Pesquisas dão vantagem apertada ao mandatário ultraconservador nas eleições presidenciais polonesas

Andrzej Duda teria conseguido neste domingo 50,8% dos votos, enquanto o centro-direitista Rafal Trzaskowski teria ficado com 49,2%

Garotos em frente a cartazes dos candidatos Andrzej Duda e Rafal Trzaskowski, na cidade de Raciaz.
Garotos em frente a cartazes dos candidatos Andrzej Duda e Rafal Trzaskowski, na cidade de Raciaz.Czarek Sokolowski (AP)

Os poloneses deram uma vantagem mínima ao atual mandatário ultraconservador Andrzej Duda, segundo as pesquisas de boca de urna. O presidente, aliado do partido governista Lei e Justiça (PiS), teria conseguido 50,8% dos votos, enquanto o centro-direitista Rafal Trzaskowski, prefeito de Varsóvia e candidato da Coalizão Cívica (KO), teria ficado com 49,2%. O resultado das eleições pode ter consequências sobre a agenda reformista do Executivo, criticada por destruir o Estado de Direito. Uma vitória do concorrente de oposição, que se declara europeísta, marcaria uma mudança de rumo na tensa relação da Polônia com a União Europeia.

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As eleições se realizaram em um contexto excepcional, já que pandemia da covid-19 (que deixa 37.000 infectados e 1.562 mortos) obrigou o cancelamento das eleições em maio e causou a substituição do candidato da KO. Apesar desse contexto, a participação no segundo turno das eleições foi de 52,1% até às 17h, 11 pontos a mais que as eleições presidenciais de 2015 (40,51%). Trata-se de um exemplo de como as eleições deste ano despertaram uma forte mobilização dos eleitores.

A irrupção tardia de Trzaskowski (48 anos), um europeísta autoproclamado como o candidato da mudança, alterou o curso das pesquisas, que mostravam Duda como vencedor indiscutível (da mesma idade). O liberal conquistou 30,5% dos votos no primeiro turno em 28 de junho, contra 43,5% do mandatário. Ainda que a última pesquisa da empresa IBRIS conceda a vitória ao primeiro (47,4% contra 45,7%), a porcentagem de indecisos e a margem de erro do estudo tornam os resultados imprevisíveis.

Disputa pela aliança com os Estados Unidos

A aliança com os Estados Unidos, vista de maneira positiva pela opinião pública polonesa, teve papel destacado na campanha. Quatro dias antes do primeiro turno, o presidente, Andrzej Duda, abandonou o país para se reunir na Casa Branca com seu homólogo norte-americano, Donald Trump. Ainda que o encontro tenha projetado a imagem internacional de Duda, o mandatário não conseguiu um compromisso concreto sobre a transferência à Polônia de uma parte dos “até 25.000 soldados” que os EUA planejam retirar da Alemanha, ao considerar que o Governo de Angela Merkel não investe tanto como deveria em defesa (menos de 2% do PIB). Trump afirmou que “provavelmente” uma parte das tropas acabaria em solo polonês, mas não foi além disso.

Uma semana depois, a campanha de Rafal Trzaskowski contra-atacava informando em sua conta do Twitter de uma ligação entre este e o ex-presidente Barack Obama. O prefeito de Varsóvia afirmou que na conversa abordaram questões de segurança como o futuro da OTAN e, novamente, o envio de soldados norte-americanos ao país.

As dificuldades econômicas enfrentadas pelo país após a epidemia serviram de argumento aos dois candidatos na campanha. Enquanto Duda insiste na necessária colaboração entre o Governo e a chefatura do Estado, Trzaskowski defende que o PiS não está preparado para dirigir a Polônia em circunstâncias adversas. Mas ainda que a Comissão Europeia, em suas previsões de verão, vaticine uma contração econômica de 4,6% para este ano, o dado significa a menor queda dentro da UE, submersa em uma queda sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial.

A mobilização do eleitorado é fundamental. “No caso de Duda, são os mais velhos. O Governo minimizou os riscos relacionados à pandemia para encorajar os eleitores de mais de 60 anos a comparecer às urnas. Além disso, em um esforço para consolidar e dinamizar sua base de votantes conservadores, o presidente embarcou em uma cruzada anti-LGTBI”, diz Adam Traczyk, analista político do think tank Global.Lab. “Trzaskowski, por sua vez, precisa do apoio do eleitorado mais jovem e que votou em outros candidatos no primeiro turno. Em uma tentativa para desmobilizar os eleitores do PiS, procura reduzir a polarização que envenenou a Polônia nos últimos 15 anos, desde que Lech Kaczynsky [ex-mandatário falecido em 2010, irmão gêmeo do líder do PiS, Jaroslaw Kaczynski] e [o ex-primeiro-ministro] Donald Tusk disputaram a presidência”, acrescenta.

Agenda de reformas

“Em termos de política exterior, uma vitória de Trzaskowski mudaria a imagem da Polônia”, diz Malgorzata Kaczorowska, doutora em Ciência Política da Universidade de Varsóvia. “É um candidato que quer fortalecer a posição da Polônia dentro da UE e reforçar a cooperação com os membros comunitários, ao contrário do que aconteceu nos últimos cinco anos”, afirma a acadêmica. “Neste período a Polônia se transformou em um enfant terrible da política europeia, um país que nega o Estado de Direito e que não é merecedor da confiança do restante”, diz referindo-se às reformas judiciais, denunciadas em Bruxelas por colocar em perigo a separação de poderes, e a visão conflitante em matéria ambiental, política migratória e de direitos humanos.

O cidadão comum nem sempre concorda com essa análise. “A Polônia precisa ser a Polônia, não um país submisso a alemães e franceses”, diz Joanna, de 60 anos, em Kobylka, a 25 quilômetros de Varsóvia. A instrutora fitness, defensora de Duda, aplaude as ajudas às famílias outorgadas pelo PiS. É em lugares pequenos como este que o mandatário tem maior popularidade, contra a força de Trzaskowski nas grandes cidades.

A vitória do candidato da KO colocaria em apuros a agenda de reformas do Governo, que precisa dos três quintos necessários para revogar um veto presidencial no Parlamento. “Ao contrário da Hungria, onde o partido de Viktor Orbán, o Fidesz, tem maioria constitucional, a aliança governista na Polônia [o PiS e partidos menores] não é monolítica. Com Trzaskowski desafiando o modelo de governo de Kaczynski, não se pode descartar que o Executivo caia e seja preciso realizar eleições antecipadas”, conclui Traczyk.

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