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PSG deu razões políticas para forçar Neymar a retornar a Paris

Dirigentes alertaram o jogador que se permanecesse em rebeldia no Brasil não poderiam vendê-lo já que sua desvalorização prejudicaria a reputação do Qatar, proprietário do clube

Neymar, durante um torneio de exibição no Brasil.
Neymar, durante um torneio de exibição no Brasil.Andre Penner (AP)

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A tensão entre Neymar e o PSG chegou a níveis máximos na semana passada. O presidente do clube francês, Nasser Al-Khelaifi, enviou vários intermediários, além de seu diretor esportivo, Leonardo, para aumentar o grau das advertências com o passar dos dias sem que pai do jogador — que também se chama Neymar e é seu empresário — garantisse o retorno de seu filho a Paris. Diante da contínua ameaça de rebeldia, fontes da administração do clube contam que Al-Khelaifi chegou a ameaçar deixar Neymar na geladeira, condenando-o a não jogar até completar seu contrato em 2022. O dirigente não pode tolerar que essa crise prejudique ainda mais a imagem de uma instituição profundamente ligada ao Estado do Qatar.

Ao escutar que em Paris ameaçavam seu filho para que interrompesse imediatamente suas férias brasileiras, Neymar pai respondeu há uma semana dizendo que isso não ficaria assim. Que o PSG não só havia quebrado a promessa feita em 2017 quando convidaram seu filho a fazer parte do projeto na condição de principal estrela, como o traíam tentando vendê-lo a qualquer custo.

Al-Khelaifi passou da decepção à raiva quando, em pleno suspense, um agente muito próximo ao jogador disse a ele que Neymar estava disposto a diminuir seu salário a 24 milhões de euros (101 milhões de reais) líquidos se assinasse pelo Barcelona, como era seu desejo. No PSG, não importa a situação, a estrela recebeu 47 milhões de euros (197 milhões de reais) líquidos por temporada. A ideia de que Neymar preferia receber menos para abandonar o PSG, onde lhe permitiram levar sua vida à margem da disciplina profissional do elenco, enfureceu Al-Khelaifi. Indignado ao ver que o jogador postergava sua confirmação da viagem de retorno, o presidente enviou Leonardo para dizer ao pai que se o menino não se apresentasse na segunda-feira teria o mesmo destino de Rabiot, que o clube deixou na geladeira por insubordinação na temporada passada. Recebendo salário e sem encostar na bola. O dinheiro não era um problema para o PSG. Podia se dar ao luxo de reter Neymar pagando-lhe seu salário mesmo sem jogar.

Os assessores da diretoria do PSG afirmam que, ao saber da ameaça, o pai de Neymar respondeu em tom sarcástico. Disse a Leonardo que não era a mesma coisa deixar Rabiot, que ganha um milhão de euros (4 milhões de reais), na geladeira, e mandar Neymar passar a temporada tranquilamente em casa recebendo 47 milhões enquanto o restante de seus colegas, que com sorte ganham a metade, devem se esforçar para levar a equipe à vitória. O motim era coisa certa. “Em três semanas vocês terão Mbappé pedindo 100 milhões de euros (420 milhões de reais) por ano”, alertou o pai.

Após calcular o desafio, dizem no clube que Al-Khelaifi e Leonardo ficaram desconcertados. Na quarta-feira passada voltaram a ligar para o pai do jogador diminuindo o nível de agressividade. Dessa vez, convidaram os Neymar para viajar a Paris e encontrar o quanto antes a solução que todos procuram: uma venda rápida e politicamente assumível. O PSG informou o pai de que o caráter do clube como símbolo do Estado soberano do Qatar lhe impedia de comprometer gravemente a dignidade da instituição e isso ocorreria caso vendessem Neymar por menos de 100 milhões de euros após tê-lo contratado por 222 milhões (934 milhões de reais) há dois anos. Se permanecesse no Brasil por mais tempo, seu preço, disseram, cairia vertiginosamente até impedir a operação por razões políticas. O Qatar não pode se permitir projetar uma imagem de incompetência.

Ao que parece, de acordo com fontes do clube parisiense, essa foi a única razão que convenceu o pai de Neymar a alterar uma estratégia de rebeldia que, segundo a ortodoxia negociadora, sempre beneficia o jogador. Os Neymar compreenderam que o PSG, para o bem e para o mal, escapa aos códigos do futebol. A passagem de retorno a Paris foi a primeira consequência.