Análise
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Evidências extraordinárias em Vênus

A pergunta central que devemos nos fazer sobre a vida em Vênus é se as evidências são extraordinárias o bastante para satisfazer a ‘lei de Sagan’

Imagem de Vênus feita pela missão ‘Magellan’, em 1998. No vídeo, cientistas encontram possíveis sinais de vida em Vênus. VÍDEO: EPV

O astrofísico Carl Sagan dizia que as afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias. Se alguém pretender ter encontrado uma nova espécie de besouro —já foram descritas 350.000—, bastará apresentar um punhado de dados anatômicos para convencer seus colegas. No entanto, se o que afirma é ter descoberto vida em Vênus, deverá ter provas muito sólidas. Do contrário, ficará exposto não só ao escrutínio sádico dos demais cientistas, mas também a um papelão ridículo diante do mundo inteiro. A pergunta central que devemos nos fazer nesse caso é se as evidências são “extraordinárias” o bastante para satisfazer a lei de Sagan. Elas são?

O dado é simples de enunciar: na atmosfera de Vênus há fosfina (um átomo de fósforo ligado a três de hidrogênio, PH3), uma molécula extremamente rara na natureza. Na Terra, ela provém da atividade de certos micróbios que vivem sem oxigênio ou de processos industriais. Se isso também for certo em Vênus, a mera presença de fosfina seria um indicador de atividade microbiana em sua atmosfera (a existência de atividade industrial em Vênus seria uma afirmação ainda mais extraordinária). É certo que são conhecidos processos abióticos (não biológicos) que podem gerar fosfina, entre eles a atividade vulcânica, os raios e a radiação solar, mas em quantidades muito menores que as observadas agora. A hipótese mais simples é que haja micróbios flutuando na atmosfera de Vênus.

Se Marte é nosso vizinho exterior no Sistema Solar, Vênus é o vizinho interior. É o planeta que mais se aproxima da Terra em certa fase de sua órbita, a ponto de se tornar o objeto celeste mais brilhante do céu (depois da Lua). Como sua órbita é interior à nossa, sempre o vemos na direção do Sol —portanto, apenas durante o amanhecer e o anoitecer. Assim como Mercúrio, Marte, Júpiter e Saturno, Vênus é visível a olho nu. E, como eles, foi estudado há 5.000 anos pelos astrônomos da Babilônia, que o chamaram de Ishtar, como sua deusa do amor e da beleza.

Vênus é o nome romano da deusa homóloga. Quando Galileu o enfocou com seu telescópio de fabricação caseira, descobriu que exibia fases (quarto crescente, quarto minguante, e assim por diante), obtendo então a primeira evidência direta da teoria copernicana.

Porém, apesar de tanto prestígio científico e tão divina beleza, a astronomia moderna revelou Vênus como uma metáfora apta do inferno. Quente como ferro em brasa, seco como um vasto deserto e rodeado por uma eterna atmosfera repleta de ácido sulfúrico, nosso vizinho interior é um dos lugares mais improváveis para a evolução da vida, pelo menos tal como a conhecemos na Terra. Mas os dados mandam: existe abundante fosfina em seu ar venenoso, e isso exige uma explicação. Certamente essa estranha molécula é insuficiente para satisfazer a lei de Sagan, mas justifica intensificar as pesquisas sobre essa estranha deusa da beleza.

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