Análise
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Bolsonaro e a arte de ignorar denúncias de corrupção contra seu Governo

Planalto atual não se constrange com investigações, como nas gestões passadas, mostra de novo o caso de Fábio Wajngarten, da Secom. São os ataques à imprensa cada vez mais virulentos que prevalecem

Jair Bolsonaro inaugura no Planalto a arte de ignorar solenemente investigações ou denúncias de má conduta contra seus assessores. Pouco importa o que a imprensa, tida como inimiga de antemão, publica ou mesmo o que as autoridades apontam. Não era assim nas gestões anteriores, quando havia diferentes graus de constrangimento, pressão da base, preocupação “com a opinião pública”. Sob Bolsonaro, que fez campanha tendo como bandeiras a ética e o combate à corrupção, só perde a função quem não tiver mais a confiança do presidente ou a de seus três filhos que estão na política. Essa é a única regra que vale, como mostram a saída de Gustavo Bebbianno e o general Carlos Alberto dos Santos Cruz (sem falar do descarte de Joice Hasselmann da liderança do Governo na Câmara).

É seguindo a toada que Bolsonaro decidiu manter na ativa, ao menos por ora, mais um de seus assessores contra quem pesa dúvidas: o secretário de Comunicação da Presidência da República, Fábio Wajngarten. Nesta semana, o jornal Folha de S. Paulo revelou que a empresa da qual Wajngarten detém 95% das ações, a FW Comunicação, recebe dinheiro de pelo menos duas emissoras de TV (Record e Band) e de três agências de publicidade contratadas pela Secretaria de Comunicação, por ministérios e por estatais federais. Cabe à Secom distribuir a verba de propaganda da Presidências e criar as normas para as contas dos demais órgãos da União. Além disso, o secretário nomeou como seu número dois na secretaria o irmão do profissional que o substituiu na administração da FW assim que assumiu o cargo público.

Em sua defesa, Wajngarten diz que não há conflito de interesses porque os contratos eram anteriores ao cargo que ocupa. O secretário recorreu à fórmula tão usada por seu chefe Bolsonaro: quando emparedado, atacar a imprensa e tentar desacreditá-la. Nesta semana, o presidente mandou até uma repórter calar a boca, numa escalada de virulência sem precedentes. Um levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) mostra que 2019 registrou 208 ataques a veículos de comunicação, sendo que 58% deles, ou 121, foram feitos pelo presidente. Em 114 dessas ocasiões Bolsonaro tentou desacreditar o trabalho dos jornais e dos jornalistas.

Um dos motivos da desenvoltura é o que discurso contra a imprensa reverbera entre seus apoiadores, uma base longe de ser a maioria, mas bastante inflamada, constantemente estimulada e coesa. Uma amostra são os que aplaudem qualquer grosseria que sai da boca presidencial na frente do Palácio da Alvorada quase diariamente.

No plano político, também há explicações para esse novo modus operandi. Antes, na hora de compor seu gabinete, qualquer ocupante da cadeira presidencial levava em conta a coalizão que lhe dava suporte. Se um ministro de um partido X ou Y era investigado ou denunciado por determinado delito, começava seu processo de fritura e algum tempo depois, ele caía. Agora, numa gestão sem base congressual, sem partidos políticos para agradar, o presidente se vê livre para fazer o que bem entender com quem lhe serve. Ainda que para isso se baseie em teorias conspiratórias e ignore fatos claros, documentados.

Antes de Fábio Wajngarten, o presidente já havia garantido no ministério Marcelo Álvaro Antônio (Turismo), denunciado pelo Ministério Público por um esquema de candidaturas laranjas do PSL em Minas Gerais. Há um reconhecimento quanto à lealdade de Marcelo. Quando foi esfaqueado, em Juiz de Fora, o ministro estava ao seu lado e ajudou a socorrê-lo.

O caso de Sergio Moro (Justiça), cuja atuação na Lava Jato foi questionada após vazamentos publicados pelo site The Intercept mostrarem uma incomum proximidade com procuradores, é diferente. O presidente o manteve por perto porque sabe que boa parte do apoio que possui depende do ex-juiz, um dos políticos mais populares do país atualmente. Mais do que isso, Moro é um dos ativos que Bolsonaro ainda tem para se apresentar como um paladino anticorrupção —um equilíbrio que só durará, claro, enquanto o ex-juiz estiver disposto a dar demonstrações públicas de lealdade quase cega.

Wajngarten parece possuir essas credenciais. Apoiador da campanha presidencial em 2018, o secretário chegou ao cargo sustentado pelo vereador Carlos Bolsonaro, que queria destituir da função Floriano Amorim, um antigo assessor de seu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro. Carlos é o ideólogo do presidente nas redes sociais e sempre teve influência sobre o pai. Nos últimos meses, contudo, Wajngarten perdeu apoio de Carlos porque se aproximou do advogado Frederick Wassef, defensor do senador Flávio Bolsonaro no caso das “rachadinhas” na Assembleia do Rio de Janeiro. Carlos e Flávio não se dão bem. Consecutivamente, o secretário se aproximou de Flávio e ouviu as seguintes palavras do presidente: “O que eu vi até agora, está tudo legal com o Fábio. Vai continuar. É um excelente profissional. Se fosse um porcaria igual alguns que tem por aí, ninguém estaria criticando ele”. No bolsonarismo pode se considerar quase uma comenda.