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“Faço pesquisa no Brasil por paixão. Se levasse em conta a razão, não faria, a frustração é muito grande”

Natália Rizzo Friol, doutoranda em zoologia pela USP, conta como ela e colegas receberam notícia de corte de bolsas da Capes e fala sobre a falta de reconhecimento profissional dos cientistas no país

"Foi um burburinho sem tamanho, ficamos extremamente assustados, totalmente estarrecidos, perdidos", conta Natália Rizzo Friol, doutoranda em Zoologia do Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo (USP), sobre quando ela e seus colegas ficaram sabendo que 200.000 bolsas de estudo poderiam ser eliminadas a partir de agosto do ano que vem. A notícia veio há uma semana, na quinta-feira, 2 de agosto, através da própria Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), um dos órgãos, vinculado ao Ministério de Educação, responsáveis por conceder o benefício a pesquisadores da pós-graduação. "A gente se programa para que a bolsa acabe dentro do prazo de defesa da tese ou dissertação. Se ela acaba antes, isso significa que a pesquisa vai ter que ser concluída antes, algo que geralmente não acontece. É uma forma burra de não continuar com as pesquisas e jogar todo o dinheiro investido no lixo", argumenta ao EL PAÍS, na mesma quarta-feira em que a maioria dos ministros do Supremo votavam a favor de aumentar em 16% seus próprios salários.

Natalia Rizzo, que estuda a evolução das tartarugas na USP.
Natalia Rizzo, que estuda a evolução das tartarugas na USP.

A possível eliminação das bolsas da CAPES, que se tornou possibilidade com os planos do Governo Temer de cortar 580 milhões de reais de seu orçamento, gerou mais de 120.000 menções no Twitter em 36 horas, segundo levantamento da FGV DAPP. Depois da polêmica, o Ministério da Educação afirmou que o corte não irá ocorrer. Mas esta é apenas a ponta do iceberg: "Já nos sentíamos abandonados", resume Friol sobre as dificuldades enfrentadas por ela e outros cientistas no Brasil, que dependem de bolsas de estudo públicas com valores baixos para se dedicarem durante anos, e com exclusividade, a suas pesquisas. E, depois, enfrentarem a fila do desemprego. "Entramos na pós-graduação sem que ninguém nos avise ou explique o que vai acontecer, que o país não está absorvendo doutores", lamenta. E teria seguido adiante caso soubesse desde início das dificuldades? "Por amor, sim. Por razão, não, nunca. Porque a frustração é muito grande. O nível de depressão é altíssimo na pós-graduação".

Friol nasceu em Presidente Prudente, interior de São Paulo, há 31 anos. Fez bacharelato e licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Londrina já com a ideia de emendar o mestrado e doutorado e se tornar professora e cientista. Mudou-se, então, para a capital paulista, onde foi morar na casa dos tios, para ingressar no mestrado de Zoologia da USP, contando com uma bolsa da CAPES de 1.500 reais que lhe exigia dedicação exclusiva. Depois, ao ingressar no programa de doutorado, sua bolsa aumentou para 2.200 reais. Sua pesquisa é muito extensa: Friol descreve e cataloga 23 espécies de uma família de cágados, entre elas algumas novas, que se distribuem pela América Latina, sobretudo Brasil. "Faço ciência de base. Estudo a evolução das tartarugas, que culmina na conservação das espécies", resume. Precisa viajar bastante para fazer trabalho de campo, de um laboratório bem equipado — geralmente restrito a universidades públicas — e de tempo para escrever relatórios e artigos.

Um dos problemas, conta Friol, é que o próprio teor de sua pesquisa acaba se tornando um obstáculo para convencer a sociedade de que vale a pena investir nela. "Eu não atuo diretamente na saúde dos seres humanos. É mais fácil você vender um projeto quando trabalha com zika, câncer ou AIDS", explica ela, que defende a importância de seu trabalho: "Para você criar um plano de manejo, de preservação ambiental, e considerar o impacto de determinada espécie no ecossistema, você precisa saber quem é. Tartaruga não tem uma relação direta com a cura de nada, então eu preservo pelo meio ambiente mesmo. Mas é onde estamos incluídos. As tartarugas, os jacarés, os peixes, os tubarões, as formigas, as baratas... Todos tem um papel ecológico fundamental no ecossistema", argumenta. "Quando encontro uma espécie ainda desconhecida, ela geralmente já entra na lista das ameaçadas de extinção, e aí entra o trabalho de manejo e preservação. O meu trabalho, e o trabalho dos taxonomistas, como a gente é chamado, é o trabalho de descrever, classificar essas espécies. Somos nós que mostramos a diversidade do ecossistema país", conclui.

O valor que recebe da CAPES deve, contudo, ser destinado não só para suas atividades de pesquisa como também para seus gastos pessoais diários, como aluguel e supermercado. Fazer bicos e dividir as despesas com colegas durante uma viagem de campo é algo habitual em sua área para seguir adiante, assim como mudar com frequência para conseguir bancar o aluguel. Viver sozinho é um luxo que pouquíssimos conseguem bancar. Friol só conseguiu deixar a casa de seus tios quando seu namorado Victor, também doutorando do Instituto de Biociências da USP, conseguiu uma bolsa de estudos um pouco melhor, de 3.500 reais, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Foram então morar juntos. "A gente já é biólogo graduado, mas não somos tratados como profissionais. Dentro da pós-graduação, somos estudantes. No dia seguinte em que você termina seu projeto, acabou a bolsa e você não tem seguro desemprego", explica.

Ser cientista no Brasil hoje significa passar dos 30 anos sem estabilidade profissional. Pior: sem nunca ter sido tratado como trabalhador. "Um dos pontos que a gente discute muito é a falta de profissionalização do pós-graduando", explica Friol. "Tenho uma amiga que está na Suíça fazendo doutorado, estudando fósseis de tartaruga. E é como se tivesse carteira assinada: paga imposto que não é barato, mas tem férias, benefícios e todos os recursos disponíveis para ela. Ela não precisa viver com 2.200 reais numa capital, desesperada pra sobreviver", conta.

Por isso, discorda veementemente daqueles que argumentam que é necessário investir mais no ensino fundamental tirando verbas do ensino superior: "É falta de respeito. A gente faz das tripas coração para poder manter a pesquisa e os laboratórios funcionando... E ainda temos que escutar que ganhamos muito. O ensino superior é tão importante quanto o básico, não adianta colocar um contra o outro", defende. "Por que não tirar do auxilio moradia dos juízes? Bancar esse privilégio para quem já ganha muito e tem casa é mais importante que pesquisa?", questiona. Também considera totalmente inapropriada a proposta do ex-governador e presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB) de cobrar mensalidades para estudantes de pós-graduação: "Em um país desigual como o nosso, vai elitizar ainda mais a pós-graduação. Só os ricos vão poder fazer".

O Brasil formou 21.609 novos doutores no ano passado, segundo levantamento feito pela BBC Brasil, que não conseguem ser absorvidos pelo mercado de trabalho. Isso porque o principal meio para continuar a fazer pesquisas é conseguir outras bolsas de estudo públicas ou ser aprovado em concurso público de alguma universidade. As duas vias estão paralisadas por conta da crise econômica no país. Outra forma é tentar um emprego em uma universidade particular ou empresa, mas outro fator influi: "Muitos acabam sendo qualificados demais para um cargo e não conseguem emprego exatamente por isso. Se as universidades privadas pagam menos para um doutor, podem acabar processadas. Então nem contratam", explica Friol. A solução, para muitos alunos, passa então por fazer bicos e consultorias, uma rotina já durante a pós-graduação para complementar a renda. "Se uma empresa vai devastar uma área para construir uma hidrelétrica, por exemplo, ela precisa de um licenciamento ambiental do IBAMA. Então ela chama profissionais como eu para fazer um levantamento sobre que espécies estão naquela região. A gente ganha uma grana relativa, mas você nunca sabe quando vai ser chamado de novo", explica. Outra opção, que sempre está no radar de cientistas brasileiros, é deixar o país.

Friol garante que o seu sonho e da maioria de seus colegas é continuar pesquisando e ensinando. "Mas muitos perdem essa certeza justamente pelas incertezas. As pessoas começam a se questionar. Vão até o fim, terminam o doutorado, mas quando começam a não ver luz no fim do túnel, desistem", conta. São "mentes maravilhosas", com um trabalho "extremamente peculiar", sendo "jogadas às traças". E que, para ela, poderiam estar ajudando, através da inovação que geram, a tirar o país da crise.

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