ENTREVISTA | Luiz Inácio Lula da Silva

“Eu leio, vejo muitos filmes, muitas aulas. Quando eu sair daqui, sairei doutor”

Em sua primeira entrevista desde que foi preso, Lula fala sobre sua rotina na superintendência da PF. "Não chamo de cela, mas de sala"

O ex-presidente com o agente da PF responsável por sua carceragem.
O ex-presidente com o agente da PF responsável por sua carceragem.ISABELLA LANAVE

Preso há pouco mais de um ano em uma sala montada especialmente para ele na carceragem da Polícia Federal, o ex-presidente Lula conta que sua rotina envolve assistir a cursos por meio de pen drives que recebe das visitas. Também afirma que curte a solidão tentando desenvolver sua espiritualidade. Leia os trechos abaixo.

Pergunta. Queria saber como é a rotina do senhor. Passa muitos momentos sozinho?

Resposta. Passo o tempo inteiro sozinho.

P. E como é essa coisa de o tempo não passar?

R. Eu leio. Eu vejo pen drive que o pessoal me manda. Assisto a muitos filmes, muitas séries, muitos discursos, muitas aulas. Por exemplo, fiz na minha cela —trato como sala por que é melhor, não como cela— um curso sobre Canudos. O canal Paz e Bem tem um curso recontando as histórias, mostrando as mentiras que Euclides da Cunha contou sobre Canudos. A história não é aquela. Fiz um curso de oito aulas. Sugeri ao Mauro Lopes, do canal Paz e Bem, um curso com o retrato do Brasil, sobre todas as lutas sociais do país. E agora acho que toda segunda-feira tem uma aula. Eu espero juntar umas quatro ou cinco, recebo um pen drive, vou assistindo e vou me aprimorando. Quando eu sair daqui, sairei doutor.

P. Na sua rotina, o senhor lava sua roupa, lava suas próprias coisas? A prisão mudou o senhor em alguma coisa?

R. Eu sempre tive vontade de morar sozinho. Quando fiquei viúvo a primeira vez, em 1971, eu fiquei bravo a minha mãe porque meu sonho era alugar uma kitnet e morar sozinho. Minha mãe morava com a minha irmã, ela abandonou a minha irmã, foi na minha casa e exigiu que eu alugasse uma casa para ela morar comigo. E eu morei com a minha mãe por três anos e meio. Sabe aquele sonho que nunca tive? Jogar a cueca para qualquer lado, a camiseta para qualquer lado, a meia para qualquer lado. Não ter que prestar conta, não ter ninguém atrás de mim. Colhe, recolhe, põe na gaveta, põe no chuveiro. Hoje, eu faço isso. Mas eu preencho meu tempo vendo muita coisa. Não lavo as minhas roupas, mando para o meu pessoal lavar. Mas eu curto a solidão tentando aprender e mentalizar minha espiritualidade. Tentar gostar mais do ser humano. Ficar um pouco mais humano. Acho que vou sair daqui melhor do que entrei, com menos raiva das pessoas. Vou sair um cidadão bom daqui. E motivado para brigar. Estou doido para fazer uma caravana.

P. Tem um grupo de militantes aí na porta que diz bom dia, boa tarde e boa noite para o senhor todos os dias. O senhor escuta esse grito? Como é para o senhor?

R. Escuto todo santo dia. Quando tem atividade, que eles colocam um carro de som um pouquinho melhor, eu escuto o discurso das 9h as 21h. Eu sinceramente não sei como um dia eu vou poder agradecer essa gente. Tem gente que está aqui exatamente desde o dia que eu cheguei aqui. Vai para a casa, lava a roupa e volta. Então eu serei eternamente grato. Não sei se isso já aconteceu alguma vez na história com alguém, mas eu não sei o que fazer para agradecer. Já disse para todos que certamente a polícia tem as suas regras, o meu pessoal tem as suas regras, mas quando eu sair daqui quero sair a pé e ir lá no meio deles. A primeira cachaça eu quero tomar com eles. E brindar.