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TRIBUNA

Acreditar em nossas crianças pode fazer a diferença

Para avançarmos rumo a uma Educação do século 21, precisamos encarar nossas desigualdades e garantir direitos cidadãos básicos a todos

Crianças brincam em uma escola municipal de São Paulo.
Crianças brincam em uma escola municipal de São Paulo. Secom

Para vencermos os obstáculos de desenvolvimento nacional, precisamos urgentemente encarar nossas desigualdades. As que dizem respeito ao acesso à Educação de qualidade, em especial, devem ser prioridade. Construir políticas universais sem considerar as necessidades específicas de cada segmento da população tem se mostrado ineficiente diante da muralha a nossa frente: eliminar um déficit educacional do século passado. Enfrentar esse desafio é dever da gestão pública, da política e da sociedade.

Primeiro, é importante quebrar o mito de que é possível alcançar uma Educação de primeiro mundo sem resolver nossas gritantes disparidades. Nenhum país chegou ao topo do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) - principal avaliação internacional da Educação Básica - só contando com o desempenho dos melhores alunos. As políticas educacionais mais bem-sucedidas no mundo têm a equidade como prioridade. Logo, enfrentar as desigualdades educacionais é questão não só de justiça, mas também de excelência.

Para avançarmos rumo a uma Educação do século 21, precisamos começar garantindo direitos cidadãos básicos a todos. Contudo, da população de 2,5 milhões de crianças e jovens de 4 a 17 anos fora da escola no Brasil, 1,4 milhão fazem parte dos 25% mais pobres da sociedade, conforme apontam dados elaborados pelo Todos Pela Educação. Entre os estudantes de nível socioeconômico muito baixo do 9º ano do Ensino Fundamental da rede pública, quase a totalidade (97,5%) não aprende o que deveria em matemática.

Temos, porém, dado menos condições para os que mais precisam. O balanço de 3 anos do Plano Nacional de Educação (PNE), produzido pela plataforma do Observatório do PNE, mostra que nas escolas mais pobres apenas 13% dos professores têm formação adequada para as disciplinas que lecionam. Já nas escolas mais ricas, essa taxa alcança 69%.

A Prova Brasil 2015 revela outra situação alarmante no 5º ano do Ensino Fundamental: nas escolas públicas mais pobres, quase um terço dos professores diz desenvolver menos de 60% do currículo escolar previsto, enquanto, no outro extremo, apenas 1% dos professores das escolas públicas mais ricas deixam tanto conteúdo curricular de lado. Ensinamos menos aos que mais necessitam.

Os alunos mais pobres estão em desvantagem também em relação ao que se espera deles. Um levantamento do Todos Pela Educação, com base nos dados da Prova Brasil 2015, ilustra esse problema. No questionário contextual do exame, os professores de Matemática e Língua Portuguesa da rede pública podem indicar (segundo categorias: “poucos”, “menos da metade”, “um pouco mais da metade” ou “quase todos”) o quanto acreditam que seus alunos do 5º ano concluirão um dia o Ensino Médio.

O resultado é surpreendente: apenas três em cada dez docentes das escolas mais pobres dizem que quase todos os seus alunos chegarão ao fim do Ensino Médio. Já nas escolas de nível socioeconômico muito alto, 93% dos professores pensam dessa forma.

A descrença no sucesso de nossos estudantes em situações mais vulneráveis pode acarretar uma profecia autorrealizável, que perpetua um ciclo de pobreza e de exclusão. Ao deixarmos de idealizar o crescimento de nossas crianças, abrimos a porta da insegurança, cujo outro lado guarda a desistência dos sonhos.

As consequências negativas dessa descrença ficaram claras em um estudo internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2017 sobre o bem-estar dos alunos, com base na avaliação do Pisa. No mundo todo, estudantes de 15 anos que são depreciados ou subvalorizados intelectualmente por seus professores tendem a ter maiores níveis de ansiedade e nervosismo durante as atividades escolares. Esse fenômeno, por sua vez, está ligado ao pior desempenho em Ciências.

O ceticismo quanto ao potencial de nossos jovens é um dos temas do documentário “Nunca me sonharam”, de Cacau Rhoden, produzido pelo Instituto Unibanco e pela Maria Farinha Filmes. No longa-metragem, um jovem do interior do Ceará lamenta a falta de esperanças de seus pais em seu sucesso escolar, diante da crença de que alguém pobre não teria nem conhecimento nem chance de entrar na universidade. O filme retrata também alguns casos inspiradores de esperança. Estes são, contudo, ainda exceções.

Em resumo, o que o Brasil tem hoje são suas crianças mais vulneráveis com menos acesso à Educação de qualidade. Colocamos professores com menos formação nas escolas mais pobres, nas mesmas em que cobrimos menos o conteúdo curricular. Tudo isso reforçado pelo fato de que não acreditamos no potencial dos alunos em maior dificuldade. Mesmo diante de tamanha injustiça, muito pouco ou quase nada temos feito para mudar esse quadro. O que falta para acordarmos enquanto Nação?

Temos de ter coragem para construir, de maneira sistêmica, políticas que equilibrem as oportunidades educacionais, dando mais aos mais vulneráveis. Estamos falando de equidade mais ampla entre as Unidades da Federação, entre os municípios dentro de cada estado, entre as escolas dentro de uma mesma rede de ensino e dentro das próprias escolas. Essa é uma transformação cultural de longo prazo, mas que deve e pode começar agora.

O ano de 2018 traz abertura para essas mudanças. Podemos decidir, em meio à crise de representatividade, que tipo de renovação política desejamos. Podemos decidir, acima de tudo, que rumo tomaremos enquanto sociedade. O que é certo é que precisamos de uma mudança de postura na sociedade brasileira, que nos faça sonhar e concretizar o futuro das crianças e jovens brasileiros independentemente de suas condições socioeconômicas, de suas origens, de sua raça ou de seu gênero.

Caio Callegari é coordenador de projetos do movimento Todos Pela Educação. É mestrando em Administração Pública e Governo na FGV-SP. 

José Frederico Lyra Netto é co-fundador e coordenador nacional do movimento Acredito. É mestre em políticas públicas pela Harvard Kennedy School.

Priscila Cruz é fundadora e presidente executiva do movimento Todos Pela Educação. É mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School.

O Todos Pela Educação é um movimento da sociedade civil, fundado em 2006, com o propósito de melhorar o Brasil impulsionando a qualidade e equidade da Educação Básica.

 

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