Síndrome de Stendhal

Uma beleza irresistível?

Infarto sofrido por um homem em frente a ‘O Nascimento de Vênus’, de Botticelli, reabre o debate sobre a síndrome de Stendhal

Um homem contempla 'O nascimento de Vênus'.
Um homem contempla 'O nascimento de Vênus'.ALBERTO PIZZOLI (Getty Images)

Galeria degli Uffizi, o museu mais visitado da Itália. Sala Botticelli. Um turista italiano de 70 anos sofre uma parada cardíaca e desaba enquanto contempla O Nascimento de Vênus. À sua direita ficam as telas A Primavera e A Adoração dos Magos; à sua esquerda, A Anunciação; às suas costas, o imponente Tríptico Portinari, do pintor flamengo Hugo van der Goes. Aconteceu no último dia 15, em Florença. Um grupo de médicos que também visitava a exposição conseguiu reanimá-lo com os desfibriladores da pinacoteca.

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Dadas as circunstâncias do fato, muitos pensaram em um possível caso da síndrome de Stendhal: uma espécie de indigestão artística ou overdose de beleza. Um êxtase que afeta quem se sente esmagado pelas emoções, e que pode produzir reações psicossomáticas como taquicardia, náuseas e sufocação, embora alguns especialistas o considerem apenas um mito romântico.

O diretor da galeria, Eike Schmidt, conta ao EL PAÍS que está consciente de que uma visita a um museu desse porte exige um esforço que pode causar estresse emocional, psicológico e também físico. “Eu nunca me permitiria diagnosticar algo assim em nenhum caso concreto, não sou médico, mas se pode supor que se trate de um Stendhal”, diz, acrescentando que “é preciso destacar o efeito da arte, que como a música tem uma grande força psicológica sobre os seres humanos”.

Florença é, aliás, o berço da suposta síndrome. Lá seus sintomas atingiram o escritor francês Stendhal em 1817, quando ele entrou na basílica da Santa Cruz e se sentiu afligido por tanto esplendor. “Tinha alcançado esse nível de emoção em que as emoções celestiais das artes e os sentimentos apaixonados se encontram. Senti palpitações no coração, caminhava temendo cair”, escreveu. Desde então, essas sensações, entre a patologia e a sugestão, levam seu nome e ganharam espaço no imaginário popular.

Deixando de lado o fator romântico da tão discutida síndrome, a médica Jessica de Santis, que atendeu o turista na sala, oferece um ponto de vista asséptico. “É uma síndrome psicossomática que induz a taquicardia e náuseas em frente a obras importantes como as de Botticelli, mas não me atrevo a dar um diagnóstico, porque o paciente tinha problemas coronários importantes”, afirmou ela a este jornal. Era a primeira vez que De Santis, que trabalha em um hospital da Catânia, visitava a Galleria degli Uffizi (ou Galeria dos Ofícios). A sala Botticelli foi considerada “uma experiência mística, fantástica”.

Este caso é o mais grave já visto no museu, mas não o único. O diretor relata que há alguns anos um jovem sofreu um ataque epilético em frente à tela A Primavera, também de Botticelli. “Nossos assistentes de sala têm formação em primeiros socorros, e um deles o atendeu”, relata. E acrescenta que esses funcionários já estão praticamente familiarizados com os desmaios dos visitantes. “Acontece em frente às obras de arte maiores, mais famosas”, observa. O exemplo mais recente se deu há alguns meses, durante a inauguração da nova sala dedicada a Caravaggio. Um homem desmaiou em frente à Cabeça de Medusa, uma das obras mais inquietantes do gênio do barroco. “Quando se trata de simples desmaios é mais fácil teorizar sobre uma síndrome de Stendhal”, opina.

Para ele, a arte é um remédio. “Tem uma função terapêutica, curativa”, salienta. O museu exprime esse poder reconstituinte com atividades especiais. Às segundas-feiras, dia de fechamento ao público, organiza visitas para pessoas com doenças psicoemocionais ou transtornos cognitivos. “Aí vemos o grande efeito positivo para a saúde”, aponta. Há estudos que provam isso. Como o que foi realizado em 2016 no santuário barroco de Vicoforte, no norte da Itália. Lá, uma equipe de cientistas colheu amostras de saliva de mais de cem visitantes antes de entrarem no monumento. O professor Enzo Grossi contou ao jornal La Repubblica que na saída comprovaram que os níveis de cortisol, o chamado hormônio do estresse, diminuíram em 60% na maioria dos casos.