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Quatro acontecimentos na Copa que trazem à tona uma sociedade machista e misógina

Torcedores, publicitários e até as próprias entidades do futebol demonstram que igualdade e respeito, apesar do aumento da consciência e das denúncias, continuam sendo questões não resolvidas no ambiente do esporte

machismo Copa do Mundo
Torcedora mexicana na Copa da Rússia. AP

Das profissionais até as torcedoras, as mulheres que foram à Copa na Rússia têm mais dificuldade para realizar seu trabalho ou curtir os jogos pelo mero fato de serem mulheres. Não faltam provas. Falta de respeito constante, abusos, assédio e muitas linhas vermelhas cruzadas com excessiva frequência e facilidade por parte dos torcedores, mas que também são promovidas por parte de grandes empresas na publicidade ou até mesmo pelas próprias entidades do futebol. Os casos das repórteres assediadas diante das câmeras enquanto fazem uma conexão ao vivo, as chacotas machistas de que foram vítimas mulheres de diferentes nacionalidades (uma delas promovida por torcedores brasileiros) ou a ideia imperante, antiquada e falsa de que elas não gostam de futebol, transmitidas por anúncios criados especificamente para o torneio, como o da fabricante de lingerie mexicana Vicky Form, trazem à tona neste mundo –tradicionalmente assumido de domínio masculino– um problema que é de fundo social. “São comportamentos muito questionáveis e referências a uma masculinidade muito simplória –que se espera represente cada vez menos os homens– ,que vão contra o reconhecimento de homens e mulheres como iguais”, observa Sara García Cuesta, socióloga e antropóloga especialista em gênero da Universidade de La Laguna, em entrevista ao EL PAÍS.

Piadas de fundo machista aproveitando a barreira do idioma

Poderia ser “criação” de humor, mas o cenário é mais preocupante. O clássico deboche de fazer um estrangeiro dizer algo em seu idioma se eleva com frequência a um nível de degradação à mulher durante a Copa. São vários os vídeos de denúncia que circulam pelas redes compilando momentos em que homens que falam espanhol ou português se aproveitam de mulheres de diferentes nacionalidades que não sabem seu idioma para fazê-las repetirem palavrões ou frases de conteúdo sexual sem que elas saibam o que estão dizendo.

‘O cântico ‘vagina rosa, vagina rosa’ de alguns membros da torcida brasileira, entre os quais foi identificado um policial, ou o “eu sou cachorra” que um torcedor colombiano incitava uma japonesa a dizer (julgado e condenado publicamente pela Chancelaria colombiana) são alguns exemplos. Para o torcedor argentino Fernando Penovi, que fez o mesmo com uma mulher russa, isso chegou a custar a expulsão de todos os jogos da Copa a pedido do Governo de seu país, por ser “insolente, desonesto e indecente”

“A pressão social está fazendo efeito”, destaca como ponto positivo a socióloga García Cuesta. “Nas situações em que antes se olhava para o outro lado (ou havia até cumplicidade mais ou menos explícita), agora há cada vez mais rejeição social em todo o mundo. Já é politicamente incorreto gravar essas formas de abuso verbal. Não significa que esses comportamentos não continuem sendo reproduzidos, mas as mulheres, principalmente, e também homens estão condenando e respondendo criticamente a isto como nunca antes.”

O assédio e abuso recorrente de repórteres enquanto fazem seu trabalho

mais mulheres profissionais mudando a história da Copa e um contexto de menor tolerância e mais denúncia, mas as dinâmicas de alguns torcedores são as de sempre. Em plena era #MeToo, quando os depoimentos de situações de abuso e assédio sexual ganham manchetes e a mensagem tem a simpatia de boa parte da sociedade– infelizmente ainda não tanto na Justiça, como ficou demonstrado na Espanha com a recente libertação dos implicados no caso La Manada (grupo acusado de estupro na Espanha)–, a cena do homem que interrompe e assedia sexualmente uma mulher que realiza seu trabalho não para de se repetir. Dois fatos como esse, que até se poderia dizer que constituem um gênero de assédio em si mesmo, aconteceram na Copa da Rússia em questão de uma semana.

Primeiro foi o caso da jornalista colombiana Julieth González Therán, do DW Espanhol, a quem um homem tocava no peito e tentava beijar em plena transmissão ao vivo. Dias depois o da jornalista Julia Guimarães, da Globo e da Sport TV, que um torcedor também tentou beijar, enquanto ela respondia com uma bronca denunciando sua atitude. “Não faça isso. Não permito que você faça isso. Nunca, entendeu? Não é educado e não está certo. Não volte a fazer isso com uma mulher, entendeu? Respeito!”. Essa mesma repórter já havia participado com mais jornalistas brasileiras de esporte da campanha “DeixaElaTrabalhar”, criada antes da Copa para conscientizar contra o abuso. Um reflexo da “sensibilização de forma mais contundente e o estado de alerta diante desse tipo de situação que mídias e redes sociais têm adotado”, afirma García Cuesta.

Publicidade que apresenta mulher objeto: ignorância ou provocação?

A publicidade procura chamar a atenção e está perfeitamente ciente dos debates e dos targets sociais aos quais se deve dirigir para ter sucesso”, diz Sara García. O que buscam então marcas como Vicky Form ou Burger King Rússia com seus polêmicos anúncios sexistas lançados durante a Copa?

No primeiro, um casal heterossexual. Ela se queixa de que o torneio faz com que seu namorado “ligue a televisão e nada mais exista”. A empresa de lingerie oferece então uma solução para que “ambos desfrutem igualmente” da competição: roupa íntima inteligente que traduz a intensidade do jogo que ele está vendo em vibração para ela. Sexualização, coisificação e, de novo, querer perpetuar a ideia de que o futebol é coisa de homens. Custa acreditar que a agência encarregada de realizar o spot mexicano não tenha feito pesquisas a respeito e saiba que, nesse país latino americano, 45% da audiência televisiva total da Copa do Brasil (2014) foi feminina, segundo dados da própria FIFA.

“As garotas que ficarem grávidas de astros do futebol mundial terão direito a três milhões de rublos (cerca de 180.000 reais) e Whoopers grátis por toda a vida.” Esse era o slogan desconcertante da campanha da Copa do Burger King na Rússia. Sua intenção, “promover o sucesso da seleção russa para as próximas gerações”. Foi retirado horas depois de seu lançamento com as desculpas da empresa, que reconhecia que o conteúdo era “insultuoso demais”. Uma mensagem que cai no estereótipo e na ideia de que o corpo feminino é de domínio público e que, segundo observa García Cuesta, não tem jeito de “erro de cálculo”. Parece que há reincidência nesse estilo agressivo contra as mulheres por parte da gigante na Rússia, talvez associado a um clima social que pode estar sendo vivido no país como resposta ao empoderamento das mulheres, e carregado de certa misoginia”.

Mensagens que falham já na base

Antes que a Copa deslanchasse oficialmente, a polêmica já estava no ar. E com razão. Começou a circular por redes sociais um manual criado pela Associação do Futebol Argentino (AFA) dirigido a mais de 40 jornalistas, alguns de uma oficina ministrada pela entidade, com um capítulo intitulado O que fazer para ter alguma chance com uma garota russa. “As garotas russas não gostam de serem vistas como objetos”, dizia paradoxalmente o livro que a AFA disse ter retirado rapidamente de circulação, impedindo que chegasse à maioria de seus alunos e atribuindo a criação desse controverso capítulo a “um terceiro, alheio à AFA e que viveu muitos anos na Rússia”.

Em um clima de consciência feminista aumentando e no qual, justamente na Argentina, as mulheres acabam de obter avanços, como a aprovação do aborto pela Câmara dos Deputados. E também num momento em que a própria Copa nos deixou com um gosto de boas notícias, como a possibilidade de que as mulheres iranianas já possam ir aos estádios de seu país ver sua seleção jogar (embora ainda com fortes resistências), a sensação diante desse tipo de situação que se repete sistematicamente é a de que o caminho para a igualdade continua sendo longo e cheio de obstáculos. Como argumenta a jornalista esportiva Marion Reimers em sua coluna no The New York Times, ‘O Absurdo Estereótipo Feminino da Copa’, “o futebol é provavelmente um dos megafones mais poderosos do que acontece a seu redor, um espelho do mundo em que vivemos e que, com a Copa do Mundo, a cada quatro anos, torna visível o estado das coisas”.

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