Guerra comercial dos EUA contra China e UE já afeta o crescimento mundial

OCDE alerta que cenário de "alta incerteza" faz PIB das grandes economias deixar de crescer no mesmo ritmo

Terminal de cargas no porto de Algeciras, Espanha.
Terminal de cargas no porto de Algeciras, Espanha.CLAUDIO ÁLVAREZ

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“A expansão já pode ter atingido seu pico", alerta o relatório. Ou seja, em 2018 as coisas ainda estão indo bem, mas os riscos estão ao virar a esquina. A revisão que a OCDE faz em setembro das perspectivas apontadas em maio não é tão exaustiva como o relatório de cinco meses atrás, uma vez que não apresenta o que pode estar por vir país a país. Mas bastam 13 páginas de análise da evolução das economias dos membros do G20 para fazer soar o alarme. Para começar, reduz –levemente, sim, mas reduz– a previsão de crescimento para 2018, que agora está em 3,7%, comparada a 3,8% de cinco meses atrás. Também em 2019 a economia deverá crescer 3,7% ou seja, 0,2 ponto porcentual a menos do que o projetado em maio.

Além do mais, o crescimento deixa de seguir o mesmo compasso nas principais economias mundiais, embora as maiores diferenças sejam detectadas especialmente nas economias emergentes. Assim, enquanto para os Estados Unidos e a China (2,9% e 6,7% respectivamente), as previsões de crescimento permanecem intactas, para a área do euro elas caem novamente. A zona do euro crescerá apenas 2% em 2018 (e não 2,2%, como a OCDE previu em maio) e em 2019, 1,9% (2,1% cinco meses atrás).

Mas as revisões mais fortes para baixo estão fora do clube do euro. Quem mais sofre é a Argentina, para a qual a OCDE registra queda acentuada de 3,9 pontos este ano, colocando seu crescimento em -1,9%, e a Turquia, que crescerá apenas 3,2% este ano (1,9 ponto a menos que a previsão para maio) e que em 2019 continuará caindo até atingir apenas 0,5% de crescimento, 4,5 pontos abaixo do previsto há cinco meses. "As medidas necessárias para restaurar a estabilidade na Argentina e na Turquia provavelmente implicarão declínio significativo e desafiador da demanda doméstica", alerta o órgão. Ao menos por enquanto um dos maiores males da área emergente foi evitado: o risco de contágio que espalhou a crise nos anos 90 do século passado. No entanto, "ainda há riscos de tensões mais profundas e um recesso prolongado em termos de investimento"

Tensões comercias

A desaceleração mundial se deve em grande parte aos "efeitos adversos sobre a confiança e os planos de investimento" provocados pelas tensões comerciais, diz a OCDE, que já alertou em maio para o perigo de uma guerra comercial. "Restrições comerciais adicionais prejudicarão os níveis de emprego e de vida, especialmente para as famílias de baixa renda, e também afetarão os investimentos globais", escreve claramente de novo a entidade econômica com sede em Paris.

Não se trata somente das represálias comerciais já tomadas, mas da "incerteza" que reina nesta área. E as consequências são pagas por todos, enfatiza a OCDE, que aponta para os Estados Unidos, cujo presidente, Donald Trump, trava uma batalha comercial com a UE, por um lado, e com a China, por outro. Algo que os próprios norte-americanos comuns estão pagando: os que compraram uma máquina de lavar em julho pagaram 20% a mais do que os que o fizeram em março. Os preços dos produtos siderúrgicos aumentaram nos EUA 18,6% até agosto.

"Estamos vendo como o aumento do protecionismo afeta nossas perspectivas de crescimento", insistiu o novo economista-chefe da OCDE, Laurence Boone, ao apresentar o relatório em Paris.

Por isso, para a OCDE, uma das maiores prioridades, ou "necessidade imediata", como define, é "deter a tendência ao protecionismo e fortalecer o sistema de comércio internacional baseado em regras globais", mediante um "diálogo multilateral" que proporcione às empresas confiança suficiente para investir.

Vulnerabilidades fiscais uma década depois da grande crise

Com a lembrança do décimo aniversário da quebra do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers, que precipitou a crise mundial, a OCDE pede que não se baixe a guarda. Isto porque, embora as economias estejam se recuperando –"e tão somente graças a um grau excepcional de políticas de apoio"–, o padrão de vida dos cidadãos "ainda não atingiu o que seria esperado antes da crise se o crescimento tivesse continuado no mesmo nível durante a última década ". E isso acontece porque "as vulnerabilidades fiscais persistem".

O órgão aponta especialmente para a Europa, onde há preocupação com o resultado das negociações do Brexit –"a maior fonte de incerteza" na região, de acordo com Booone–, bem como políticas recentes adotadas em países como a Itália, onde o setor bancário reduziu a compra de títulos soberanos, "que dão uma demonstração do ritmo em que as vulnerabilidades continuadas na zona do euro podem emergir novamente". Por isso, ele insiste na necessidade da continuidade das reformas que "reduzam o risco de contágio, aumentem a resistência e reforcem o marco fiscal".

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