OCDE reduz projeção para crescimento mundial ao nível “mais fraco” em uma década

Ameaça de um 'Brexit duro', a guerra comercial entre EUA e China, e a fragilidade alemã agravam a desaceleração global

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e o chanceler alemã, Angela Merkel, em agosto em Berlim.
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e o chanceler alemã, Angela Merkel, em agosto em Berlim.HAYOUNG JEON (EFE)

“Obscuro”, “frágil”, “incerto”… adjetivos preocupantes voltam a inundar os textos sobre as perspectivas econômicas dos organismos internacionais. É o caso do novo relatório da OCDE divulgado nesta quinta-feira. A organização com sede em Paris voltou a rever para baixo suas perspectivas de crescimento da economia mundial, em geral, e da europeia em particular. E lança uma advertência que, a esta altura, não deveria deixar ninguém indiferente: se as projeções forem confirmadas, o mundo pode registrar “as taxas de crescimento anuais mais fracas desde a crise financeira” de 2008.

“A economia global enfrenta sérios ventos contrários, e o crescimento lento está se consolidando de uma forma preocupante”, advertiu a economista-chefe da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Laurence Boone. Por isso, disse ela assim que começou a apresentar o relatório, uma das principais mensagens para os Governos é que eles “deveriam aproveitar os juros baixos para que este crescimento lento não se transforme na nova normalidade”.

Porque o perigo —e é muito real, salientou— é que talvez não seja apenas uma etapa passageira, um mero fim de ciclo. “Nosso medo é que estejamos entrando em uma era em que o crescimento fica retido em um nível muito baixo”. E esse é um território “perigoso para o crescimento e, obviamente, para o emprego”, recordou.

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Segundo o último cálculo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a economia global se desacelerará até crescer apenas 2,9% neste ano e 3% em 2020. Em maio, ainda se esperava um crescimento de 3,2% para este ano e de 3,4% no próximo. Ajustes similares vive a zona do euro, para a qual se prevê agora que termine este ano com um crescimento de 1,1% (0,1 ponto percentual a menos que na previsão anterior) e 2020 em um raso 1% (quatro décimos a menos que se previa). O relatório divulgado nesta quinta-feira em Paris é uma avaliação intermediária entre os dois grandes relatórios anuais. Por isso, a OCDE não analisa todos os países desse grupo que reúne economias avançadas.

As perspectivas globais são “cada vez mais frágeis e incertas”, adverte o relatório. O crescimento se mostra “pálido”, e o comércio global está se “contraindo”. Aos motivos que a OCDE já vem enumerando faz tempo —tensões comerciais “reiteradas e cada vez mais profundas”, bem como incerteza nas políticas— soma-se agora uma “forte recuperação” dos preços do petróleo devido às “crescentes tensões geopolíticas e as perturbações no fornecimento de petróleo bruto na Arábia Saudita”.

No último relatório da OCDE antes da data anunciada para o Brexit, em 31 de outubro, o organismo revisa também para baixo a economia britânica, para a qual agora prevê um crescimento de 1% neste ano e 0,9% no próximo.

Um Brexit duro (sem acordo) provocaria um maior enfraquecimento da economia mundial, adverte o organismo, que também aponta riscos como uma “persistente incerteza na Europa” e a ameaça de “um fracasso na política de estímulos para evitar uma desaceleração mais forte na China”, entre outros.

Também um dos motores da Europa até agora, a Alemanha, confirma a desaceleração de sua economia, com uma perspectiva de um magro 0,5% neste ano (2 décimos a menos que se previa em maio) e que só se recuperará em um modestíssimo 0,6% em 2020 (a metade do previsto antes). A França, pelo contrário, mantém suas perspectivas quase intactas (1,3 e 1,2% respectivamente), uma “resiliência relativa” amparada por “reduções tributárias e outras medidas fiscais”.

As receitas, recorda a OCDE uma vez mais, são conhecidas. Pôr fim às tensões comerciais e guerras tarifárias, mais investimento público e apostar mais em políticas fiscais e estruturais em vez de apenas monetárias, entre outros.