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Ação do Exército antes de explosão que deixou mais de 80 mortos no México é questionada

Primeiro grupo de soldados detectou vazamento mais de quatro horas antes do incidente Governo defende o Exército, mas admitiu que os protocolos de ação serão aperfeiçoados

Jacobo García
Soldados protegem a área da explosão em Tlahuelilpan, no estado de Hidalgo (México)
Soldados protegem a área da explosão em Tlahuelilpan, no estado de Hidalgo (México)HENRY ROMERO (REUTERS)

O secretário de Segurança, Alfonso Durazo confirmou neste domingo, 20, que o Exército mexicano tomou conhecimento da existência de um vazamento de combustível resultado de um roubo às 14h30 (18h30 em Brasília) de sexta-feira, 18, quase quatro horas e meia antes da explosão em Tlahuelilpan, que causou a morte de pelo menos 85 pessoas e deixou 58 feridos.

Num primeiro momento, as autoridades disseram que tomaram conhecimento do roubo às 17 horas. Dois repórteres do EL PAÍS constataram no dia seguinte à tragédia, por meio de soldados que falaram sob condição de anonimato, que o primeiro grupo de soldados detectou o vazamento por volta das 14h. Segundo a cronologia que Durazo apresentou neste domingo, “na sexta-feira, às 14h30, a Sedena [Secretaria de Defesa] detectou um roubo. Às 15h45, um grupo de moradores se aglomerou e o pessoal militar mandou o grupo se retirar (...). Às 17 horas, chegou o pessoal da gendarmaria. Às 17h30 chegaram reforços da Sedena, que insistiram no chamado aos moradores a se retirar (...) e às 18h52 os bombeiros de Tlahuelilpan receberam informação sobre o incêndio por causa do roubo de combustível”, disse Durazo.

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O general Luis Sandoval esclareceu mais tarde que os primeiros a identificar o roubo foram 25 militares, mas que “inicialmente saía muito pouco combustível”, e que, em seguida, o jato começou a aumentar, atingindo seis ou sete metros de altura. Eles foram os primeiros que quiseram conter as pessoas. O militar ainda disse que às 17h, quase duas horas antes da explosão, chegaram soldados para substituir os colegas e novos efetivos da gendarmaria e da polícia federal – cerca de 60 homens, detalha o general Sandoval –, contingente claramente insuficiente para conter os moradores que se concentravam ao lado do vazamento e que, segundo estimativas das autoridades, oscilavam entre 600 e 800 pessoas.

Na entrevista coletiva concedida na manhã de domingo, o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, admitiu que os protocolos de ação do Exército serão melhorados e aperfeiçoados depois da explosão do duto de Hidalgo, e, ao mesmo tempo, defendeu o papel da força pública, sobre a qual insistiu: “Agiu muito bem”.

“Existe um protocolo, que foi aplicado, embora não vamos deixar de melhorá-lo e aperfeiçoá-lo, mas não quero que se pense que se agiu mal”, disse em referência aos policiais e soldados que localizaram o vazamento várias horas antes da explosão e observaram a cena à distância. “Fizeram o que tinham de fazer (...) Seria mais complicado se tivessem tentado impedir a multidão de fazer o que estava fazendo. Todo o meu apoio ao Exército. Há quem sugira que se deveria reprimir. Isso não, pois é preciso resolver as coisas de fundo”, insistiu. Segundo López Obrador, “essas práticas serão banidas com o apoio das pessoas e com opções (programas sociais)”.

Segundo o presidente, a catástrofe se deveu ao fato de que na cidade se acreditava que o roubo de combustível não tinha nenhum risco porque as pessoas estavam muito familiarizadas com a prática, que “cavaram fossas perto dos dutos para onde desviaram o combustível”, que em seguida era envasado para o transporte, disse para explicar a naturalidade com que a população agiu.

Sobre a investigação, o procurador-geral mexicano, Alejandro Gertz, reconheceu a dificuldade porque a explosão foi de tal magnitude “que só sobrou o terreno”, razão pela qual serão determinantes os depoimentos dos moradores. Segundo o procurador, a fricção das roupas da massa de gente ao redor do poderoso jato de gasolina pode ter provocado a faísca que fez tudo voar pelos ares. No entanto, esclareceu que “trata-se apenas de uma hipótese de mais de um dos peritos”. De acordo com Gertz, que está no cargo há apenas 48 horas, até o momento não foram detectadas armas entre os moradores e a investigação será concentrada “na perseguição daqueles que causaram a tragédia e não em colocar as comunidades como vítimas”.

Roubos de gasolina

A explosão na tarde de sexta-feira de um duto de gasolina em Hidalgo que estava sendo sugado por algo entre 600 a 800 pessoas serviu para mostrar o aspecto mais cruel do roubo de gasolina e para que López Obrador insistisse que não mudará em nada sua estratégia anticorrupção.

Desde a catástrofe, na tarde de sexta-feira, o presidente deu três entrevistas coletivas de quase uma hora e meia cada uma; esperava-se que desse outra na tarde de domingo e na segunda-feira, sua tradicional coletiva das sete da manhã. Em todas elas, acompanhado por seus principais ministros e generais, insistiu que continuará sua luta para deter o roubo de combustível. “Vamos relançar a Pemex e torná-la uma empresa estratégica.” “Não vou dar um passo atrás, não vou ceder na luta contra a corrupção. Quero ser parte da transformação do México”, disse no domingo de manhã.

Segundo a petrolífera Pemex, no ano passado foram detectados 12.500 pontos de extração ilegal de gasolina como este. Municípios inteiros do centro do México vivem de uma prática que afoga a companhia estatal, mas alimenta milhares de pessoas nos municípios rurais por onde passa o cobiçado duto. E Tlahuelilpan, o lugar da tragédia, é um bom resumo da prática. Nessa cidade do centro do país, de quase 20.000 habitantes, seis em cada 10 moradores são pobres, de acordo com dados oficiais, e no ano passado foram localizadas outras 10 perfurações no mesmo duto.

“Aqueles que se dedicavam a isso estão reconsiderando sobre o que aconteceu e aceitarão o chamado a que todos se comportem bem”, disse López Obrador, que prometeu um grande pacote de ajudas sociais “a mais de um milhão de pessoas” como alternativa para a população jovem da região. Um dado que chama a atenção é a idade das vítimas; 50 dos 80 feridos têm entre 15 e 34 anos e, entre eles, há um menino de 12 anos.

Neste contexto de austeridade e transformação do país, o presidente insistiu que não usará o helicóptero para se deslocar a tragédias como a de Tlahuelilpan. Fiel ao seu estilo, chegar por estrada à cena do incidente lhe permitiu lançar um aviso. “Eu pude ver que existem postos de gasolina que estão vendendo acima do preço médio. Faço um chamamento aos revendedores que se cuidem, porque conhecemos as margens de lucro. Eles estão tendo o dobro da margem média. É isso, que saibam que estamos atentos”, avisou.

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