Eleições na Índia

Índia dá vitória à tradição e ao nacionalismo hindu nas urnas

Primeiro-ministro Narendra Modi renova o mandato, apesar das críticas à sua gestão econômica, e consolida um papel de líder global

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi (no centro), comemora sua vitória nas eleições gerais
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi (no centro), comemora sua vitória nas eleições gerais (REuters)

Pela primeira vez desde 1984, um partido renova pela segunda vez consecutiva sua maioria absoluta na Índia. Os resultados provisórios mostram que o Partido Bharatiya Janata (BJP) arrasou nas eleições gerais, sem necessidade de coalizões como em 2014, quando seu líder Narendra Modi chegou ao poder. Após uma campanha focada no nacionalismo e na tradição, o BJP conseguiu reverter as críticas sobre sua má gestão econômica e o crescente supremacismo hindu, essa maré laranja que nesta quinta-feira, 23, tingiu boa parte do país de cor e júbilo.

Rahul Gandhi, líder do opositor Partido do Congresso, reconheceu a vitória de Modi e disse que continuará lutando contra o BJP, mas o silêncio taciturno que envolvia a sede da sua histórica formação, companheira de viagem da Índia desde a independência, em 1947, contrastava com o barulho de rojões e tambores na sede do BJP, onde simpatizantes e quadros de médio escalão davam rédea solta à sua alegria com um nível de decibéis sensivelmente superior ao habitual em Déli, o que é toda uma façanha.

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“Modi é o líder mais importante da Índia desde os tempos da [primeira-ministra] Indira Gandhi. Sua vitória é a de toda a Índia, pois ele se esforça por todos, independentemente de religiões ou castas. Os mais pobres lhe agradeceram nas urnas por seu desvelo. Porque esta é uma vitória em chave doméstica, não tem nada a ver com a ameaça do Paquistão”, opinou aos gritos Amit Gupta, militante de base, entre grupos que dançavam com frenesi.

A leitura interna do triunfo depois de uma campanha que desde fevereiro só foi conjugada em chave exterior – depois de um atentado na Caxemira que deixou mais de 40 mortos, atribuído a um grupo apoiado pelo Paquistão – era o denominador comum no quartel-general do BJP. “Modi demonstrou ser bom para a Índia porque graças a ele o país cresce e se desenvolve a um bom ritmo. Com suas reformas, e sua luta contra a corrupção, começamos a ser um país moderno e podemos competir no mundo. Só Modi pode seguir esse caminho”, argumentou Sanjay Divali, responsável por um distrito em Déli.

Desaceleração econômica

Exaustos pelo calor e pelo ardor nacional, nenhum dos presentes parecia dar importância aos sinais de desaceleração econômica, como a retração no consumo dos 600 milhões de indianos da ampla classe média, que nos últimos trimestres deixaram de comprar carros e motos, segundo o balanço setorial, ou os 500.000 apartamentos postos à venda só na região de Déli, enquanto 1,2 milhão de jovens se incorporam a cada mês a um mercado trabalhista exânime. “A economia indiana está parando. Mesmo uma virtude como uma baixa inflação durante os últimos nove meses é indicadora não de boa saúde, mas sim de recessão”, opina o analista Gautam Mukerjee.

Contrariando a miragem esperançosa dos críticos, que respondem a um retrato-falado muito determinado – meios intelectuais, urbanos, cosmopolitas –, triunfou a Índia real: a maioria de hindus não necessariamente radicais, mas apegados às tradições, que não costumam aparecer na Índia dos cartazes publicitários e que estão decididos a superar as barreiras de classe e de casta, embora estas permeiem sua existência cotidiana. Como disse o próprio Modi ao discursar na sede de seu partido no começo da noite, para receber o pertinente banho de massas: “Agora só há duas castas: a dos pobres e a dos que tentam tirá-los da pobreza”.

O triunfo do líder forte, um pouco messiânico (e paternalista), em detrimento de qualquer argumento ponderado, é uma tendência global, de Trump a Bolsonaro e Putin, mas a segunda vitória de Modi – um autêntico tsuNaMo, a hashtag que viralizou nesta quinta com o acrônimo do seu nome – ameaça se tornar um rolo-compressor num país cada vez mais fraturado. Talvez por isso, o próprio primeiro-ministro, muito ativo nas redes sociais e principal beneficiário de uma maquinaria de propaganda virtual que 50.000 pessoas se encarregam de alimentar as 24 horas do dia, tuitou ao conhecer os primeiros resultados: “Juntos construiremos uma Índia forte e inclusiva. A Índia volta a ganhar!”.

Dúvidas sobre a promessa de unidade

A promessa de unidade de Modi, entretanto, parece a seus críticos algo dito da boca para fora, pois inclusão é uma palavra desconhecida para conspícuos representantes de seu partido – como a polêmica Pragya Thakur, candidata do BJP por Bophal, que conseguiu desalojar de seu assento parlamentar um dos barões do Partido Congresso, apesar de ser acusada de planejar um ataque contra muçulmanos que deixou vários mortos em 2006, e de só ter evitado a prisão por motivos de saúde. Thakur, uma asceta envolta em túnicas laranja – a cor do BJP e do hinduísmo –, esteve a ponto de dinamitar a reta final da campanha ao exaltar “como patriota” a figura do assassino de Mahatma Gandhi, um herói nacional inconteste para todos os indianos, incluindo, teoricamente, os seguidores do BJP. Inflamar as massas, mesmo à custa da memória de Gandhi, demonstrou igualmente gerar um bom rendimento eleitoral.

Como muitos outros líderes mundiais, o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, não tardou em felicitar seu homólogo indiano, mas o fato é que nesta quinta ninguém se lembrava do inimigo público número um. “É um país pequeno [quase 200 milhões de habitantes], não nos duraria nem um round”, dizia, cheio de valentia, Amitav Singh, um jovem com a cara pintada de cor açafrão. Mais sereno, Syed Jafar Islam, um dos porta-vozes nacionais do BJP, relativizava o resultado eleitoral: “Não se trata de uma vitória de um partido sobre outros, e sim do povo da Índia”.

“Este grande triunfo fortalece Modi e o empurra decididamente a avançar pelo caminho das reformas que, apesar das dificuldades que acarretam, precisam ser empreendidas em nome do bem-estar de todos: reforma fiscal, dos gastos públicos, do mercado de trabalho”, prosseguiu o porta-voz. “Com um mandato forte, Modi consolida seu papel de líder global, não só para vender a Índia no mundo, mas também como sócio na luta contra o terrorismo, que é uma luta global, e também frente ao Paquistão.” Como petardo final na barulheira, surgiu finalmente a palavra que todos conjuram, mas ninguém se atrevia a pronunciar, para não aguar – ou quem sabe não avivar ainda mais – os ânimos.

A bolsa bate recorde

Com setores da economia muito afetados pela desmonetarização e a aplicação de um novo imposto sobre bens e serviços, a Bolsa indiana interpretou a vitória de Modi também em chave interna, com uma abertura de sessão de seus dois índices acima dos 40.000 e 12.000 pontos, um recorde histórico. A rupia se valorizou frente ao dólar, embora a guerra comercial entre os EUA e a China possa fazê-la tremer a qualquer momento “se Modi continuar isolando o país como fez durante seu primeiro mandato”, afirma o professor de Economia Arun Kumar.

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