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As normas secretas de censura do TikTok

Revelação das regras de moderação do aplicativo chinês mostra que os limites do permitido dependem cada vez mais de decisões obscuras das redes sociais

Jordi Pérez Colomé
A app de vídeos breves TikTok é um dos mais populares do mundo.
A app de vídeos breves TikTok é um dos mais populares do mundo.Getty Images

O app TikTok foi baixado mais de 1 bilhão de vezes desde 2017. Em agosto foi o aplicativo mais baixado tanto para Android como para iPhone em todo o mundo. A chinesa ByteDance, criadora do TikTok, se transformou há um ano na startup mais valiosa com 75 bilhões de dólares (311 bilhões de reais), mais do que o Uber à época.

O TikTok é um fenômeno de massas que permite criar vídeos musicais e engraçados de 15 segundos em média. Além de seu crescimento espetacular, o TikTok se destaca por outros dois dados relevantes: seus usuários são adolescentes e muito jovens e é o grande sucesso chinês fora de seu país. Está disponível em mais de 150 países. No Brasil, a rede tem ganhado cada vez mais adeptos. A cantora pop Anitta usou a rede como parte da promoção do seu álbum "Kisses". E brasileiros como Bruno Carvente e Alice Oliveira já somam mais de dois milhões de seguidores cada na plataforma.

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Por que um app juvenil, musical e debochado tem problemas de censura política de seu conteúdo? A suspeita é porque, como empresa chinesa, deve seguir as regras de seu Governo. O Guardian acaba de revelar as regras de moderação do TikTok, que a empresa diz ter deixado de usar em maio.

No capítulo sobre “discurso de ódio e religião”, o TikTok suprimia as críticas ao socialismo chinês junto com essas outras referências: “Crítica às políticas, regras sociais de qualquer sociedade, como uma monarquia constitucional, monarquia, sistema parlamentar, separação de poderes, sistema socialista etc.” No TikTok não se tocam nos modelos de Estados.

Em sua resposta ao Guardian, o TikTok disse que essas pautas estão “desatualizadas” e que hoje adotam “enfoques localizados, que incluem moderadores locais, conteúdo local e políticas de moderação, refinamento local de políticas globais”. O EL PAÍS pediu ao TikTok que esclarecesse quais eram esses “conteúdo local e políticas de moderação, refinamento local de políticas globais”. Se essas moderações e adaptações locais existem, não estão disponíveis no TikTok. Após mais de quatro dias, a empresa continuam sem responder.

A empresa só enviou à reportagem o link que leva par as regras comunitárias do TikTok. A única menção a uma hipotética censura de conteúdos sociopolíticos é essa: “Os usuários também devem obedecer a legislação local”. Isso indica que o TikTok respeitará que na China seja crime lembrar o massacre de Tiananmen e na Espanha não seja crime criticar o Rei? Permitirá que seus usuários espanhóis vejam os vídeos de Tiananmen? E aos usuários chineses que moram e viajam ao estrangeiro?

O Guardian também viu o conteúdo que o TikTok proibia na Turquia: ia do separatismo curdo, o pai da pátria, Ataturk, ao atual presidente, Recep Tayip Erdogan. Nessa lista se incluía o consumo de álcool, aparições de “deuses não islâmicos”, coisas como “atividades íntimas (ficar de mãos dadas, se tocar, se beijar) entre amantes homossexuais”, “informações de grupos homossexuais” e conteúdo sobre “proteger os direitos dos homossexuais”. As leis locais turcas não são tão restritivas como o TikTok em seu afã de proibir.

Ocorre o mesmo se a polêmica é com o Governo espanhol e o movimento independentista catalão? Não se sabe. As grandes redes sociais equilibram suas regras à comunidade para manobrar com suas linhas vermelhas, mas pelo menos as diretrizes e as sanções são públicas. No TikTok não.

Uma busca das hashtags #hongkong, #tiananmen e #tibet em boa parte resulta em vídeos anódinos. A ferramenta que completa automaticamente as buscas também não gosta dessas palavras.

O funcionamento do TikTok é centrado na inteligência artificial. O app detecta quais vídeos você mais gosta e te dá mais desses. É o modo mais simples de fazer com que você fique 20 minutos no celular. Quer shows de rap com algumas brincadeiras de terror? Receba shows de rap e algum vídeo engraçadinho de medo.

As redes sociais costumam ter uma desculpa aceitável para sequestrar nossa atenção – e em minutos vendê-la a anunciantes –: fazer com que você saiba o que está acontecendo, saber o que seus amigos fazem e ver fotos de viagens em lugares desconhecidos. Mas o TikTok não tem pretensões, é puro entretenimento. São mostrados: uma mistura dos velhos “Vídeos de primeira” com uma seleção de videoclipes caseiros com a música da moda.

A importância da censura no TikTok talvez seja menor por enquanto porque o conteúdo político e polêmico não emerge, ainda que talvez não emerja porque é cortado pela empresa. Esse debate é importante porque o TikTok pode crescer com seus usuários e se transformar em uma arma de rebeldia social. Ainda que talvez nunca o saibamos por que seus algoritmos fazem com que o mundo refletido pelo TikTok seja da diversão mais anódina e básica do mundo.

E se fosse com as notícias?

Mas há mais. A ByteDance também é proprietária do TopBuzz, um app agregador de notícias que usa a inteligência artificial não para escolher qual vídeo engraçado o usuário quer ver, e sim para oferecer-lhe as manchetes globais que mais lhe interessam.

O TopBuzz é outro sucesso mundial nascido na China. A Chartbeat, a empresa que mede o tráfego na maioria dos veículos de comunicação, explicou há pouco o crescimento do TopBuzz com fonte de tráfego: “Em dezembro de 2018, o TopBuzz foi a origem de quase 34 milhões de páginas vistas em todo o mundo, 36 vezes mais do que em janeiro de 2017”. A metade desse tráfego vinha dos Estados Unidos, mas aumentava em países como o Brasil, França, Alemanha, Itália e Reino Unido.

Os aplicativos de celular agregadores de notícias veem crescer sua cota de mercado: o TopBuzz cresce 158% em 2019 e seu competidor japonês, o SmartNews, 129%. Já mandam tanto tráfego aos veículos de comunicação como o Yahoo, uma origem tradicional.

O TopBuzz prioriza notícias virais de acontecimentos extravagantes com sexo e drogas, além dos interesses de cada usuário enviados pela inteligência artificial. O TopBuzz não cria conteúdo, mas se um dia seu sucesso for ainda maior, como poderemos confiar que oferece links sérios a notícias críticas à China e seus aliados?

A moderação de conteúdo das grandes redes online será um dos assuntos do futuro. O Facebook acaba de anunciar que não comprovará a veracidade do que os políticos disserem. Não quer se envolver na enrascada de castigar Donald Trump e Pedro Sánchez por mentir. Mas e se repetirem com suas palavras um conteúdo falso desmentido pelo Facebook? E se alguém pouco cuidadoso com a verdade anuncia que disputará eleições, o Facebook deixará de submetê-lo aos mesmos padrões do restante?

Será cada vez mais difícil saber por que vemos o que nos mostram e, principalmente, o que deixamos de ver.

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