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O sucesso do modelo educacional do Canadá, onde os professores não fazem concurso público

Os diretores das escolas têm um papel essencial na criação dos programas acadêmicos, num dos países ‘top 10’ no exame PISA

Educacion Canada

Em algumas províncias do Canadá, como Ontário, os professores são contratados em função daquilo que o colégio precisa. Não há concursos públicos, são os diretores de escola que determinam quantos docentes são necessários a cada ano e para quais disciplinas. O candidato deve dar uma aula diante de um comitê de especialistas e ser aprovado numa entrevista pessoal. Se escolhido, é contratado e vira funcionário público. Durante os dois primeiros anos, o diretor do colégio revisará seu trabalho e, se estiver dentro dos padrões, voltará a enfrentar esse controle a cada cinco anos. Aos 54 anos de idade, esse professor poderá se aposentar, e sua pensão será uma das mais altas do corpo de funcionários de Ontário, 48.000 dólares canadenses por ano (136.200 reais). O salário médio de um professor nessa província, cuja capital é Toronto, é de 80.000 dólares por ano (227.000 reais).

O cenário descrito resume uma das principais diferenças com relação à Espanha: o método de seleção do magistério. O Canadá se encontra entre os 10 países do mundo em melhor posição no relatório PISA, um estudo elaborado pela OCDE em diferentes países para medir o rendimento dos alunos em matemática, ciência e interpretação de texto. Em 2015, o Brasil ficou em 63º. lugar, num total de 70 nações avaliadas.

Em Ontário, onde 94% dos alunos estão matriculados em escolas públicas, quando os alunos completam 14 anos podem escolher as disciplinas que mais lhes interessam e criar sua própria ementa. Além disso, podem escolher entre três níveis de dificuldade para cada uma dessas matérias: acadêmico (que lhes permite passar à Universidade), applied level (que conduz ao chamado college) ou locally developed (pensado para uma rápida incorporação ao mercado de trabalho). A educação obrigatória vai até os 16 anos.

“Nosso sistema não é academicista; não se baseia em memorizar conteúdos de livros de texto, e sim na aplicação prática”, diz Bruce Rodrigues, ministro da Educação de Ontário, que concentra 40% da população total do Canadá. A igualdade é uma das prioridades do programa educacional num país onde 22% dos habitantes nasceram no exterior. “Temos muito em mente coletivos como o LGTBI, e modificamos os programas em função das características dos habitantes das diferentes regiões”, afirma Rodrigues.

Cita um exemplo: se houver um grupo grande de crianças imigrantes que não viveram em países onde havia jardins nas casas, elimina-se esse tipo de conteúdo dos enunciados ou perguntas dos exercícios em classe. “Estamos identificando as novas narrativas que os alunos usam; aí está a inovação”, diz o ministro. Seu gabinete participa de forma “muito ativa” na nova medição de competências lançada pelo PISA para 2018, a chamada “competência global”, um novo questionário que analisará o pensamento crítico, a capacidade de interagir com respeito, a empatia, a compreensão dos conflitos mundiais e o conhecimento intercultural dos alunos de 15 anos.

Rodrigues começou sua carreira profissional como professor de matemática e confia plenamente na capacidade dos diretores e dos chamados school boards (comissões escolares) para desenvolver os programas acadêmicos e contratar professores. Como podem estar seguros de que o processo é justo e transparente? “Todos os professores precisam se associar, e temos um corpo regulador que gere isso. Os diretores supervisionam se sua maneira de dar aula é a correta e, se não a cumprirem, podem ser demitidos”, detalha o ministro provincial.

O orçamento destinado pelo Ministério de Educação de Ontário para a educação infantil, primária e secundária no ano letivo 2017-2018 é equivalente a 77,8 bilhões de reais, frente aos 14,1 bilhões entregues às universidades e colleges (centros de ensino superior com um enfoque mais prático que as universidades).

Marta Velasco no instituto Dom Mills de Toronto.
Marta Velasco no instituto Dom Mills de Toronto.

Todd Bushell é o diretor do colégio público Don Mills Collegiate Institute, em Toronto. “Focamos o pensamento crítico, porque a informação está na Internet”, diz, enquanto percorre algumas das salas de aula mais inovadoras do centro, como a de arte e design gráfico, ou a de green industries (sobre a mudança climática). Uma das chaves do sistema educacional canadense é que as habilidades emocionais sejam parte da avaliação. “Medimos os hábitos de trabalho, o autocontrole, a responsabilidade, a organização, a colaboração e a iniciativa própria. São os indicadores de sucesso na vida adulta do aluno”, observa.

Esse colégio tem 90 estudantes estrangeiros. A espanhola Marta Velasco é uma delas. Chegou em agosto para cursar um ano de intercâmbio. Tem 16 anos e estuda no colégio subvencionado Gredo San Diego, em Guadarrama, na província de Madri. Está no penúltimo ano do ensino médio. “A principal diferença com relação à Espanha é que aqui você se autorregula. Fico com o celular em cima da mesa e eu decido se tenho uma ligação urgente para atender.” Acha curioso que quase todos os seus colegas trabalhem em um parque de diversão nos finais de semana. “Na Espanha tudo é anotar. Aqui as coisas são decididas por consenso, o professor nos pergunta em que dia nós achamos que está bem entregar o trabalho. Não há tanta disciplina.”

Conta que vai muito mal em matemática, mas que neste ano escolheu a modalidade intermediária e está avançando num bom ritmo. Tem aulas de Direito (legislação do Canadá), antropologia e parenting (criação dos filhos), uma disciplina em que é ensinado o processo de gestação e a necessidade de igualdade na criação. Nela, os alunos levam para casa durante quatro dias um robô com forma de bebê. A matrícula para alunos estrangeiros custa 14.000 dólares canadenses por ano (cerca de 40.000 reais), ao quais se somam 1.200 de alojamento em uma família por mês (3.400 reais).

Para tramitar sua estadia, ela recorreu à consultoria de educação The Lemon Tree Education, com sede em Madri. Essa empresa administra os intercâmbios de 200 alunos espanhóis por ano, e 70% deles viajam para o Canadá. “A maioria embarca no quarto ano do ESO [equivalente ao 1º ano do ensino médio no Brasil], mas depende da maturidade do aluno”, afirma Rubén Castillo, cofundador da empresa. A consultoria examina cada caso: mede as expectativas do aluno, suas notas e sua experiência mais complicada, entre outras questões. Trabalha com um gabinete externo de psicólogos. Cobre as 10 províncias do Canadá, e seus honorários chegam a 3.000 euros (11.000 reais). “Do ponto de vista acadêmico, o Canadá é um dos países mais avançados do mundo. Sua visão sobre o respeito aos outros é essencial e isso se transmite muito bem nos colégios. Os alunos voltam transformados”, diz Castillo. A Fundação Amancio Ortega oferece 500 bolsas por ano para que alunos espanhóis do quarto ano do ESO possam passar um ano grátis no exterior.

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