, publicado nesta quarta-feira na revista especializada Science Advances, cita o interesse por figuras históricas como o rei Ricardo III da Inglaterra, o fora-da-lei norte-americano Jesse James e membros da dinastia russa Romanov.

A bióloga Vanessa Villalba, especialista em DNA antigo, aplaude o novo trabalho, do qual não participou. “A complexidade surge quando queremos estimar graus de parentesco em duas amostras antigas com informações genéticas parciais que não são 100% comparáveis, pois abrangem regiões diferentes do genoma”, explica Villalba, do Instituto de Biologia Evolutiva de Barcelona. “Outro problema que se acrescenta quando se trabalha com amostras antigas é que não se sabe se a relação de parentesco é longitudinal, ou seja, se são bisavô-bisneto ou, na verdade, são primos, já que ambos implicam um terceiro grau de parentesco. Nesse caso, esse problema não existiria“, celebra a pesquisadora.

O novo método abre uma porta para conectar o passado e o presente. E Ernie LaPointe quer cruzá-lo o mais rápido possível. O corpo de Touro Sentado foi enterrado em Fort Yates, Dakota do Norte, mas seu bisneto está convencido de que seus parentes abriram a sepultura em 1953 e levaram seus ossos para uma nova sepultura, em Mobridge, Dakota do Sul. Atualmente, os dois locais recebem visitantes. “Eu sei que os restos mortais que foram transferidos para Mobridge são de nossos ancestrais, mas há céticos”, explica o bisneto de Toro Sentado ao EL PAÍS. LaPointe espera que um novo método de análise genética o ajude a descobrir onde seu bisavô está realmente enterrado.

O veterano da Guerra do Vietnã gostaria que o mundo lembrasse de seu bisavô como uma pessoa que “se preocupou com a saúde e o bem-estar de seu povo através da cerimônia sagrada da Dança do Sol, e que deu sua vida por eles”. O geneticista dinamarquês Eske Willerslev vai mais longe: “Touro Sentado é um símbolo de bravura, inteligência e bondade: o líder ideal.”

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