Eleições 2018

Haddad, entre liderar a oposição e enfrentar os fantasmas do PT

“Não vamos deixar de exercer a nossa cidadania. Não tenham medo”, discursa ele a militantes

Haddad durante seu discurso após vitória de Jair Bolsonaro. Andre Penner (AP) | EFE

Mais informações

Os pouco mais de 47 milhões de votos recebidos fizeram com que a derrota não fosse o passeio bolsonarista esperado no começo do segundo turno. Haddad, que não era a escolha preferida do PT e enfrenta resistência dentro do próprio partido, consolidou-se como herdeiro acidental de Luiz Inácio Lula da Silva para disputar um espólio na sigla e na esquerda como um todo. Preso em Curitiba, Lula foi protagonista da campanha até ser formalmente impedido de concorrer. Transferiu seu capital para Haddad, mas no segundo turno tentou se recolher. Mesmo sem a vitória e com a perspectiva cada vez mais distante de que o Supremo Tribunal Federal rediscuta a questão que pode levar à sua liberdade, conseguiu, em meio ao auge do antipetismo e uma onda conservadora, fazer uma modesta maior bancada do Congresso.

Mas a partir do ano que vem o PT voltará à oposição, e se verá às voltas com os problemas que fizeram com que sua tentativa de organizar uma “frente democrática” contra o capitão da reserva naufragasse. Falta de autocrítica pelos escândalos de corrupção nos quais se viu envolvido e a eterna dependência de Lula do partido voltarão à pauta do dia, e caberá a Haddad dar uma resposta para os eleitores - internamente, terá de disputar o protagonismo a presidente do PT, Gleisi Hoffmann.

Quanto à autocrítica, o próprio candidato derrotado fez questão de abordar em seu discurso neste domingo alguns destes desafios: “Vamos continuar nos reconectando com as bases e com os pobres”, afirmou, reconhecendo de forma velada que o partido se afastou destas parcelas da população. Na semana passada o rapper Mano Brown, do grupo Racionais Mc’s, já havia criticado o PT por ter se distanciado de sua principal base eleitoral, o eleitor pobre das periferias das grandes cidades. A vitória de Bolsonaro se deve, em parte, justamente por ter conseguido avançar sobre uma parcela deste eleitorado.

A percepção deste distanciamento aparece no discurso do eleitor petista. No Recife, o auxiliar administrativo Thiago Ferreira, 34, dizia que a autocrítica que o PT precisa fazer terá que passar justamente pela ausência do partido nas periferias. "O PT perdeu espaço na periferia, e foi um espaço que nenhum outro partido de esquerda ocupou depois", diz. "Quem conquistou esse território foram as igrejas evangélicas. Não fosse isso, Bolsonaro não teria sequer chegado ao segundo turno", lamentou.

Mas a reconquista do eleitorado que abandonou o partido passa também pela revisão de alguns dogmas da legenda. Uma parcela expressiva da população cobra uma autocrítica profunda do PT com relação aos escândalos de corrupção na qual o partido se viu imerso desde o mensalão até a Operação Lava Jato. Se nos últimos dias Haddad reconheceu que o partido “aprendeu com os erros” de seus Governos passados, a legenda ainda parece fincar o pé no discurso que vitimiza o ex-presidente sem apontar seus eventuais erros.

No saguão do hotel, Jilmar Tatto, que disputou o Senado pela legenda mas não foi eleito, deu dicas de que nesse ponto, nada deve mudar. “Vamos continuar lutando pela libertação de Lula, que foi preso e condenado injustamente”, afirmou. No final, o próprio Haddad lançou mão da história recente do partido em seu discurso: “A começar em 2016, quando tivemos o afastamento da presidente Dilma, depois a prisão injusta do presidente Lula e a cassação injusta de sua candidatura desrespeitando uma decisão das Nações Unidas”, afirmou repetindo o mantra da legenda.

Enrolado em uma bandeira com as cores do arco-íris, Thiago Ferreira apontava um olhar mais crítico. "Cabe ao PT fazer autocrítica, admitir que alguns integrantes erraram. Mas, por outro lado, diz ele, “criou-se uma realidade midiática de que a corrupção está só com o PT", disse. "E não é bem assim".

Independentemente dos rumos que a legenda irá tomar daqui para frente, integrantes da cúpula petista foram unânimes em afirmar que Haddad terá um papel importante no cenário político. “Ele será um dos grandes quadros novos do PT de agora em diante”, apostou José Américo (PT), deputado estadual eleito por São Paulo. “Ele terá um papel fundamental na condução desta oposição”, afirmou o deputado eleito Paulo Teixeira, que destacou ainda que “Manuela D’Ávila [PC do B] e Guilherme Boulos [PSOL] também estarão na linha de frente no embate contra este Governo fascista [de Bolsonaro]”.

Sobre Ciro Gomes (PDT), que foi criticado por petistas por não ter dado um apoio enfático à campanha de Haddad, nenhuma palavra. O ex-ministro Alexandre Padilha contemporizou, e disse não acreditar em um “rompimento definitivo” entre PT e PDT, apesar de Ciro ter afirmado hoje que “campanha para o PT, nunca mais”. “Estamos juntos na oposição e em vários Estados”, disse Padilha.

Violência e medo

Antes do início do discurso de Haddad foi feito um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da violência política nestas eleições - o mestre Moa do Katendê foi assassinado em Salvador em 10 de outubro após dizer que votou no PT, e Charlione Lessa Albuquerque, 23, foi baleado e morto durante carreata pró-Haddad em Paracaju, no Ceará. Haddad destacou logo no início de seu discurso a importância de que seus eleitores sejam “respeitados” pelo presidente eleito. “Uma parte expressiva do povo brasileiro precisa ser respeitada nesse momento. Diverge da maioria, tem um outro projeto de Brasil na cabeça e merece o respeito no dia de hoje”, afirmou o petista.

O receio de que haja um aumento da violência contra mulheres, LGBTs e negros é compartilhado pelos seus eleitores. "As pessoas vão ter medo de sair na rua. Eu tenho medo. Não consigo dizer mais nada", disse a estudante pernambucana Beatriz Brito, 20, entre lágrimas. Assim como ela, muitas pessoas, a imensa maioria mulheres, choravam após a divulgação de quase todas as urnas já haviam sido apuradas, e o vencedor era Bolsonaro. O engenheiro de pesca Marcelo Barbalho, 47, dizia temer pela violência contra minorias. "A gente espera que Bolsonaro não cumpra o que prometeu", disse. "Não sabemos o que pode vir a acontecer".