Por dentro dos grupos que fornecem informações para a oposição na CPI da Pandemia

Organizados no Telegram, no Discord e no Twitter, voluntários arquivam, organizam e disponibilizam evidências sobre depoentes para compartilhar com senadores em tempo real

Edilson Rodrigues/Agência Senado | Intervenção de Rodolfo Almeida
Laís Martins (NÚCLEO JORNALISMO)

Longe dos holofotes da TV, voluntários organizados nas redes sociais trabalham a todo vapor para fornecer informações a senadores da oposição na CPI da Pandemia, com o potencial de mudar, em tempo real, os rumos dos depoimentos ―e, talvez, até mesmo da própria comissão.

Núcleo entrevistou pessoas por trás desses grupos de aplicativos de mensagens e perfis no Twitter, os quais têm crescido em engajamento, popularidade e reconhecimento, inclusive dos próprios parlamentares.

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A maioria dos responsáveis pelos perfis prefere manter suas identidades desconhecidas. Dois admins com os quais o Núcleo conversou são anônimos e usam pseudônimos ―no caso, Jairme Arrependi e Tesoureiros de Jair. Perguntados sobre com o que trabalham fora das redes, ambos esclareceram que suas atividades profissionais não são em nada relacionadas à articulação com os senadores e que não possuem filiação partidária.

Geralmente satíricos, esses perfis, junto ao crescente Camarote da CPI e muitos outros, estão em contato direto com assessores de parlamentares da oposição, como Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Humberto Costa (PT-PE), para disponibilizar materiais que vêm sendo catalogados desde o início do governo do presidente Jair Bolsonaro.

A presença desses grupos acontece num momento oportuno, em que a Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado que investiga a atuação do Executivo na pandemia tem acionado a participação por vezes decisiva das redes sociais, tendência que começou a ser observada na CPI das Fake News, lá em 2019, ainda que de forma menos contundente.

Esse papel direto das redes é algo que alguns senadores já reconhecem. O senador Randolfe, em uma live com a Mídia Ninja, disse que muitas das perguntas que têm feito aos depoentes chegam a ele por meio das redes, e cita nominalmente Tesoureiros do Jair pela contribuição.

Na noite de terça-feira, 18, véspera do depoimento de Eduardo Pazuello, o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), usou seu perfil no Instagram para reunir sugestões de perguntas ao ex-ministro da Saúde. Na quarta-feira, ele contou que recebeu milhares de sugestões e que usaria algumas.

Além do contato privado com as assessorias de certos senadores, que se dá por meio do Telegram, os perfis organizados também têm estabelecido conversas com membros da CPI pelo Twitter, por vezes recebendo respostas inclusive da mesa diretora ―além de Calheiros, o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), também joga pra torcida.

Apesar de poucas referências diretas aos perfis durante os questionamentos na comissão, as contas fazem questão de salientar os momentos em que os senadores utilizam alguma informação fornecida por eles, como foi o caso de um questionamento feito pelo senador Rogério Carvalho (PT-SE).

Na avaliação de Caio Rabelo, mestre em ciência política pela Universidade de São Paulo, o aceno dos senadores a esses grupos e a usuários de redes sociais demonstra um aprendizado político.

“Há uma faceta cultural muito interessante. Renan, que é tido como essa raposa velha, traz essa coisa de animador de auditório. E, de certa forma, olhando a sua trajetória política, é como se um ator antigo estivesse aprendendo a se comunicar politicamente como os novos tempos exigem”, afirmou Rabelo ao Núcleo.

Randolfe e Renan Calheiros, por exemplo, já começaram a crescer em engajamento no Twitter desde o início dos depoimentos à CPI.

Quem faz e como fazem

A participação desses voluntários, que se comunicam num grupo de 30 pessoas no Telegram, só é possível por conta de um trabalho minucioso de arquivamento de postagens, vídeos e declarações sobre diversos personagens e apoiadores do governo que começou há muitos meses, antes mesmo do início da pandemia de covid-19.

“Eu tinha o entendimento de que tudo que o Governo faz―postagem de rede social, lacradinha que não se dá importância―pode não parecer, mas é documento. Agora está mais do que provado que é documento”, disse o responsável pelo perfil Jairme Arrependi ao Núcleo.

Hoje essas informações que estão abastecendo a CPI estão organizadas sistematicamente em um servidor do Discord, um aplicativo de mensagens que possui vários recursos de rede sociais, popular entre gamers e programadores.

O trabalho tem mostrado impacto recentemente, mas é fruto de uma colaboração que vai além desses grupos. Houve participação também de outras pessoas anônimas que, ao longo dos dois anos e meio da administração de Bolsonaro, foram arquivando registros públicos em serviços como o Wayback Machine.

Na semana passada, quando o ex-secretário de Comunicação da Presidência Fábio Wajngarten depôs à Comissão, o senador Renan Calheiros mostrou uma postagem feita pelo perfil oficial do governo federal veiculando a campanha “O Brasil Não Pode Parar”. O print da postagem foi resgatado pelo grupo usando o Wayback Machine, e só foi possível recuperá-lo porque algum usuário salvou o link.

Essas informações em tempo real escancararam tantas contradições nas falas de Wajngarten que Calheiros e outros senadores chegaram a solicitar sua prisão por mentir à CPI.

A interação entre senadores e esses perfis, além de outros usuários que acompanham as sessões pelo Twitter, impõe um novo ritmo aos trabalhos da comissão, explicou Caio Rabelo.

“No próprio depoimento de Wajngarten isso ficou evidente com a produção de provas não só pela revista Veja, que foi instada por zilhões de internautas nas mentions do Twitter mas também pela própria Jairme, que levantou aquela fala na qual ele se contradisse na live com Eduardo Bolsonaro”, disse o cientista político.

Ainda hoje, os perfis continuam recebendo mensagens de usuários com materiais que são organizados e arquivados, e estão abertos para mais contribuições.

“Se você viu uma coisa que foi numa coletiva do Ministério da Saúde, que você acha que pouca gente pode ter visto aqui, isso daí nos interessa mais ainda, porque é o tipo de coisa que a gente não tem braço para ir atrás. Essas fontes menos óbvias são muito interessantes e podem gerar material comprometedor”, afirmou o admin do Tesoureiros do Jair.

Organizando informações

A articulação do grupo, conforme explicaram esses perfis ao Núcleo, não envolve nenhum furo de reportagem, mas sim uma organização de informações soltas em uma linha temporal. Não é preciso cavar muito fundo.

“Eles se comprometem muito, não tinham o menor pudor de comentar crimes abertamente. O que a gente tá fazendo é só mostrar, a gente está fofocando”

O trabalho de arquivar e categorizar informações ganha renovada importância em meio a uma tentativa de aliados e apoiadores do Governo Bolsonaro de apagar rastros digitais.

Perfis de aliados ao bolsonarismo como Alexandre Garcia e Leda Nagle, que se engajaram em retórica negacionista sobre a pandemia, têm apagado vídeos de seus canais no Youtube, segundo levantamento do jornalista Guilherme Felitti, da Novelo Data. Até o dia 14 de maio, Nagle havia deletado 184 vídeos em apenas nove dias.

“Esse material de clipagem, de armazenamento que o Tesoureiros, Jairme, Bolsoregrets, fazem, é um serviço de utilidade pública”, disse o antropólogo Orlando Calheiros, um dos únicos não-anônimos que integra o grupo (sem relação com o senador Renan Calheiros).

Na falta do BBB, entra a CPI

Em dias de sessão da CPI, Orlando, que até o início da pandemia dava aulas em uma universidade do Rio de Janeiro, faz transmissões da CPI pela plataforma Twitch, onde comenta o andamento dos trabalhos. Na terça-feira, 18, durante o depoimento do ex-chanceler Ernesto Araújo, 4,5 mil pessoas acompanharam sua transmissão. Ele também narra a CPI lance a lance em seu perfil no Twitter.

Calheiros não é o único a transmitir a CPI pela Twitch. O streamer e podcaster Luide Matos também mostra, por horas a fio, os trabalhos da CPI com comentários em tempo real. Mais de 12 mil usuários assistiram ao vivo o depoimento de Araújo pela stream de Luide.

Com o Brasil na marca de 440.000 mortos por covid-19, a CPI virou um espetáculo acompanhado de perto por brasileiros, até mesmo aqueles que antes não seriam fisgados pelo noticiário político.

“Pega a pipoca e vem acompanhar a CPI da Pandemia com a gente”, diz a bio do perfil Camarote da CPI no Twitter, atualmente com mais de 50.000 seguidores. Jairme Arrependi transformou o cronograma de depoimentos da CPI de maio em um line-up de festival, o CPIPalooza.

Após o fim do Big Brother Brasil, o Espiadinha, um dos canais de Telegram que estavam focados no reality e foi derrubado algumas vezes por infringir regras de direitos autorais, também aproveitou a onda e agora comenta a CPI em tempo real (e o reality No Limite, claro).

Humor com seriedade

Os perfis que conversaram com o Núcleo concordam que, por vezes, o formato humorístico que usam é arriscado para tratar de um assunto tão sério como a pandemia. Mas é justamente o uso desse formato, eles avaliam, que os tem permitido impactar pessoas que “não respiram política o tempo todo”.

“Quando a gente pega o formato jornalístico tradicional e transmuta, uma thread engraçadinha, faz um card mais bobão, a gente consegue levar a relevância da CPI pra uma galera que talvez nem fosse dar tanta importância assim. Eu acho que é fundamental nesse momento que a gente tá vivendo que é vida ou morte literalmente que todos os olhos estejam atentos a todos os movimentos que rolem ali”, disse o admin do Jairme.

Além deste grupo do Telegram que reúne os perfis entrevistados pelo Núcleo, há outros voluntários que trabalham para gerar conteúdo a partir da CPI, como curtos vídeos dos depoimentos que podem ser compartilhados pelo WhatsApp. Um deles é o perfil Desmentindo Bolsonaro, que compartilha trechos dos depoimentos. Além de canal de Telegram, também está no Twitter, Youtube e Instagram para, como diz o próprio nome, desmentir declarações e contradições do presidente e de outras autoridades.

“É aí que começa, que a gente consegue chegar a outros lugares, porque não adiantaria nada o senador Randolfe dando show na CPI se isso não chega para a população. Não vira um acontecimento”, disse Orlando Calheiros.

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Controle da narrativa

Na avaliação do grupo, a articulação entre os internautas e os senadores de oposição mostra que, pela primeira vez em muito tempo, a direita bolsonarista perdeu o controle da narrativa, especialmente no ambiente virtual.

Contrastando com experiências anteriores, como a CPI das Fake News, em que a esquerda não conseguiu se organizar para fazer frente a parlamentares alinhados com o governo, os perfis avaliam que agora a dinâmica é diferente.

“Antes eles ficavam com a bola para lá e para cá e a gente ia atrás. Dessa vez a gente agarrou a bola e não estamos soltando”, disse o admin do Jairme, avaliando que parlamentares governistas hoje estão escanteados e isolados na CPI, tentando pautar o debate sobre acontecimentos externos à comissão.

Esta avaliação está em linha com algumas análises de redes. Um gráfico construído pelo cientista de dados Pedro Barciela, a partir de menções à CPI no dia do depoimento de Wajngarten, mostra um isolamento dos bolsonaristas, além de representar a interação entre usuários e senadores da CPI. Nele, é possível identificar o nome do perfil Jairmearrependi.

Como fizemos isso

Núcleo entrou em contato com os administradores desses grupos e conversou com eles. Também observou os dias de CPI e as menções que os senadores fazem às redes sociais.

Entramos em contato com as assessorias de Randolfe Rodrigues e Humberto Costa, sem retorno até a publicação da reportagem.

Os dados de engajamento de perfis são do Monitor Nuclear.

Esta reportagem foi publicada originalmente no site do Núcleo Jornalismo.

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