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Neymar, um deus confuso

Transformamos os jogadores em deuses cada vez mais inalcançáveis e, como Neymar, afastados da realidade e dando explicações à imprensa diante do estupor geral

Neymar cai na partida entre Brasil e Catar.
Neymar cai na partida entre Brasil e Catar.Buda Mendes (Getty)

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Neymar: O talento pop

“Os heróis são estratégicos e o que é estratégico não tem preço”. Essa visão de Florentino Pérez foi criticada por um simples motivo: teve razão antes do tempo. Como o grande empresário que é, imaginou o futuro e acertou em cheio. Essa visão hoje é compartilhada por muitos clubes que iniciaram uma procura frenética por heróis para não ficar para trás na concorrência planetária. O mercado enlouqueceu quando o PSG comprou Neymar por um valor absurdo, o talento pop por excelência do futebol moderno: habilidoso, veloz e imaginativo dentro de campo; divertido, frívolo e hedonista no restante do tempo. Além disso, tem um pai com ideias claras: dinheiro e fama antes do futebol. Mais moderno, impossível. Enquanto o PSG, com aquele golpe no mercado, levou o futebol a uma nova dimensão industrial, Neymar o levou a uma dimensão moral desconhecida.

A fábrica de deuses

Ao pagar sua cláusula, Neymar se esqueceu de um clube que havia comprometido até sua honestidade para contratá-lo, da torcida que o adotou, dos colegas que o trataram como um amigo e até do futebol como compromisso vocacional. O PSG e Neymar tinham a mesma ambição: ocupar o maior espaço possível. E o conseguiram fazendo um barulho descomunal, desses que deixam marca. Dinheiro e barulho são os novos pontos cruciais que mobilizam essa indústria. O futebol, que entendíamos como uma espécie de lazer existencial, ganhou uma importância ridícula que abarca do fascínio pela nova namorada do craque da vez à representação (quase de revistas em quadrinhos) da luta entre o bem e mal. A infantilização da sociedade, o território conquistado pelo entretenimento, o triunfo da emoção sobre a razão... Tudo contribui à sensação de que tudo é futebol e de que os jogadores são impunes.

E o torcedor?

Noto uma sensação de tédio nos torcedores mais civilizados (a maioria, quando a paixão lhes deixa pensar). O futebol próximo de sempre, em que os jogadores defendem o orgulho do torcedor e em que nosso time é amado como um amigo que nos acompanha durante a vida toda, parece ter perdido sua ingenuidade. Não é que Neymar seja o único culpado dessa mudança, mas toda transformação precisa de um símbolo e nada define melhor esse tempo do que uma quantia: 970 milhões de reais. Isso enfraquece o futebol? Como fenômeno, claro que não. A humanização que está perdendo é compensada pela força do marketing e pela imparável inflação refletida pelo mercado atualmente. No caminho transformamos os jogadores em deuses cada dia mais inalcançáveis e, como Neymar, afastados da realidade e dando explicações à imprensa diante do estupor geral.

Culpados da própria indignação

O futebol é um bem espiritual que é bom não subestimar, entre outras coisas porque essa é a base do negócio. A força da identidade e o ídolo como personalização de um sentimento compartilhado emociona qualquer um. Não sei se os chineses, mas sim os torcedores de toda uma vida como demonstrou a torcida do Liverpool na final da Champions League. Desde 2017 Neymar desabou como jogador e periga como pessoa. Mas é um pioneiro do jogador atual e não lhe cabe a palavra “culpado” porque todos nós somos responsáveis. Transformar o irrelevante em substancial afasta muitos jogadores da realidade e acabará transformando o futebol em um espetáculo tão frio como uma partida de PlayStation. Enquanto isso, todos nós aplaudiremos fascinados os deuses ao mesmo tempo em que criticaremos quando se comportarem como tal. Uma lógica que parece coerente com a era da pós-verdade; isso é, da consagração da mentira.