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A rua como chamado fotográfico

Gustavo Minas, uma das principais referências da fotografia de rua no Brasil, acaba de lançar seu primeiro livro 'Maximum Shadow, Minimal Light', onde reúne um conjunto de poderosa excelência fotográfica sobre a vida do cidadão comum nos centros urbanos brasileiros

Homem refletido em vidro de carro em encontro do Clube do Opala. Brasília, 2017.
Homem refletido em vidro de carro em encontro do Clube do Opala. Brasília, 2017.Gustavo Minas

Que legado deixamos para a posteridade no decorrer de nossas vidas? Quais memórias e sentimentos evocamos nas pessoas atravessadas e influenciadas pelo conjunto do nosso trabalho? A fotografia é, e provavelmente sempre será, uma das mais importantes ferramentas de documentação do tempo presente, um registro histórico fundamental para entendermos o passado que projeta seus tentáculos sobre o contemporâneo. Nesse sentido, a produção artística individual pode ser vista a partir de uma linha do tempo na qual alguns eventos representam momentos decisivos de ruptura ou transformações profundas na trajetória do(a) autor(a). Gustavo Minas é, há alguns anos, uma das principais referências da fotografia de rua no Brasil e acaba de lançar, no último dia 23 de maio, seu primeiro livro: Maximum Shadow, Minimal Light, na galeria Freelen’s em Hamburgo, Alemanha. A publicação deve figurar entre os melhores livros nacionais de fotografia da década e reúne um conjunto de poderosa excelência fotográfica sobre a vida do cidadão comum nos centros urbanos brasileiros. Editado pelo também fotógrafo Loïs Lammerhuber, que teve passagens pelo Brasil, o livro apresenta uma narrativa fragmentada na qual cada imagem revela um universo singular surpreendente que nos fornece preciosas pistas a cerca da formação da identidade urbana brasileira atual.

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Os fotogramas de Gustavo são dotados de composições sofisticadas, com alto grau de complexidade, que exploram visualmente os inúmeros reflexos da arquitetura cotidiana e, assim, traçam um paralelo com a multifacetada identidade do povo brasileiro, cuja pluralidade se expressa nas janelas, fragmentos de espelhos e reflexos que circundam as imagens. Permitem ao leitor e à leitora um mergulho nas particularidades existenciais do cidadão comum. As fotografias vão muito além do padrão estético que estamos acostumados a absorver no bombardeio imagético lançado pela indústria cultural de massa e rompem com a trivialidade da composição. “Uso muito os reflexos para mostrar algo que está além do ponto de vista da câmera: o que está atrás, ao lado, na diagonal para criar essa confusão visual. Eles dão conta de descrever as várias camadas e complexidades que acontecem numa cidade grande para além de uma foto chapada. Além de me agradar esteticamente também tem este propósito da câmera captar quase 360 graus da realidade”, explica Minas.

Minas é um operário incansável da imagem, aproveita cada entardecer como uma oportunidade única para explorar novos lugares e cantos escondidos da cidade banhados pelo amarelo solar

A rua é um chamado fotográfico, um convite a transitar pela realidade para documentar as transformações do nosso tempo. “Não consigo ficar muito tempo dentro de casa, sempre sinto uma necessidade de sair, especialmente naquela luz dourada do começo e do final do dia”. Uma boa fotografia, como a produzida por Gustavo, é consequência de um trabalho árduo e dedicado e, neste momento, é coroado com uma publicação dourada como a luz da manhã exploradas em sua obra. Minas é um operário incansável da imagem, aproveita cada entardecer como uma oportunidade única para explorar novos lugares e cantos escondidos da cidade banhados pelo amarelo solar. Para ele: “As coisas simplesmente brilham de uma maneira diferente de acordo com a luz, as cores mudam e até objetos banais do dia a dia se tornam interessantes para mim. E, principalmente, quando ela ilumina as pessoas, a luz tem a capacidade de elevar cenas cotidianas a um outro nível, como se os personagens nas fotos adquirissem uma certa "aura" cinematográfica, difícil de descrever em palavras. Além disso, ela me ajuda a organizar o quadro ao ter somente certas partes da imagem iluminadas, elimino o que é ruído desnecessário na imagem, deixando-o na sombra e dessa maneira hierarquizo o quadro: o que é mais importante no enredo está mais iluminado, e às vezes há cenas paralelas secundárias numa meia-sombra, e o que não me interessa fica na penumbra”. A entrevista revela o trabalho artesanal do fotógrafo, que acessa um raciocínio preciso no momento de edição das fotos, já que as decisões durante o ato fotográfico são intuitivas. “Se pararmos para pensar perdemos o instante decisivo daquela foto”, sintetiza o fotógrafo.

Se os absurdos que cercam a realidade brasileira parecem torná-la um filme de ficção, as imagens de Gustavo nos aterram neste processo exaustivo de compreensão do país e nos oferecem um novo olhar para o cidadão comum

“Estar na rua é se relacionar, não só através da conversa, e para mim menos porque sou tímido, mas sim de nos vermos nas outras pessoas e estabelecermos uma empatia. Funciona para mim como uma terapia, uma cura, uma limpeza da mente na qual avançamos pela empatia”, reflete o fotógrafo. Podemos compreender a vida nas grandes metrópoles a partir do olhar dos movimentos culturais cíclicos de costumes e hábitos sociais, que ficam datados em um determinado período histórico. Sendo assim, a fotografia, enquanto documentação imagética da vida cotidiana, captura e revela certas características comuns, um recorte de tempo que nos fornece ricos elementos de compreensão da sociedade. “Boa parte do meu trabalho fala de uma vida entediante do cidadão comum da cidade grande. Tento não me limitar a isso, mas sim, a maior parte da fotografia documental brasileira se concentra nas questões sociais e na estética da pobreza. Foco nas pessoas que estão logo acima dessa camada social: pessoas que trabalham muito, que ralam, pegam ônibus, se lascam para chegar no trabalho e voltam cansadas na rotina das cidades”, resume Minas, que em 2017 ganhou o prêmio POY LATAM na categoria O Futuro das Cidades, com seu trabalho extenso na rodoviária de Brasília. “Quando me mudei para Brasília logo descobri que ali era uma mina de ouro no caos: vendedores ambulantes, gente fumando em baixo das marquises, vendendo bebida ilegalmente e outras ações que quebravam aquela ordem chata da Esplanada”, diz Gustavo, que crê na valorização da fotografia de rua enquanto documentação histórica.

Se os absurdos que cercam a realidade brasileira parecem torná-la um filme de ficção, as imagens de Gustavo nos aterram neste processo exaustivo de compreensão do país e nos oferecem um novo olhar para o cidadão comum, que, assim como Gustavo, trabalham bravamente todos os dias. “Consigo fazer algo que me interessa muito na fotografia de rua que é sugerir algumas ficções e provocar questionamentos como: o que é a realidade?”, provoca o fotógrafo. Como diz o mestre Carlos Moreira: “Fotografia é ficção e a criação na fotografia é a transformação do real, do dia a dia concreto, em algo que diz respeito ao interior do fotógrafo(a) e sua intimidade”. Que a dedicação valente de Gustavo Minas possa inspirar novos trabalhos autorais dotados de intimidade e familiaridade com os temas abordados.

Para saber mais sobre Gustavo Minas: https://www.instagram.com/gustavominas/

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