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OPINIÃO

Sobre Jair Bolsonaro, “posso estar errado”

No lúdico Brasil, que já viveu as trevas da ditadura e a queima das liberdades no altar do autoritarismo, pode-se brincar com tudo, menos com a democracia

Jair Bolsonaro participa de evento em Brasília nesta quarta.
Jair Bolsonaro participa de evento em Brasília nesta quarta. EFE

Faltam três meses para as eleições presidenciais. Sem Lula candidato, o ex-paraquedista militar Jair Bolsonaro aparece em primeiro lugar nas pesquisas. Por sua biografia, o líder da extrema direita gera desconfianças quanto a sua fidelidade à democracia e às liberdades civis caso chegue ao Planalto. Tanto é que até o famoso economista Paulo Guedes, escolhido por Bolsonaro como possível ministro da Fazenda e fiador do candidato perante o mercado financeiro, chegou a ter dúvidas sobre seu compromisso com a democracia.

Em uma entrevista ao jornal Valor Econômico, despertou temores por sua resposta à seguinte pergunta "Se o senhor sentir que o Bolsonaro tem proposta que não represente compromisso com a democracia, se afastaria dele?". Depois de ter confirmado que nesse caso "seguramente" se afastaria, e após ressalvar que não acredita que ele "seja capaz de dar esse passo", acrescentou, deixando no ar uma dúvida assustadora: "Posso estar errado".

Guedes não é um economista qualquer. Doutorado pela Universidade de Chicago e fundador do think tank brasileiro Instituto Milenium, é considerado como um dos maiores pensadores do liberalismo econômico neste país. Apresenta-se como um duro crítico tanto da esquerda como da direita brasileira, sobre a qual escreveu que "afundou-se com a redemocratização, associada ao autoritarismo político e à insensibilidade social do regime militar".

Surpreende que um intelectual que critica a direita por seu autoritarismo e seu compromisso com a ditadura seja o responsável por pensar a política econômica do ultradireitista e ex-militar Bolsonaro, sobre quem admite que pode se enganar a respeito de sua integridade democrática.

Guedes está convencido de que nas próximas eleições nenhum candidato dos velhos e tradicionais partidos políticos, nem sequer os não comprometidos em escândalos de corrupção "terão a chance de derrotar os outsiders nas urnas". Com isso daria a entender que considera Bolsonaro um outsider da política. Isso depois de ter militado em sete ou oito partidos, de estar há 27 anos como deputado no Congresso Nacional (tempo em que só aprovou dois projetos de sua autoria) e de não existir em sua biografia e na de sua família nada destacado fora da militância política.

Talvez, no entanto, o guru econômico de Bolsonaro tenha razão em não colocar a mão no fogo sobre o compromisso do candidato com a democracia. Algumas de suas propostas, como a de cogitar um general do Exército como vice e de colocar outros quatro generais em postos-chaves de seu eventual Governo, e a mais recente, de querer elevar de 11 para 21 o número de ministros do Supremo Tribunal Federal, algo que já aconteceu no Brasil durante a ditadura – em 1965, Castello Branco ampliou de 11 para 16 o total de ministros da Corte –, começam a delinear seu perfil autoritário. Isso levanta sérias dúvidas sobre o respeito democrático que poderia demonstrar caso chegue à presidência.

Sem dúvida, muitos dos que já anunciam seu voto no ex-capitão do Exército consideram que o Brasil precisa de um governo forte e até militar, que ponha ordem nas instituições. Para eles, as dúvidas do famoso economista Guedes, que admite a possibilidade de estar enganado quanto à vocação democrática de Bolsonaro, não fariam senão confirmar suas convicções de querer votar num candidato autoritário. Acham que numa ditadura há menos violência e menos corrupção. Não sabem que no Chile a Suprema Corte acaba de obrigar a família de Augusto Pinochet a devolver cinco milhões de dólares que o ex-ditador tinha escondido. A corte chilena também condenou ex-militares à prisão pela tortura e assassinato do cantor Victor Jara, que cometeu o crime de cantar.

Entretanto, muita gente, inclusive jovens universitários, flerta com a candidatura de Bolsonaro não só por estar convencida da sua fé democrática, como também chega a pensar que só ele seria capaz de sanear a doente democracia brasileira. Esses deveriam ser levados à dúvida aristotélica ao ouvirem seu próprio economista dizer que espera que o candidato seja fiel aos valores democráticos, mas que admite, ao mesmo tempo, que pode estar enganado.

No lúdico Brasil, que já viveu as trevas da ditadura e a queima das liberdades no altar do autoritarismo, pode-se brincar com tudo, menos com a democracia. Fechada sua porta, não existe por trás dela nada além da barbárie e da miséria que arrasta consigo.

As urnas estão às portas. Os brasileiros, cuja jovem democracia dentro de um continente com tentações autoritárias foi sempre respeitada e até admirada no mundo livre, deverão hoje, mais que no passado, pensar duas vezes na hora de escolher quem deverá defender e ampliar os valores da democracia e das liberdades que parecem ter começado a rachar. Não se pode esquecer que o preço das feridas na carne das liberdades recai sempre e em todas as partes sobre a cabeça dos mais pobres e desamparados.

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