Especialista descarta risco de epidemia de arenavírus em São Paulo

Pela primeira vez em 20 anos, uma pessoa morreu de febre hemorrágica após contrair o vírus. Infectologista diz que a transmissão não preocupa e é “muito incomum”

Um homem de 53 anos faleceu no último dia 11 de janeiro, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, vítima de febre hemorrágica brasileira, causada pelo arenavírus ―não tem a ver com o coranavírus, que provoca mortes na China. O caso, que só foi confirmado seis dias após o óbito, é o primeiro da doença no Brasil desde 1999. A vítima morava em Sorocaba, no interior do Estado, mas viajou durante o mês de dezembro para as cidades de Itapeva, Itaporanga, Pariquera-Açu e Eldorado, na região sul de São Paulo, onde apresentou os sintomas iniciais da doença no dia 30 de dezembro. De acordo com o médico infectologista e diretor clínico do Grupo Fleury, Celso Granato, é provável que ele tenha sido infectado nas áreas rurais de alguma das cidades que visitou e, apesar da gravidade, o caso não representa um risco de epidemia ao resto da população.

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Conforme explica o médico, o arenavírus é transmitido através de diferentes espécies de roedores. “Cada espécie carrega um vírus distinto, o que faz com que o arenavírus brasileiro seja diferente de outros da América Latina”, explica. A transmissão acontece através do contato com a urina seca do rato, o que sugere uma infecção em áreas rurais, normalmente quando a vítima vai a residências que não são visitadas frequentemente. “A situação típica é quando a pessoa viaja para uma casa no sítio que, desde a última vez que foi visitada, acumulou pó e secreções de animais que entraram atrás de comida. E quando a pessoa vai limpar, ela inala a poeira, onde pode ter a urina seca do rato, e se contamina”, detalha o especialista.

As pesquisas notaram que o arenavírus encontrado neste ano é 10% diferente em sua composição do último analisado, em Espírito Santo do Pinhal, também no interior de São Paulo, em 1999. Ao todo, eram quatro casos conhecidos de febre hemorrágica brasileira até este ano, todos na década de 90, com duas mortes. Granato conta que o longo tempo entre as contaminações é decorrência da raridade da doença e do contexto específico necessário para a contaminação, logo, a vítima mais recente não representa a “volta” da febre hemorrágica para o território brasileiro. “A doença sumiu por falta de contato humano com ratos contaminados pelo vírus”, afirma.

Entre os quatro casos da década de 90, metade teve origem em laboratório; na época, sem conhecer a doença, alguns enfermeiros não tiveram os cuidados necessários ao tratar dos pacientes e foram contaminados. Ainda assim, Celso Granato ressalta que a transmissão entre pessoas é muito incomum, e só tem chances de acontecer quando há contato direto com as secreções, urina ou sangue do doente. “Ainda assim, é bem difícil. A doença não deve ir além daqueles que tiveram contato muito próximo com a vítima”, diz. A Secretaria de Saúde do Estado informa que todos os funcionários das unidades de saúde que prestaram atendimento ao doente estão sendo observados em quarentena, bem como os familiares mais próximos.

Apesar da pouca ocorrência, a febre hemorrágica chama a atenção pela gravidade. “Como o vírus é adaptado apenas ao sistema imunológico do rato, costuma ser fatal quando entra em contato com corpo humano”, explica Granato. Os sintomas da doença são febre, mal-estar, dores musculares, manchas vermelhas na pele, dores na garganta e no estômago, incômodos nos olhos e na cabeça e sangramentos no nariz e na boca. Os quadros mais evoluídos podem apresentar consequências neurológicas, hemorragias e até convulsões.

Como a febre não oferece grandes preocupações à sociedade, o infectologista diz que as políticas públicas de prevenção à doença devem ser voltadas para a orientação do cidadão. “Os melhores modos de se prevenir são usar uma máscara e passar um pano úmido antes de varrer um imóvel desocupado há muito tempo”, diz, “já que é praticamente impossível controlar a população de ratos devido à quantidade desses animais no país”. Ele ressalta que a situação é rara e não inspira maiores cuidados das autoridades brasileiras, que já comunicaram o caso para a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O arenavírus é diferente do coronavírus de Wuhan, agente infeccioso que teve origem na China, onde causou seis mortes e mais de 300 casos nos últimos dias, e já foi diagnosticado nos Estados Unidos.