Caso Marielle Franco

Bolsonaro convoca Moro em caso Marielle e acusa Witzel de querer desgastá-lo por sucessão em 2022

Do exterior, presidente diz que vai acionar ministro da Justiça para esclarecer depoimento do porteiro do seu condomínio que diz ter ligado para sua casa no dia da morte de Marielle para autorizar a entrada de Élcio Queiroz, preso este ano pelo assassinato da vereadora

Bolsonaro em apresentação para investidores em Riad, Arábia Saudita
Bolsonaro em apresentação para investidores em Riad, Arábia SauditaA.Nabil (AP)

O presidente Jair Bolsonaro caiu num vórtex nesta terça-feira, em pleno giro pela Ásia e Oriente Médio, depois de ver seu nome vinculado à investigação sobre a execução da vereadora Marielle Franco em 14 de março de 2018. Em dia de encontro com investidores árabes em Riad, o presidente avisou a jornalistas que está conversando com o ministro da Justiça, Sergio Moro, para que a Polícia Federal colha um novo depoimento do porteiro que contou ter ligado para sua casa, no condomínio Vivendas da Barra, para autorizar a entrada de Élcio Queiroz, no dia do crime que matou Marielle. Queiroz está preso desde março deste ano acusado de participar do assassinato da vereadora.  “Estou conversando com o ministro da Justiça para a gente tomar, via Polícia Federal, um novo depoimento desse porteiro pela PF para esclarecer de vez esse fato”, disse Bolsonaro, segundo relato da BBC Brasil.

O anúncio causou estranheza, uma vez que o presidente não tem poderes para solicitar depoimentos na condução das investigações do crime. Por fim, o ministro Moro solicitou ao Procurador Geral da República, Augusto Aras, a instauração de um inquérito para apurar a denúncia veiculada pelo Jornal Nacional em função da menção ao nome do presidente Bolsonaro. “A própria reportagem esclarece, porém, que o, na referida data, o Exmo. Sr. Presidente da República, então deputado federal, estava em Brasília, tendo registrado a sua presença em duas votações no plenário da Câmara dos Deputados”, descreve Moro em sua requisição à PGR. “A inconsistência sugere possível equívoco na invetigação conduzida no Rio de Janeiro ou eventual tentativa de envolvimento indevido do nome do presidente da República”, descreve o ministro, solicitando investigação, em conjunto, pelo Ministério Público Federal e Polícia Federal.

Bolsonaro voltou a acusar, também, o governador Witson Witzel pelo vazamento de seu nome no inquérito que está em segredo de Justiça, repetindo o que disse em uma Live logo após a divulgação da reportagem do Jornal Nacional que envolveu o seu nome no caso Marielle. O presidente, porém, detalhou o contato que teve Witzel que lhe deu informações sobre a investigação há 20 dias. “Eu estava no dia 9 de outubro no Clube Naval do Rio quando chegou o governador Witzel, e falou o seguinte: 'O processo está no Supremo'. Perguntei qual processo e ele disse “O processo de Marielle. O porteiro citou seu nome”, afirmou. O presidente sustenta que Witzel teria todo o interesse em desgastar a sua imagem para poder concorrer às eleições presidenciais de 2022. Acusou também a Rede Globo de querer desgastá-lo por perder anúncios de estatais. Chamou a emissora de “canalha” e de promover “patifaria”.

Witzel reagiu às acusações de Bolsonaro e garantiu que não interfere nas instituições do Estado. “Lamento profundamente a manifestação intempestiva do presidente Jair Bolsonaro. Ressalto que jamais houve qualquer interferência política nas investigações conduzidas pelo Ministério Público e a cargo da Polícia Civil”, disse o governador em nota divulgada na manhã desta quarta.  Também a polícia civil se manifestou refutando interferência em seu trabalho. O governador Wilson Witzel não interfere na apuração dos homicídios de Marielle e Anderson nem teve acesso aos documentos do procedimento investigativo, assim como em quaisquer outras investigações”, reagiu em nota, reforçando que o caso segue em sigilo. A dúvida é por que o governador teria contado detalhes da investigação ao presidente no dia 9, conforme relato de Bolsonaro.

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Também a rede Globo reagiu ao presidente, afirmando que não fez nada dirigido ao presidente, mas fez jornalismo ao revelar  “a existência do depoimento do porteiro e das afirmações que ele fez. Mas ressaltou, com ênfase e por apuração própria, que as informações do porteiro se chocavam com um fato: a presença do então deputado Jair Bolsonaro em Brasília, naquele dia [14 de março], com dois registros na lista de presença em votações”, afirmou em nota.

Mesmo distribuindo ataques, o presidente Bolsonaro tem poder limitado para reverter o noticiário negativo sobre seu nome diante das insinuações de uma eventual ligação com os assassinos de Marielle. A notícia veiculada no Jornal Nacional inflamou ainda mais a crise de imagem do seu governo, que teve uma semana infernal depois da divulgação no final de semana de áudios de Fabrício Queiroz, a pedra no sapato do presidente e do seu filho Flavio Bolsonaro. Queiroz está foragido e é investigado por movimentações financeiras suspeitas de 1,2 milhão de reais, que levam a crer que ele orquestrava 'rachadinhas' no gabinete de Bolsonaro quando Flavio era deputado estadual. Nos áudios, Queiroz diz que o Ministério Público tem um “pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente”, diz ele, em referência a si mesmo e ao hoje senador Flavio Bolsonaro. “Não vi ninguém reagir”, afirmou. Xingou ainda promotores do MP e reclamou de não poder agir em defesa do Governo. Os áudios, divulgados pelo jornal O Globo e  Folha de S. Paulo, seriam do mês de julho.

Bolsonaro também se colocou em outro furacão ao divulgar pelo seu Twitter um vídeo de um leão, que seria ele mesmo, cercado de hienas, cada uma com o nome de seus adversários políticos, mas também instituições que deveriam lhe ser caras, como  o Supremo Tribunal Federal e a própria rede Globo, agora acusada pelo presidente de promover “patifaria” para prejudicá-lo por divulgar a reportagem sobre o depoimento do porteiro do seu condomínio que contou ter autorizado a entrada de Élcio Queiroz, preso pelo assassinato de Marielle, no dia do crime. Queiroz, segundo o porteiro, foi autorizado pelo 'seu Jair' da casa 58 do Vivenda da Barra – residência do presidente — a entrar no local. A entrada foi registrada horas antes da execução de Marielle.