A dura declaração de Lady Gaga no julgamento de Kesha contra seu produtor, por agressão sexual

“Quando a vi naquele quarto foi como algo que tivesse acontecido comigo, e meu coração soube que estava dizendo a verdade. Eu acredito nela”, disse a cantora em depoimento de 2017

Lady Gaga (esquerda), em 2019, e Kesha (direita), em 2018.
Lady Gaga (esquerda), em 2019, e Kesha (direita), em 2018. (CORDON PRESS)

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A interminável batalha legal que Kesha iniciou há quase cinco anos contra seu produtor ––Dr. Luke, a quem acusa de abusos sexuais e psicológicos– tem agora um novo capítulo com Lady Gaga como protagonista. Nesta terça-feira veio à luz o depoimento que a artista deu em favor de sua colega de profissão no último julgamento, realizado em setembro de 2017. De acordo com o portal norte-americano The Blast, Gaga lutou incansavelmente contra os advogados de Lukasz Gottwald, o nome completo do ex-produtor musical de Kesha.

A cantora e atriz explicou que conheceu Kesha pessoalmente em um quarto traseiro do estúdio de gravação que Gottwald tinha em sua casa e que, embora ela não se lembrasse do conteúdo exato da conversa que mantiveram, não se esquece de dois detalhes: a imensa sensação de tristeza e depressão que a jovem transmitia e o fato de que naquele momento usava apenas a roupa de baixo. "Eu formulei uma opinião muito clara sobre ele e sua reputação quando vi aquela garota em um quarto dos fundos. Essa era a imagem de ... algo que tinha acontecido comigo mesmo, e eu senti e soube no meu coração que [Kesha] estava dizendo a verdade, e acredito nela", afirmou Gaga.

O momento mais tenso que pode ser lido na transcrição ocorreu quando o advogado de Gottwald perguntou diretamente à estrela se ela possuía alguma informação ou qualquer conhecimento pessoal que comprovasse as agressões que Kesha teria sofrido. "Ela me disse. E a gente sabe que quando os homens estupram as mulheres não costumam convidar outras pessoas para assistir, e quando isso acontece em um contexto como o do nosso setor, é mantido em segredo, e esse secretismo é agravado por contratos e dinâmicas de poder manipuladores nos quais, na verdade, se inclui esta situação em que nos encontramos", respondeu a artista. "Eu tenho informação comprovada sobre sua depressão, sua necessidade de apoio e carinho. Tenho informações comprovadas sobre a espiral em que vi aquela garota se afundar", acrescentou.

"Estou informada de maneira inteligente sobre esse problema. Aquela garota sofreu um trauma muito grave e ainda está no meio dele. E todos vocês são parte disso", disse Gaga, que perdeu a calma quando os advogados levantaram a possibilidade de que se tratasse de uma falsa denúncia. “Por que ela iria contar a todo mundo que aconteceu isso com ela? Por quê? Você sabe o que os sobreviventes enfrentam? Você sabe o que significa contar aos outros? Nem pense em demonstrar espanto. Você deveria sentir vergonha de si mesmo", respondeu, irritada, a cantora.

Lady Gaga (esquerda), em 2019, e Kesha (direita), em 2018.
Lady Gaga (esquerda), em 2019, e Kesha (direita), em 2018.CORDON PRESS (Instagram)

O depoimento de Gaga é muito significativo, pois a intérprete de Nasce uma Estrela se tornou uma autêntica porta-voz das vítimas de abusos depois de confessar em 2014 que foi estuprada aos 19 anos de idade. Desde então, também é considerada um exemplo de sobrevivência, porque dois anos depois, em 2016, reconheceu que ainda tem sequelas dessa experiência, contra as quais luta todos os dias. Além disso, em outubro, a artista declarou que seu agressor pertence à indústria do entretenimento, embora nunca tenha revelado seu nome.

Ao longo destes anos Kesha também recebeu apoio de outras colegas da música. Taylor Swift doou 250.000 dólares (cerca de 900.000 reais) depois que a intérprete de Tik Tok perdeu o primeiro julgamento contra seu produtor e sua gravadora na época, a Sony. Essa perda lhe causou sérios danos econômicos à artista e a impediu de ser liberada do contrato com a Sony e assinar com outro selo discográfico. Uma situação que durou até abril de 2017, quando Dr. Luke deixou de ser o CEO da Kemosabe Records, pertencente à Sony Music, e então Kesha se livrou dessas amarras.

Adele, Miley Cyrus, Demi Lovato, Ariana Grande, Lorde e Kelly Clarkson foram outras artistas que fizeram parte da divulgação da controvérsia, sobre a qual a ONU Mulheres chegou a se pronunciar. Além de abusos sexuais e psicológicos, Kesha também acusou seu então produtor musical de tê-la forçado a usar drogas e lhe ter provocado uma bulimia nervosa.

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