COMÉRCIO

Ameaça de tarifas por parte dos EUA aproxima economia mexicana do abismo

Anúncio de tarifas de 5% provoca incerteza no setor privado. O maior risco é uma queda no investimento e na produção industrial, que deixaria o país em recessão

Uma fila de caminhões na fronteira do México com EUA em abril.
Uma fila de caminhões na fronteira do México com EUA em abril.Christian Torres (AP)

O anúncio do aumento das tarifas por parte dos Estados Unidos coloca o México diante de um precipício econômico de consequências imprevisíveis. A medida, anunciada na quinta-feira pelo presidente norte-americano Donald Trump para obrigar o vizinho a deter a imigração irregular, caiu como "uma ducha gelada", nas palavras de Jesús Seade, o braço direito do presidente do México, Andrés Manuel López Obrador no processo de negociação do novo tratado comercial norte-americano (T-MEC). Além disso, surge em um momento especialmente crítico e inesperado. Exatamente quando a ratificação do mencionado acordo abre caminho nas câmaras legislativas dos EUA, México e Canadá, Trump age abruptamente outra vez, acrescentando pressão sobre uma economia, a mexicana, que sofre com um eterno baixo crescimento, níveis modestos de investimento e um declínio sustentado na produção industrial.

A decisão de Trump aponta para o setor da economia mexicana que é tanto sua principal força quanto seu maior calcanhar de Aquiles. As exportações representam 32% do PIB e os EUA são seu principal destino, recebendo 73% das vendas totais e 81% das exportações não petrolíferas. Somente no setor automobilístico, o mais importante no comércio bilateral, as exportações mexicanas para o vizinho do norte chegaram a 93 bilhões de dólares (cerca de 365 bilhões de reais) em 2018. O golpe se abate, além disso, quando a expansão econômica não consegue levantar voo: o Banco do México reduziu a previsão de crescimento do PIB deste ano e a coloca entre 0,8% e 1,6%. A produção industrial seguiu uma tendência similar, caindo 1,3% em março em relação a fevereiro.

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Nesse contexto delicado, o impacto é difícil de prever e pode ir, segundo os especialistas, de um mero aumento da incerteza no melhor cenário a uma recessão econômica no pior. "As tarifas afetariam o setor mais importante da economia, a indústria, em um momento em que a atividade está tendo um comportamento de queda", diz o economista Ignacio Martínez, professor da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). O calendário de aumentos progressivos das tarifas –com uma subida de 5% ao mês a partir de 10 de junho, até alcançar 25% em outubro– é uma espécie de corrida contra o tempo para o México: quanto mais tempo levar para chegar a um acordo, mais sua economia sofrerá.

O primeiro cenário, o de menor impacto, é a não entrada em vigor das tarifas. Apesar da pequena margem para negociar –apenas cinco dias úteis–, os especialistas concordam que é o mais provável. O representante do setor privado nas negociações passadas do T-MEC, Moisés Kallach, está confiante de que a aposta não é mais do que um blefe: "As posições radicais de Trump não são necessariamente posições de ação, mas de negociação". Além disso, os laços que unem os dois países fazem com que qualquer imposição tenha um efeito bumerangue. "O México arcaria com a maior parte dos prejuízos, mas nos EUA não seria desprezível. Mais de 40% das exportações são de subsidiárias de empresas norte-americanas", diz o economista Héctor Villarreal, diretor-geral do Centro de Pesquisa Econômica e Orçamentária. (CEIP).

Mas mesmo que Trump acabe não apertando o gatilho, o dano do mero anúncio pode ser importante. Uma análise do banco BBVA indica a persistência da incerteza e da desconfiança no marco regulatório do T-MEC. "Os investidores saberiam que as restrições comerciais podem surgir a qualquer momento e por qualquer motivo", diz o documento, publicado na sexta-feira.

Se a tarifa de 5% entrar em vigor em junho, o país latino-americano enfrentaria um segundo cenário mais complexo. No curto prazo, o impacto pode se traduzir em uma redução modesta do PIB –um décimo no máximo, acrescenta Villarreal. A depreciação do peso em relação ao dólar pode absorver o aumento das tarifas e amortecer o impacto, pelo menos inicialmente.

No entanto, os especialistas apontam para o agravamento do clima de desconfiança que já existe. Segundo a pesquisa de expectativas econômicas publicada mensalmente pelo Banco do México, 16% dos analistas consultados em abril acreditavam que o clima de negócios melhoraria, uma queda de oito pontos em relação a março. Villarreal aponta a confiança dos investidores como o principal problema no curto prazo. "Uma tarifa de 5% não é suficientemente grande para fazer a economia descarrilar, mas o grande problema é a incerteza que provoca. Os níveis de investimento são muito baixos e essa mensagem pode paralisá-los ainda mais", comenta.

A partir de junho, as pressões provocadas pelas tarifas podem disparar. Se for levada adiante a programação definida por Trump até chegar aos 25% em outubro, Ignacio Martínez avalia o prejuízo à economia mexicana em 3 bilhões de dólares somente nas perdas nas exportações de insumos e componentes. Além disso, esse impacto acabaria chegando ao bolso dos mexicanos na forma de inflação. "As empresas terão de aumentar os preços e, indiretamente, isso atingirá a cesta básica, principalmente vestuário, calçados e alimentos. O produtor transferirá essa tarifa a outros insumos que vende no mercado interno", indica.

Neste terceiro cenário mais catastrófico, que os especialistas consideram pouco provável, a economia pode entrar em recessão e levar as empresas a repensarem sua presença no México, de acordo com Villarreal. Em relação à inflação, além disso, ocorreria um efeito de segunda ordem: com a queda do peso, subiria o valor dos muitos produtos básicos da cesta mexicana que são importados dos EUA.

Nesse panorama —potencialmente de pesadelo, parafraseando a já famosa frase do ex-governador do Banco Central do México, Agustín Carstens, antes da chegada de Trump à Casa Branca—, o Governo do México apostou até agora na contenção e em agir rápido antes da entrada em vigor da tarifa. López Obrador enviou uma carta ao seu colega norte-americano para pedir "diálogo" e seu ministro das Relações Exteriores, Marcelo Ebrard, viajou na sexta-feira a Washington para negociar uma saída para a profunda crise aberta nas relações bilaterais.

Responder com um aumento similar de tarifas "seria ir à selva", como disse o negociador Jesús Seade na quinta-feira. No entanto, se a ameaça for cumprida, o alto funcionário admite que o México teria de responder de forma "enérgica". Denunciar os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio é uma opção, mas há outras. Ignacio Martínez, da UNAM, aposta em uma taxação de 15% nos setores e regiões onde se encontram os maiores defensores de Trump para assim aumentar a pressão e que a Casa Branca afrouxe a corda. Embora, como quase sempre acontece no comércio, essa decisão seja também uma faca de dois gumes.