Jogo é suspenso na Espanha após torcida xingar rival de “nazista”

Alvo dos insultos no estádio do Rayo Vallecano foi o ucraniano Roman Zozulya, contratado em 2017 pelo Albacete. É a primeira vez que uma partida de futebol é suspensa na Espanha devido a gritos ofensivos

Zozulya, à esquerda, disputa com Valentín.
Zozulya, à esquerda, disputa com Valentín.CHEMA DÍAZ / AS

O jogo entre Rayo Vallecano e Albacete pela Segunda Divisão do Campeonato Espanhol foi suspenso neste domingo no intervalo, quando estava 0 x 0, devido a insultos da torcida local contra o atacante ucraniano Roman Zozulya, do Albacete. “Zozulya, você é um nazista!”, “puto nazista!”, “fora de Vallecas!”, gritava em coro parte da torcida no estádio de Vallecas, um bairro operário da zona sudeste de Madri, durante o primeiro tempo. No descanso, os dois times decidiram não voltar ao gramado, e o árbitro tomou a decisão – inédita na Liga espanhola – de suspender um jogo por causa de insultos.

Já no primeiro tempo, o juiz havia parado a bola em duas ocasiões durante alguns segundos, enquanto pelos alto-falantes um locutor pedia que os insultos parassem. Em nota, a Liga espanhola disse estar de acordo com a decisão do árbitro. Durante o confronto, Zozulya se mostrava tranquilo, aparentemente alheio a todo o ruído. Só quando seu time entrava nos vestiários ele levou a mão a uma orelha como resposta aos coros. Enquanto isso, Néstor Susaeta, ex-jogador do Rayo, pedia cautela à torcida. “Eu já parei duas vezes, façam o que acharem necessário”, disse o árbitro aos jogadores do Albacete, enquanto todos se retiravam.

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“A Liga manifesta seu acordo com a decisão tomada por José Antonio López Toca [o árbitro] de suspender o encontro diante dos graves insultos e ameaças ocorridos durante a primeira parte contra Roman Zozulya, jogador do clube visitante, e diante da solicitação das duas equipes no estádio de Vallecas”, informou a entidade que organiza o Campeonato Espanhol. O Albacete agradeceu ao árbitro e à Federação por ter suspendido o confronto. “Uma decisão tomada com o único objetivo de proteger os valores do esporte que amamos e da nossa competição”, disse o clube em nota.

Como tudo começou

Para entender toda a história é preciso recuar quase três anos. Na janela de transferências do começo de 2017, o Rayo contratou Zozulya. A torcida imediatamente se mobilizou e pressionou para que a operação se frustrasse, algo que finalmente ocorreu. Alegavam esses torcedores que o ucraniano tinha tido aproximações com a ultradireita, haviam surgido imagens do atacante posando com simbologia nazista e fascista, e que isso não era compatível com os valores tradicionais do clube. O atacante tentou inclusive treinar com o novo time, mas os protestos nas instalações não permitiram. Após dias de polêmica, o atacante desistiu do Vallecas e voltou ao Betis, equipe que o cedia ao Rayo, e lá ficou o resto da temporada sem jogar.

Mas o time sevilhano lhe deu pleno apoio. Voltou muito abalado com o ocorrido e teve apoio incondicional dos colegas. “É um linchamento”, denunciou o capitão Joaquín ao ler um comunicado conjunto. Também a Liga espanhola, com seu presidente Javier Tebas à frente, mostrou compreensão com o ucraniano e ameaçou empreender ações legais contra quem tivesse coagido o atleta em Madri.

O caso foi inclusive além das fronteiras do esporte. Pablo Iglesias, líder do partido esquerdista Podemos e então residente em Vallecas, mostrou-se “orgulhoso” da torcida do Rayo. “Era um neonazista. É muito saudável que a torcida assim se pronuncie”, declarou Iglesias. Por outro lado, o ministro do Interior naquele momento, Juan Ignacio Zoido, do conservador Partido Popular, mostrou sua solidariedade ao jogador.

Depois da polêmica, Zozulya contou que era defensor do Exército ucraniano no conflito com as forças pró-russas do leste da Ucrânia, mas negou ter simpatias pelo nazismo. “Se algo assim acontecesse na Espanha, vocês não duvidariam em defender o seu país”, justificou-se, ao mesmo tempo em que manifestava temor pela segurança dos seus. “O futebol é minha vida, mas se eu tiver que escolher entre o futebol e minha família, a decisão é bastante evidente.” Em meados de 2017, o atacante fechou com o Albacete, onde encontrou seu lugar. Neste domingo, pisaria pela primeira vez no estádio de Vallecas, já que, na temporada anterior em que as duas equipes disputaram a mesma divisão (2017-18), ele ficou em casa para evitar problemas.

Durante toda a semana prévia ao encontro, o Rayo pediu à torcida que respeitasse o jogador. “Só peço respeito a Zozulya. Cada um pode opinar, mas com respeito. Se Vallecas tiver que opinar, que o faça com respeito. Só me importa que Zozulya é um bom atacante, o resto não me interessa”, declarou Paco Jémez, treinador rayista.

Os apelos não deram resultado. Os coros em Vallecas aumentaram desde o começo, provenientes sobretudo do fundo ocupado pelos Bukaneros, a organizada mais radical do Rayo, de reconhecida ideologia esquerdista. “É uma noite triste para o Rayo e para o esporte. Condenamos taxativamente os insultos de uma parte da torcida do fundo contra um esportista”, denunciou o presidente do clube vallecano, Raúl Martín Presa. “Por culpa de alguns poucos a maioria das pessoas teve que voltar para casa sem ver um jogo. Isto não é política nem luta de classes. Isto é esporte, é futebol e está aí para unir, irmanar e juntar gente de diferentes ideias, raças e religiões.”

O Albacete agradeceu a decisão do árbitro de suspender o encontro. “Com isto se opta por defender a integridade das pessoas e dos esportistas”, declarou Víctor Varela, vice-presidente do clube, que propôs que o jogo volte a ser disputado “quando se derem as condições necessárias”.

A suspensão estabelece um precedente, algo que não aconteceu anteriormente com os coros racistas contra jogadores como Eto’o, Ronaldo, Dani Alves e Iñaki Williams.

O atacante que encontrou seu lugar em Albacete

Depois da má experiência na frustrada contratação pelo Rayo Vallecano, Roman Zozulya foi contratado em setembro de 2017 pelo Albacete, da homônima cidade na região de Castela-La Mancha. O ucraniano encontrou um lugar tranquilo, onde vive muito à vontade com sua família. O clube reitera que o jogador sempre teve um comportamento exemplar e nunca deu nenhum problema. O atacante também valora isso inclusive acima do aspecto futebolístico. Aos 30 anos, preferiu ficar no modesto Albacete em vez de escutar os cantos de sereia de equipes da Primeira Divisão, como o Granada e o Getafe, muito interessados em incorporar o atacante na última janela.

Fruto das divisões de base do Dínamo de Kiev, Zozulya começou a se destacar no Dnipro, onde jogou cinco temporadas até que chamou a atenção do Betis. Na equipe sevilhana teve poucas oportunidades e por isso cogitou ser emprestado no começo de 2017. Quem o conhece conta que a experiência em Vallecas o afetou pessoalmente, mas que logo ele se recompôs e isso serviu para motivá-lo depois.

Em sua primeira temporada no Albacete custou a arrancar, mas acabou com nove gols e três assistências em 30 jogos. Naquele ano, seu treinador, Enrique Martín, preferiu não levá-lo a Vallecas, embora o clube alegasse que foi para ser poupado fisicamente. Seu segundo ano em La Mancha foi ainda melhor. Ampliou sua cifra de gols a 11, em uma temporada na qual o Albacete lutou pela ascensão até o final, mas caiu nas semifinais diante do Mallorca. Na atual temporada, Zozulya soma três gols e continua sendo peça-chave no esquema do treinador Luis Miguel Ramis.