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Partido espanhol de ultradireita foi fundado com um milhão de euros de exílio iraniano

EL PAÍS teve acesso às doações secretas do Conselho Nacional da Resistência do Irã, que, desde 2013, pagou salários, cauções e aluguéis do partido de extrema direita VOX

O líder nacional do VOX, Santiago Abascal, e o juiz Francisco Serrano, deputado pelo partido.
O líder nacional do VOX, Santiago Abascal, e o juiz Francisco Serrano, deputado pelo partido. EFE

O exílio iraniano não financiou somente a campanha eleitoral europeia do Vox em 2014, mas também custeou o dia a dia desse partido espanhol de extrema direita desde a sua fundação até a chegada dessas eleições. Despesas como a caução e o aluguel da sede da formação, na rua Diego de León, em Madri, os salários dos funcionários, a remuneração de seu líder, Santiago Abascal – que em 2014 ocupava o cargo de secretário-geral –, móveis e computadores também foram pagos com o fluxo financeiro estrangeiro. O Vox recebeu transferências internacionais dos seguidores do Conselho Nacional da Resistência do Irã (CNRI) em um caixa comum que pagou despesas correntes desde o primeiro dia, de acordo com a planilha secreta das doações à qual o EL PAÍS teve acesso.

O CNRI – um grupo que teve um braço armado que figurou até 2012 na lista de organizações terroristas dos EUA – apoia o Vox desde a sua fundação. O partido recebeu a primeira transferência dos oposicionistas iranianos (1.156,22 euros, cerca de 5.000 reais pelo câmbio atual) no mesmo dia em que foi inscrito no registro de partidos políticos do Ministério do Interior da Espanha, 17 de dezembro de 2013. “Os recursos dos exilados iranianos não serviram apenas para pagar a campanha para as eleições europeias de 2014, mas também para colocar o Vox em funcionamento”, admite Alejo Vidal-Quadras, fundador e primeiro presidente da agremiação.

Os simpatizantes da organização iraniana enviaram 971.890,56 euros (aproximadamente 4,16 milhões de reais, pelo câmbio atual) para a conta do Vox entre dezembro de 2013 e abril de 2014. “Santiago Abascal estava a par de tudo, relatei a ele minha relação com o CNRI e lhe disse que nos financiariam. Ele achou que tudo bem. Adorou. Não pôs nenhuma objeção”, relata Vidal-Quadras. O Vox recusou-se a responder a este jornal.

A força ultradireitista recebeu a primeira transferência do grupo iraniano no mesmo dia em que se registrou como partido

Durante quase cinco meses, seguidores do CNRI em 15 países, incluindo Alemanha, Itália, Suíça, EUA e Canadá, irrigaram a conta do partido. A contribuição mínima foi de 60 euros (257 reais). A máxima, de 35.560,32 (152.086 reais), chegou em fevereiro de 2014, vinda de um próspero empreiteiro iraniano radicado nos EUA. O filho desse doador também contribuiu com a causa dando 21.522,35 euros (92.048 reais, sempre segundo o câmbio atual), segundo os movimentos bancários.

Esse milhão de euros iraniano aterrissou na conta do partido através de 35 arrecadadores – uma figura encarnada por muitos opositores do regime de Teerã espalhados pelo mundo. Sua missão: reunir recursos para o Vox em seus países. Só um destes arrecadadores ordenou seis transferências para a conta da formação radical no valor de 14.800 euros (63.300 reais) entre janeiro e fevereiro de 2014.

Os arrecadadores canalizaram centenas de doações anônimas, cujos responsáveis não constam nem na conta aberta pelo Vox num banco catalão nem na contabilidade interna do partido.h

Um próspero empreiteiro iraniano residente nos EUA e seu filho doaram 57.000 euros ao Vox

Em seus cinco primeiros meses de vida, o Vox recebeu 141 transferências de recursos procedentes de aproximadamente mil iranianos, segundo as mesmas fontes. Nenhuma dessas contribuições superou o limite de 100.000 euros anuais estabelecido pela Lei de Financiamento dos Partidos, de 2012. Na conta específica aberta pelo Vox para receber o dinheiro dos opositores, só chegaram dois donativos de pessoas alheias ao movimento de resistência iraniano. E suas contribuições não passaram de 2.000 euros. A torneira de financiamento dos dissidentes foi fechada antes do início da campanha europeia de maio de 2014.

A análise da planilha confidencial do Vox confirma que a relação entre os radicais e o grupo opositor a Teerã surgiu durante a gestação do partido. Vidal-Quadras, como fundador e primeiro presidente da agremiação, na época pediu auxílio econômico aos responsáveis pela organização iraniana, após anunciar seus planos de deixar o Partido Popular e embarcar em uma nova aventura política, conforme reconhece o político, que também foi vice-presidente do Parlamento Europeu entre 2004 e 2014.

Vidal-Quadras confirma assim que o CNRI organizou a coleta mundial para respaldar a criação do Vox. E observa: "Os donativos não vieram da organização, mas sim de simpatizantes do CNRI. De uma comunidade de exilados muito variada”. A Lei de Financiamento de Partidos Políticos da Espanha proíbe doações de partidos ou organizações estrangeiras.

A organização iraniana recorreu a 35 recaudadores de uma quinzena de países para coletar fundos

A conexão entre esse político e a entidade iraniana remonta à fase do dirigente conservador como eurodeputado (1999-2014). Depois de aterrissar em Bruxelas, Vidal-Quadras recebeu uma delegação dos opositores do regime islâmico, dando início a uma relação que depois se cristalizou na participação do parlamentar em mais de 14 edições do encontro anual que o CNRI promove em Paris. Um evento que no ano passado reuniu 4.000 pessoas e pelo qual já desfilaram os ex-premiês espanhóis José Luis Rodríguez Zapatero e José María Aznar e a ex-vice-primeira-ministra María Teresa Fernández de la Vega.

Documento notarial para Abascal

Vidal-Quadras deixou o Vox em 2015, depois de ser derrotado na disputa para o Parlamento Europeu, com apenas 244.929 dos votos (1,56%). Antes de sair, entregou ao partido um documento registrado em cartório com as transferências do CNRI e os gastos da formação, segundo fontes conhecedoras da contabilidade do Vox. O grupo oposicionista interrompeu o fluxo de recursos para a formação ultradireitista depois que Vidal-Quadras deixou o partido.

O dinheiro iraniano do Vox causou mal-estar dentro da formação, conhecida por suas posições xenófobas e anti-islâmicas. Este jornal revelou na semana passada que o CNRI bancou 80% da campanha europeia de 2014, num valor de 800.000 euros. Abascal e o atual vice-secretário de Relações Internacionais do partido, Iván Espinosa de los Monteros, disputaram aquele pleito.

Abascal afirmou após a divulgação da notícia que as doações foram legais, porque seu partido entregou a lista ao Tribunal de Contas, algo que esse órgão fiscalizador nega.

As novas revelações elevam os recursos estrangeiros do Vox a um milhão de euros. E confirmam que o fluxo iraniano foi crucial para a fundação do primeiro partido radical de direita a desembarcar com força no tabuleiro político espanhol.

A CORRIDA PARA DEIXAR AS LISTAS INTERNACIONAIS DE TERRORISMO

Criado em 1965 em Teerã por três estudantes universitários, o braço armado do Conselho Nacional de Resistência do Irã (CNRI), o Mujahidin-e Jalq (MJ), protagonizou entre 2003 e 2014 uma batalha jurídica para deixar as listas de organizações consideradas terroristas por Reino Unido, União Europeia e Estados Unidos.

A corrida para convencer as instituições internacionais sobre o caráter político deste grupo, que até 1979 contava com uma ala marxista, foi árdua. Isso incluiu a assessoria jurídica do lorde Slynn of Hadley, ex-magistrado da Corte Europeia de Justiça, além da ajuda de especialistas em direito internacional humanitário, segundo um documento da própria organização, intitulado 50 Anos de Resistência pela Liberdade e a Democracia.

O MJ deixou em 2012 a lista de organizações consideradas terroristas pelos EUA, após uma guinada política e judicial que reverteu uma posição de 15 anos. O Reino Unido deixou de considerar o grupo como terrorista em 2008, graças um procedimento de promovido um ano antes por 35 parlamentares.

A organização ganhou notoriedade em 2002 ao revelar a existência de duas instalações nucleares secretas do Irã em Arak e Natanz, segundo um documento dessa organização. E gaba-se em seus relatórios internos do respaldo de 4.000 parlamentares de 43 países. O jornal The Guardian vinculou em novembro a saída do MJ das listas de organizações terroristas a uma campanha muito bem financiada para obter o respaldo de mandatários internacionais.

O CNRI, que em agosto de 2014 tinha 2.800 milicianos em uma antiga base militar norte-americana próxima ao aeroporto de Bagdá, disse a este jornal que considera essas afirmações como parte de uma campanha de notícias falsas promovida por Teerã. Também se desvincula da informação divulgada em 2012 pela emissora NBC que relacionava o MJ ao assassinato de cinco cientistas iranianos.

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